Alien Volume 1: Linhagem de Sangue – xenomorfos soltos, mais uma vez

Leonardo Fraga
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Linhagem de Sangue é uma estreia bem promissora para a série Alien nos quadrinhos da Marvel, que assumiu a publicação da franquia após a aquisição da Fox pela Disney. Para essa nova fase, foram reunidos dois nomes de peso: o roteirista Phillip Kennedy Johnson (Superman, O Incrível Hulk) e o desenhista Salvador Larroca (Homem de Ferro, X-Treme X-Men). A dupla entrega uma história que recupera alguns dos principais elementos que fazem de Alien uma franquia tão boa, como a claustrofobia, o suspense e, principalmente, o instinto de sobrevivência de seres humanos completamente vulneráveis diante de uma criatura implacável.

Quando os xenomorfos entram em cena, não adianta gritar, é hora de correr ou simplesmente aceitar que a vida acaba.




Publicado originalmente em seis edições e lançado no Brasil pela Panini Comics em 2024, em um volume de 160 páginas com tradução de Marcelo Alencar, o arco bebe diretamente dos dois primeiros filmes da franquia. De um lado, temos pessoas confinadas em uma estrutura espacial tentando sobreviver a uma criatura assassina (como em Alien – O Oitavo Passageiro (1979)). De outro, uma missão de resgate que rapidamente se transforma em um pesadelo, cercada por segredos, interesses corporativos e reviravoltas (Alien – O Resgate (1986).




O protagonista é Gabriel Cruz, ex-chefe de segurança da Estação Epsilon, uma instalação pertencente à Weyland-Yutani Corporation. Vinte anos antes, ele e um colega ficaram presos em um berçário de xenomorfos ao participar de uma operação de resgate envolvendo uma nave sobrevivente de Hadley’s Hope. Mesma colônia onde ocorreu a trama do segundo filme da franquia. Gabriel conseguiu escapar, mas a experiência deixou marcas profundas.




Os traumas do passado continuam assombrando o veterano, que é obrigado a participar de sessões de terapia com Bishop, androide sintético do mesmo modelo visto em Aliens – O Resgate (1986) e Alien 3 (1992), interpretado por Lance Henriksen.




Conhecido pelo uso de tracing em seu trabalho, Larroca reproduz as feições de Henriksen com impressionante fidelidade, enquanto Gabriel Cruz ele usa seu próprio rosto no personagem. Recém-aposentado, Gabriel tenta reconstruir a relação com o filho, Danny, sem saber que o rapaz está secretamente envolvido com uma organização terrorista que luta contra a Weyland-Yutani.



Salvador Larroca emprestou suas feições para Gabriel Cruz.


A situação sai rapidamente do controle quando Danny e seu grupo invadem a Estação Epsilon com a intenção de sabotar servidores do governo que acreditavam fazer parte de uma base de ciberguerra. O problema é que a instalação esconde algo muito mais perigoso: um laboratório repleto de facehuggers e xenomorfos, entre eles o Alpha, um espécime desenvolvido e letal. 




A origem do Alpha vem do próprio Cruz, que chegou a ser infectado na missão 20 anos atrás, e teve o espécime retirado de seu corpo enquanto ele ainda estava vivo. Algo fora do comum, já que geralmente os infectados morrem com o ferimento quando os tais chestbursters rompem o peito e as costelas para sair. Aquela cena grotesca, que Larroca não desperdiça e traz durante a história também.




Encurralados, os cientistas da Epsilon ativam os protocolos de segurança que isolam completamente a estação, mas um tiroteio caótico acaba libertando os aliens. Em pouco tempo, os xenomorfos começam a percorrer os corredores da instalação, transformando o local em um matadouro.




É nesse momento que Gabriel volta a ser arrastado para o pesadelo. Seu antigo chefe na Weyland-Yutani, Ted, revela que a Estação Epsilon perdeu completamente o contato com o exterior e que Danny utilizou os cartões de acesso do pai para entrar na instalação. A corporação coloca Gabriel contra a parede: ele terá que recuperar o valioso espécime Alpha ou enfrentará prisão perpétua enquanto seu filho será deixado para morrer no espaço.





Sem alternativas, Gabriel embarca rumo à estação ao lado de um pequeno grupo de fuzileiros navais coloniais. Quando chegam ao local, encontram um cenário de pura carnificina, com barricadas improvisadas, corpos espalhados e vestígios de uma batalha dentro da instalação.

Embora o estilo hiper-realista de Larroca possa dividir opiniões, é difícil reclamar de seu trabalho com os xenomorfos. As criaturas são extremamente detalhadas e ganham uma movimentação muito mais ágil. O traço do artista combina muito com a proposta da história de levar realismo e muito body horror proposto por Johnson.




Johnson também aproveita a oportunidade para deixar sua marca na franquia ao introduzir uma ameaça inédita: a Rainha da Escuridão. Sua participação ainda é relativamente pequena, mas funciona como uma promessa de que o universo de Alien pode explorar caminhos diferentes sem abandonar os elementos que fizeram a franquia funcionar.




Mas nesse primeiro volume o centro de tudo está no drama familiar. Enquanto Gabriel tenta atravessar a estação infestada para encontrar o filho, lembranças dolorosas do passado voltam à tona, transformando a missão de resgate em uma espécie de acerto de contas com os próprios fantasmas. É justamente essa dimensão emocional que impede a história de se transformar apenas em mais uma sequência de perseguições e mortes.





A Weyland-Yutani, naturalmente, continua cumprindo seu papel de megacorporação disposta a colocar qualquer vida humana em segundo plano quando existe algo valioso a ser recuperado, surgindo assim reviravoltas importantes devido à isso.




Phillip Kennedy Johnson entende que, para uma história de Alien funcionar como terror, não basta colocar xenomorfos correndo pelos corredores. É preciso fazer o leitor se importar com as pessoas que estão sendo perseguidas. O confronto final entre Gabriel e o Alpha no espaço é um dos melhores exemplos disso e entrega uma sequência de tirar o fôlego.




Linhagem de Sangue funciona como uma ótima porta de entrada para a fase da Marvel, ou qualquer um que queira começar a ler algo em quadrinhos de Alien. O arco recupera o suspense e a atmosfera claustrofóbica dos primeiros filmes, apresenta novos elementos ao universo e, principalmente, encontra uma maneira de transformar uma história de sobrevivência em um drama sobre culpa, família e trauma. É além de uma história sobre sobreviver aos xenomorfos: é sobre até onde um pai está disposto a ir para salvar o próprio filho.




No Brasil, a Panini Comics já publicou outros dois volumes da série, “Renascimento” e “Icarus”, este último com arte do brasileiro Julius Ohta. São edições excelentes com muitos extras e textos de apoio e capas incríveis de diversos artistas, mostrando que a passagem de Alien pela Marvel ainda tem muito ácido pra babar.

Lembrando que durante 30 anos, a Dark Horse foi responsável pelas histórias em quadrinhos da franquia Alien. Desenvolveu um universo próprio com tramas, personagens e criaturas. Ao chegar na Marvel todo esse passado é abandonado e as edições da Marvel é que fazem parte do novo cânone da franquia. Mesmo assim a editora está publicando em formato Epic Collection o material produzido pela Dark Horse, que ainda são inéditos no Brasil.




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