Wolverine: Coiotes da Fronteira – Logan investiga a cruel realidade da imigração ilegal

Leonardo Fraga
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Quando assumiu a revista Wolverine em 2003, Greg Rucka deixou claro que pretendia levar Logan para um caminho diferente. Logo no primeiro arco, “A Irmandade” (que você confere AQUI), apresentou uma história noir de sobrevivência e investigação, com um Wolverine sem uniforme, agindo nas sombras e envolvido em casos dos quais os X-Men dificilmente participariam.





O escritor aprofunda essa proposta em “Coiotes da Fronteira” (Coyote Crossing), publicado no Brasil pela Panini Comics em Wolverine #4 a #8 (originalmente em Wolverine #8–11, de 2004). Em vez de apostar apenas na ação desenfreada, Rucka utiliza o mutante canadense para discutir imigração ilegal, tráfico de pessoas, exploração humana e a eterna batalha entre o homem e a fera que coexistem em Logan.


Esboços de Leandro Fernandez.

Nos desenhos, Leandro Fernandez substitui temporariamente Darick Robertson e também assume as capas no lugar de Esad Ribic. Seu Wolverine é claramente inspirado na versão interpretada por Hugh Jackman nos filmes dos X-Men: mais alto e bonito, distante do baixo, feio e desgrenhado retratado por Robertson. Fernandez reforça essa aproximação ao vestir Logan frequentemente com uma regata branca e a tradicional “dog tag” militar, visual consagrado nos cinemas.

X-Men 2 - 2003



As capas também chamam atenção. A edição #6 faz uma clara homenagem a “Apocalypse Now” (1979), enquanto a #8 é uma das ilustrações mais lembradas deste arco.


Apocalypse Now (1979)


 

Um thriller de fronteira baseado em fatos reais

 

Como toda boa história ambientada no deserto, esta começa em um posto de gasolina aparentemente abandonado nos arredores de El Paso - Texas. Logan cruza a região em sua motocicleta como um verdadeiro lobo solitário,  quando encontra um caminhão repleto de imigrantes clandestinos mortos por asfixia durante a travessia entre México e Estados Unidos.





A sequência é extremamente impactante. Indignado, Wolverine inicia uma investigação que rapidamente se transforma em uma cruzada violenta contra uma organização criminosa especializada em tráfico de pessoas. Ao mesmo tempo, ele continua sendo perseguido pela agente do FBI Cassie Lathrop, apresentada no arco anterior. Ela permanece desconfiada das motivações de Logan e determinada a rastrear seus movimentos, especialmente quando Logan está envolvido em episódios de violência.





Embora Wolverine continue sendo um herói, “Coiotes da Fronteira” mostra um Logan profundamente revoltado diante da crueldade humana. Rucka coloca constantemente em conflito seus dois lados, o homem e a fera e faz o leitor questionar qual deles prevalecerá. Mas à medida que a investigação se desenrola, até o leitor quer muito saber quem cometeu o crime e espera aquele gatilho em que Logan vira uma animal e trucida seus inimigos.





Rucka mantém a proposta iniciada em “A Irmandade” de afastar Logan do universo tradicional dos X-Men. Quase não há referências aos mutantes nem às aventuras de super-heróis. Em vez disso, Wolverine circula por bares de estrada, enfrenta traficantes, agentes corruptos e criminosos ligados ao contrabando de pessoas, cercado por personagens inéditos. Entre eles está Nestor, dono de um bar em El Paso. A amizade entre os dois é construída de maneira simples e eficiente: Logan o havia ajudado no passado, e agora encontra nele alguém disposto a retribuir o favor.





 

Uma história inspirada pela realidade

 

Rucka pesquisou profundamente o tema antes de escrever o roteiro. A “Operação Gatekeeper”, iniciada na década de 1990 pelo governo dos EUA, reforçou drasticamente a fiscalização da fronteira entre México e Estados Unidos. Como consequência, milhares de imigrantes passaram a evitar os centros urbanos e buscar rotas muito mais perigosas, atravessando regiões inóspitas como o Deserto de Sonora, no Arizona, ou o Rio Grande, no Texas.




No início dos anos 2000, a fronteira vivia um intenso processo de militarização, enquanto o fluxo migratório permanecia elevado. Para se ter uma ideia, somente em 2004 as autoridades americanas registraram entre 1,16 milhão de pessoas que conseguiram atravessar a fronteira e 1,24 milhão de apreensões de pessoas tentando entrar ilegalmente no país. Centenas morriam todos os anos vítimas de desidratação, insolação ou hipotermia durante as travessias pelo deserto.




Nesse cenário, os chamados “coiotes”, conhecidos no México como “polleros” tornaram-se figuras fundamentais. Eles transformaram a travessia em um negócio clandestino extremamente lucrativo, cobrando valores cada vez maiores conforme aumentava o risco de fiscalização. Ao mesmo tempo, multiplicavam-se casos de extorsão, abandono e exploração dos próprios migrantes.





 

As tragédias envolvendo caminhões também são reais

 

Em 2003, dezenove imigrantes morreram asfixiados dentro de um caminhão abandonado próximo a San Antonio, no Texas. Casos semelhantes continuaram ocorrendo nas décadas seguintes. Em 2017, dez pessoas morreram em circunstâncias parecidas em um caminhão encontrado no estacionamento de um Walmart. Em 2022, outra tragédia chocou o mundo: cinquenta e três imigrantes morreram presos na carroceria de um caminhão sem ventilação.


Caminhão encontrado com imigrantes mortos em 2017. Imagem: The Guardian


A maioria dessas pessoas era formada por mexicanos, mas também havia migrantes de diversos países latino-americanos, incluindo brasileiros.

O tema era tão presente na época que serviu de base para a novela “América” (2005), de Glória Perez. Interpretada por Deborah Secco, a protagonista Sol tenta diversas vezes cruzar ilegalmente a fronteira com a ajuda de coiotes, enfrentando o deserto, a polícia de imigração e sucessivas deportações antes de finalmente conseguir chegar aos Estados Unidos em busca de melhores condições de vida.


Sol (Deborah Secco) tenta atravessar fronteira dentro de painel de caminhão. Imagem: Rede Globo


Toda essa realidade serve como pano de fundo para a investigação conduzida por Logan. Durante a apuração, Wolverine descobre que muitos imigrantes recorrem aos caminhões porque simplesmente não conseguem pagar os altos valores cobrados pelos coiotes. Essa vulnerabilidade acaba sendo explorada por traficantes de drogas. É então que surge Rojas, chefe de um cartel que obriga migrantes a engolirem pacotes de heroína para transportar a droga através da fronteira. Quando algo dá errado, essas pessoas são simplesmente abandonadas para eliminar qualquer evidência.








A descoberta desperta ainda mais a fúria de Logan. Determinado a colocar um fim no esquema, ele atravessa o Rio Grande a nado para caçar Rojas em território mexicano. Entretanto, quando tudo parece caminhar para um confronto sangrento, Rucka surpreende ao apresentar uma reviravolta moral que obriga Wolverine a enfrentar uma decisão muito mais difícil do que simplesmente matar seus inimigos.

É justamente nos capítulos finais que “Coiotes da Fronteira” revela sua maior força, deixando a violência em segundo plano para explorar questões éticas e emocionais.





 Um Wolverine movido por dilemas morais

 

A dualidade de Wolverine permeia toda a história. Embora suas garras e sua brutalidade estejam sempre presentes, Rucka prefere construir um personagem movido pela empatia diante das vítimas. Essa abordagem já aparecia em “A Irmandade”, onde Logan lembrava bastante Atticus Kodiak, protagonista da série de romances policiais escrita pelo próprio Rucka: um homem constantemente confrontado por dilemas éticos.


Queen & Country lançado pela Oni Press, com roteiro de Greg Rucka.


Outra influência evidente vem de “Queen & Country”, série protagonizada pela agente britânica Tara Chace. Nesta série em quadrinhos publicada pela Oni Press, Rucka constrói histórias de espionagem nas quais nunca é totalmente claro quem está certo ou errado. Os serviços secretos vivem em permanente conflito moral, enquanto Tara precisa tomar decisões difíceis em missões repletas de ambiguidades.





São personagens complexos, marcados por conflitos internos e escolhas impossíveis. Encontrar esse mesmo nível de profundidade em uma revista mensal de super-heróis é uma das maiores surpresas oferecidas por Greg Rucka em sua passagem por Wolverine.

Ao utilizar fatos como base para sua narrativa, Greg Rucka transforma Wolverine no protagonista de um drama profundamente humana. Suas garras deixam de representar apenas vingança e violência para se tornarem um instrumento de justiça diante de uma tragédia humanitária que convivemos até os dias atuais, com cada vez mais brutalidade.



O grande trunfo da história, naturalmente, continua sendo Logan. Seu constante embate contra a própria natureza, a humanidade que demonstra diante das vítimas e o peso de suas escolhas fazem deste arco uma leitura bastante singular dentro da extensa trajetória do personagem.

A sequência final, em que Wolverine surge carregando um bebê após deixar a propriedade de Rojas e descobrir o que realmente aconteceu naquele lugar, prende o leitor até a última página. O desfecho reforça a principal ideia do roteiro: por trás das garras de adamantium ainda existe um homem tentando impedir que a fera assuma definitivamente o controle.





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