Dylan Dog #444 e #445 – Morte em Dezesseis Nonos e Xenon!

Leonardo Fraga
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Livre da curadoria de Dylan Dog a partir da edição #441, Roberto Recchioni voltou aos roteiros da série em uma história dupla, publicada nas edições #444 e #445. Trata-se de uma aventura diferenciada, que aposta na experimentação da narrativa visual dos quadrinhos. Com os desenhos de Corrado Roi, a dupla entrega um projeto ousado e esteticamente deslumbrante.






A proposta já se revela no título da primeira parte, Morte em Dezesseis Nonos (16:9), que indica o formato adotado: páginas divididas em três quadros horizontais que ocupam toda a largura, emulando a linguagem de um storyboard cinematográfico. A sensação é a de estar diante de um filme em quadrinhos, cena a cena.




Na trama, Dylan é chamado por uma cliente, Mina Stuart, para investigar o desaparecimento do namorado, um restaurador de arte contratado por um excêntrico casal: Lucille e Joe Bargel. Ricos e enigmáticos, os colecionadores oferecem a Corrado Roi a oportunidade perfeita para explorar elementos de escultura, arquitetura e surrealismo. Suas páginas evocam desde a fantasia sombria de H. R. Giger até o lado onírico de Moebius.




No centro do enredo está um quadro misterioso pertencente ao casal, uma pintura que parece concentrar o elemento sobrenatural da história. Lucille, em especial, é o centro de tudo: sensual, letal e imortal. Inspirada visualmente na atriz Eva Green, ela é uma entidade ancestral que se alimenta de emoções humanas, sobretudo daquelas ligadas ao prazer e ao sofrimento.



Eva Green, inspiração de Roi para compor Lucille.


Depois de muito “rala e rola”, Lucille leva Dylan até seu planeta natal, Xenon, e lhe propõe um pacto sombrio: trazer vítimas para saciar sua fome ou morrer ele mesmo dentro de sete dias.





Fiel a seus princípios, Dylan sequer considera sacrificar inocentes. Com isso, a história elimina qualquer possibilidade de se transformar em um suspense ao estilo “O Chamado” (2002), no qual as pessoas que atendem ao telefone após assistir à fita de Samara, são condenadas ao escutar: “Sete dias”. A verdadeira batalha, então, acontece no plano emocional.

Lucille tenta consumir as emoções mais profundas de Dylan, forçando-o a reviver traumas como a perda de seu grande amor, Lillie Connolly. O medo da Dama de Negro. O confronto com os mortos-vivos encontrados em sua história de estreia e o reencontro com Johnny Freak. No clímax, Dylan envenena a própria criatura com sentimentos que Lucille jamais havia experimentado.




 

Recchioni aproveita a trama para inserir uma reflexão metatextual baseada na teoria freudiana de Eros e Thanatos, que trata do impulso de vida e do desejo de morte. A libido, aqui, se entrelaça com a destruição, e é dessa tensão que surge a potente carga erótica da história. Uma tensão que, por vezes, remete à sensualidade violenta e bizarra de Druuna, de Serpieri.




Lucille também remete à personagem de maior sucesso da carreira de Recchioni, Mater Morbi, que chega a aparecer brevemente na história, quando Lucille explora os momentos da vida de Dylan Dog. Apesar de todo o conteúdo interessante apresentado na primeira edição, o roteiro não traz grandes surpresas ou reviravoltas e acaba se desgastando na segunda parte, apenas explicando tudo.





Ainda assim, a força dos desenhos de Roi compensam a leitura como um todo. Conhecido por seu traço expressivo e por sua capacidade de criar atmosferas escuras, o artista entrega páginas que valorizam o silêncio, a sugestão e o suspense.





Seu trabalho aqui está entre os mais impressionantes de sua carreira. As sombras parecem líquidas, os corpos se dissolvem nas páginas e cada quadro transmite uma sensação de desconforto. Há momentos em que o leitor simplesmente para de acompanhar a trama para contemplar a arte. Roi está em estado de graça, com liberdade quase total para criar cenas de sexo intensas, visões surreais e delírios tentaculares que beiram o grotesco.





Temos aqui uma verdadeira ópera erótica de Dylan Dog: estilizada, perturbadora e absolutamente hipnotizante. Um espetáculo visual mais interessante do que o roteiro, que não é forte o suficiente para sustentar a trama por duas edições.

No Brasil estas duas edições continuam inéditas, mas em Portugal as duas edições foram publicadas em uma edição única pela editora A Seita.



Edição Portuguesa.




Uma curiosidade é que a capa da edição #445 foi inspirada em Tex #80, “Spettri!”, de Aurelio Galleppini. A releitura fez parte de uma iniciativa da Sergio Bonelli Editore em homenagem a Tex, personagem que completava 75 anos à época. As capas de Dylan Dog são assinadas pelos irmãos Raul e Gianluca Cestaro.





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