Escrito por volta do século VIII a.C. e atribuído ao poeta grego Homero, A Odisseia é um dos pilares da literatura ocidental. O poema épico narra a longa e difícil viagem de Odisseu, ou Ulisses na tradição romana, para retornar à ilha de Ítaca após o fim da Guerra de Troia.
Esta jornada atravessou gerações
e ganhou incontáveis releituras. Inspirou romances, filmes, séries, peças de
teatro e diversas obras da cultura pop, além de adaptações em quadrinhos publicadas
em vários países. No Brasil, a escritora e jornalista Silvana Salerno e o quadrinista
Jefferson Costa (Jeremias: Pele) assumiram o desafio de adaptar o clássico para uma HQ de 116
páginas, publicada pela Editora FTD em 2022.
Transformar um poema com mais de
12 mil versos em pouco mais de uma centena de páginas parece uma tarefa quase
impossível. O mérito da adaptação está justamente em preservar a essência da
obra de Homero sem abrir mão das possibilidades narrativas que os quadrinhos
oferecem. O resultado não é apenas um resumo da história, mas uma interpretação
que respeita o espírito do texto original.
Enquanto A Ilíada acompanha os
acontecimentos da Guerra de Troia, A Odisseia mostra o que acontece depois do
conflito. Segundo a mitologia grega, a guerra começou quando Páris, príncipe de
Troia, levou Helena, esposa do rei espartano Menelau, para sua cidade. Em
resposta, Menelau reuniu diversos reis gregos, entre eles Agamêmnon, Aquiles,
Ajax, Nestor e Odisseu, dando início a um cerco que duraria dez anos.
Jefferson Costa sintetiza a
Guerra de Troia em uma única imagem, incluindo o famoso Cavalo de Troia,
estratégia concebida por Odisseu que permitiu aos gregos conquistar a cidade. É
uma decisão acertada. Em vez de gastar páginas recapitulando um episódio já
bastante conhecido, a adaptação concentra sua atenção naquilo que realmente
define A Odisseia: a longa e atribulada jornada de Odisseu para casa.
Desde o início, Silvana Salerno deixa claro que sua preocupação não era reproduzir todos os episódios do poema, mas preservar sua força dramática. Para isso, a autora revisitou diferentes traduções da obra de Homero, selecionando apenas os acontecimentos indispensáveis para que a jornada do herói mantivesse seu impacto. Alguns episódios ficaram de fora, mas a estrutura narrativa permanece sólida e conduz o leitor com naturalidade.
A história começa em Ítaca, onde Penélope e Telêmaco vivem sob constante pressão. Vinte anos após a partida de Odisseu, ninguém acredita mais que o rei esteja vivo. Enquanto Penélope é cercada por pretendentes interessados no trono, Telêmaco parte em busca de notícias do pai. Paralelamente, Odisseu permanece prisioneiro da ninfa Calipso, apaixonada pelo herói. Libertado por ordem dos deuses, ele chega à terra dos Feácios, onde narra tudo o que viveu desde o fim da guerra.
É nesse momento que a HQ mergulha
em seus episódios mais memoráveis. Odisseu relembra o encontro com o Ciclope
Polifemo, filho de Poseidon, que aprisiona seus companheiros em uma caverna.
Para escapar, o herói precisa recorrer mais uma vez à inteligência, cegando o
gigante para conseguir fugir. A vitória, entretanto, desperta a ira de
Poseidon, que passa a perseguir Odisseu não o permitindo voltar para casa.
A jornada continua pela ilha da
feiticeira Circe, que transforma parte da tripulação em porcos e mantém Odisseu
ao seu lado durante um ano. Depois de partir, o herói visita o Hades, Reino dos
Mortos e encontra, entre outras almas, sua própria mãe, morta pela saudade
enquanto aguardava seu retorno.
Ainda há espaço para o encontro
com as Sereias, a travessia entre o monstro Cila e o redemoinho Caríbdis, a passagem pela
Ilha de Hélio, onde seus homens desobedecem aos deuses e acabam condenados, até
que Odisseu, único sobrevivente da expedição, chega à ilha de Calipso.
De volta ao presente da
narrativa, os Feácios finalmente ajudam o herói a chegar a Ítaca. Com o auxílio
da deusa Atena, Odisseu assume a aparência de um idoso para observar a situação
do palácio e elaborar um plano para eliminar os pretendes que querem usurpar
seu poder. O reencontro com Telêmaco prepara o terreno para o desfecho, que
culmina no famoso desafio do arco organizado por Penélope.
Apenas Odisseu consegue tencionar
a linha de seu arco e atravessar, com uma única flecha, os doze machados
alinhados. É o momento em que recupera sua verdadeira identidade e retoma, pela
força, o trono que lhe pertence.
Embora a narrativa seja repleta
de personagens e acontecimentos, Silvana e Jefferson encontram soluções
elegantes para tornar a leitura acessível. Os principais personagens são
apresentados logo nas primeiras páginas, facilitando o acompanhamento da
história, enquanto o ritmo permanece constante do início ao fim.
Grande parte desse mérito está na
arte de Jefferson Costa. Em vez de apenas ilustrar o roteiro, o quadrinista
utiliza enquadramentos, expressões faciais, composição de página e até os
silêncios entre os quadros para contar a história visualmente. Os desenhos
ampliam o significado das cenas e transformam momentos conhecidos da mitologia
em sequências carregadas de emoção.
Jefferson também demonstra enorme
cuidado com a ambientação. Figurinos, embarcações, armas, arquitetura e
elementos da cultura grega aparecem representados com riqueza de detalhes, mas
sem exageros. Ao mesmo tempo, o artista evita reproduzir simplesmente imagens
conhecidas do imaginário popular, criando uma identidade visual própria para a
obra.
Outro acerto está no texto de
Silvana Salerno. Os diálogos preservam o tom solene dos personagens sem
recorrer a uma linguagem excessivamente rebuscada, tornando a leitura agradável
tanto para quem já conhece a Odisseia quanto para leitores que terão seu
primeiro contato com o clássico através da HQ.
O ritmo da narrativa é tão
cinematográfico que seria fácil imaginar esta adaptação transformada em uma
animação. A quantidade de acontecimentos é enorme, mas a condução da história
nunca se perde. Cada episódio impulsiona o seguinte, mantendo o leitor
envolvido até a última página.
Passados quase 2.700 anos desde sua criação, A Odisseia continua dialogando com o presente porque fala de temas universais. Muito além de monstros, deuses e batalhas, a obra trata da saudade, da perseverança, da inteligência diante da força bruta, da busca por identidade e da esperança de reencontrar o lar.
A adaptação de Silvana Salerno e
Jefferson Costa compreende perfeitamente essa essência. Em vez de transformar o
poema de Homero em uma simples versão resumida, a HQ preserva seu coração
enquanto explora tudo o que a linguagem dos quadrinhos tem de melhor. É uma
leitura envolvente, acessível e respeitosa, capaz de conquistar tanto quem já conhece
esse clássico quanto aqueles que embarcam pela primeira vez na inesquecível
viagem de Odisseu.
A Odisseia
também encontrou no cinema algumas releituras marcantes. O poema inspirou
produções como Ulysses (1954), estrelado por Kirk Douglas, e serviu de base
para interpretações modernas como A Odisseia (1997), estrelada por Armand
Assante e dirigida por Andrei Konchalovsky, que passava frequentemente no SBT
em Tela de Sucessos.
Em 2004 a Ilíada chegou aos cinemas na superprodução Tróia, com Brad Pitt. Em 2024, em O Retorno, do diretor Uberto Passolini, a parte final da saga de Odisseu chegou às telas com Ralph Fiennes como o herói e Juliette Binoche como Penélope.
![]() |
| O Retorno (2024) |
E finalmente em 2026 chegou aos cinemas a ambiciosa adaptação dirigida por Christopher Nolan, com grande elenco, entre eles Matt Damon como Odisseu, Tom Holland como Telêmaco e Anne Hathaway como Penélope demonstrando que a viagem de Odisseu continua despertando o interesse de artistas e do público quase três milênios depois de ter sido escrita.






















Vamos lá pessoal. Sua opinião é muito importante. Tem Preguiça Não de comentar.