Wolverine: A Irmandade – Greg Rucka reinventa Wolverine como um romance policial

Leonardo Fraga
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Quando Greg Rucka assumiu a revista Wolverine, com arte de Darick Robertson, o universo dos X-Men estava no auge da era "Novos X-Men" de Grant Morrison. O contexto geral da época era de grandes mudanças e modernização, com os mutantes vivendo um período de maior visibilidade pública, o Instituto Xavier sob ameaças constantes e uma Marvel em plena modernização.

Rucka, porém, escolheu outro caminho. Em vez do super-herói colorido inserido em grandes eventos, ele preferiu um Logan solitário, urbano e sombrio, conduzido por um tom noir de sobrevivência e investigação. Um Wolverine com roupas civis, agindo nas sombras, envolvido em casos espinhosos que os X-Men dificilmente se envolveriam.



O Wolverine de Greg Rucka

Muitos leitores não percebem, mas Greg Rucka constrói seu Wolverine a partir de elementos muito pessoais de sua própria trajetória como escritor. Logo no primeiro quadro em que Logan aparece no restaurante 24 horas, ele está lendo Smoker, romance da série Atticus Kodiak, escrito pelo próprio Rucka. Esse detalhe funciona quase como uma assinatura discreta, mas também como uma chave temática: não é apenas um livro qualquer, é um espelho do tipo de história que o autor pretende contar.




Em Smoker, Atticus Kodiak é um guarda-costas profissional, alguém treinado para proteger e sobreviver em um mundo onde a violência não é espetáculo, mas rotina. O trabalho exige sangue-frio, disciplina e um código moral rígido, mesmo quando tudo ao redor é ambíguo, corrupto e imprevisível. O romance inteiro gira em torno de uma tensão fundamental: até onde vai a obrigação profissional quando a situação ultrapassa qualquer limite ético?

Essa mesma pergunta atravessa o primeiro arco de Rucka em Wolverine, “A Irmandade”, publicada em cinco edições e no Brasil saiu em Wolverine 01, 02 e 03, na 2ª Série da Panini, em 2003.



Logan não é tratado como um super-herói colorido inserido em grandes sagas, mas como uma figura de um romance policial: marcado pela violência, usado como arma ao longo da vida, tentando manter algum controle sobre sua própria consciência.

Ao colocar Smoker nas mãos de Wolverine, Rucka está sinalizando o tom e o conflito moral da narrativa. Assim como Atticus, Logan é um profissional da violência, alguém que vive sob um código interno, mas que constantemente se vê diante de situações em que esse código ameaça ruir.



Em “A Irmandade”, o tema principal é: Wolverine consegue controlar seu lado selvagem… até quando? O arco transforma a velha luta entre homem e fera em um drama ético e existencial, onde o verdadeiro perigo não é apenas o inimigo externo, mas a possibilidade de Logan perder, de vez, aquilo que ainda o mantém humano.




 Um homem simples e mau

A trama já começa de um modo incomum. Em vez das costumeiras narrações internas de Logan nos recordatórios, aquela voz cansada e amarga que costuma guiar o leitor, Rucka entrega o ponto de vista a outra pessoa. Quem narra, como se estivesse escrevendo um diário. É Lucy Braddock, a garçonete do restaurante 24 horas onde Wolverine aparece logo nas primeiras páginas.



Lucy observa Logan, sozinho, lendo em silêncio. Um homem estranho, bruto, que frequenta o local com certa regularidade. Em sua narração, ela o chama de “Homem Mau”, porque, convenhamos, Wolverine tem mesmo a aparência de alguém que já fez atrocidades (e fez mesmo). Mas, aos poucos, Lucy percebe que existe nele algo além da raiva e da violência: um senso de justiça silencioso, quase melancólico, escondido sob a postura de animal ferido.



Os dois moram no mesmo prédio e são vizinhos de porta. Se cruzam no corredor, se encaram à distância, mas sem muita interação. Quando Wolverine deixa um livro “esquecido” na lanchonete, ele abre uma brecha mínima para a conversa. Lucy aproveita. Vai até o apartamento dele devolver a edição, e os dois falam sobre leitura, escrita, cicatrizes… e, principalmente, sobre o que significa ser um “bom homem”.



Antes de ir embora, ela faz a pergunta que planta o coração emocional da história: “Posso contar com você para cuidar de mim?” Wolverine responde, seco, direto: “Claro.”

O livro que Logan havia deixado para trás não é um detalhe qualquer. É mais uma pista do que Greg Rucka está construindo. Wolverine estava lendo Walden (1854), de Henry David Thoreau. Rucka deixa isso claro em dois quadros, e como se não bastasse, a capa da segunda edição ilustrada por Esad Ribić mostra Logan rasgando o livro, como se a obra também fosse um símbolo do conflito interno do personagem.



Wolverine #2 - Capa de Esad Ribic


Publicado em 1854, Walden é o relato autobiográfico de Thoreau sobre sua experiência vivendo em uma cabana às margens do lago Walden, em Massachusetts. O livro reflete sobre autossuficiência, simplicidade, liberdade e faz uma crítica profunda à vida materialista e frenética da sociedade moderna.




Thoreau buscou viver de acordo com os próprios princípios, não segundo o que o mundo impõe. É exatamente onde Logan está: vivendo em um apartamento barato, como um homem comum, alguém que escolheu o silêncio e o isolamento. Mas, ao contrário de Thoreau, que se retira para se encontrar, Wolverine se retira para não se perder.



Lucy também parece saída diretamente das páginas do que Thoreau admirava: camponeses, trabalhadores, pessoas invisíveis ao sistema. Ela é isso, uma mulher comum, frágil, tentando sobreviver. Não faz parte do espetáculo da Marvel, não tem poderes, não é heroína. É o tipo de pessoa que o mundo esquece… e é justamente por isso que sua presença dá à história um peso tão humano.

 

A violência sempre bate à porta




Dois homens invadem o prédio, assassinam Lucy a sangue-frio e metralham Logan dentro do apartamento. A violência é súbita, brutal, sem qualquer glamour de super-herói. Wolverine sobrevive, como sempre, mas quando se recupera encontra o diário de Lucy e nele, finalmente, a verdade vem à tona.

Ela era perseguida por um grupo chamado “Os Manos”, uma seita violenta que caça e destrói jovens mulheres. No diário, dedicado ao “Homem Mau”, Lucy escreve já consciente da possibilidade de não escapar: “Não me esquece.”



É um pedido devastador. Assim como em Walden, onde Thoreau insiste que a vida humana não pode ser reduzida a números ou estatísticas, Lucy suplica para não se tornar apenas mais um caso apagado, mais um corpo esquecido.

A partir daí, Wolverine sai à caça deles a qualquer custo. Ele se transforma em um investigador brutal: rastreia balas, segue o caminho das armas ilegais, interroga criminosos, mergulha em um submundo cruel onde o crime funciona muito bem e onde até o xerife da cidade natal de Lucy, Westfall é cúmplice da seita.



Rucka, em nenhum momento, deixa Logan transparecer o super-herói de uniforme amarelo que conhecemos. Aqui ele é apenas um homem desgrenhado, de camisa de flanela, vivendo no mundo real. Um justiceiro solitário andando por becos, hotéis baratos e estradas escuras. 

E é nesse ponto que Rucka insere outra referência fundamental de Thoreau: o livro A Desobediência Civil (1849), escrito após o autor ser preso por se recusar a pagar impostos que financiavam a guerra contra o México e sustentavam a escravidão. Em “Desobediência”, Thoreau defende que o indivíduo não deve obedecer automaticamente ao Estado quando as leis sustentam a injustiça: “Se a lei é de tal natureza que obriga você a ser agente da injustiça contra outro, então eu digo: quebre a lei.”



Isso define perfeitamente o arco “A Irmandade”: polícia corrupta, seitas violentas que agem impunes, tráfico de armas, jovens assassinadas e esquecidas. O sistema não protege Lucy. Ela se esconde porque sabe que não há proteção real para ela.

Por isso Wolverine age como o indivíduo moral que Thoreau descreve, sem esperar tribunais, sem confiar na ordem estabelecida, sem acreditar que “o sistema” vá resolver. Ele desobedece porque sua consciência não permite ficar parado. Wolverine é o homem que não pode se omitir, a versão sangrenta da máxima de Thoreau: “A consciência é maior que a lei.”



Claro, Thoreau defende uma resistência ética e civil, não a violência sanguinária. Já Wolverine… bem, sua frase clássica resume tudo: “Eu sou o melhor no que faço, mas o que eu faço não é nada bonito.”

Rucka também introduz na trama a agente investigativa do FBI Cassie Lathrop, que tenta localizar Logan e entender o rastro de destruição que ele deixa pelo caminho. Surge então uma dinâmica tensa e fascinante: Wolverine é o caçador, mas também a caça. A relação entre os dois se desenvolve de forma intrigante ao longo de toda a fase Rucka, reforçando a ideia central de que Logan nunca está realmente livre, nem mesmo quando acredita estar fazendo justiça.

 

“Walden” é retiro. “A Irmandade” é inferno.




“A Irmandade” expõe o lado mais brutal de Logan, sem nunca perder de vista o tema central que atravessa toda a mitologia do personagem: o conflito entre o homem e o animal. Wolverine corta, dilacera, se entrega ao instinto assassino e depois precisa encarar o vazio que sobra. Cada explosão de violência vem acompanhada de uma ressaca moral, de uma dúvida constante sobre o que ele realmente é: um homem tentando fazer justiça ou apenas algo que nunca deixou de ser arma.

Na edição final, Rucka oferece um desfecho inesperadamente íntimo. Logan encontra Noturno para beberem juntos, em uma conversa simples, quase cotidiana, mas carregada de peso existencial. Ali, longe de qualquer batalha ou perseguição, surge a pergunta que realmente importa: Wolverine ainda tem humanidade, ou já passou do ponto de retorno?



A resposta que recebe funciona como um raro instante de esperança em meio à escuridão e transforma essa conclusão em uma das passagens mais marcantes da fase. Noturno tenta lembrar Logan de algo essencial: ele não é definido apenas pelo que faz. Ele ainda pode escolher. Ele sente culpa. E, portanto, ainda é humano.



Isso é transcendentalismo puro: a ideia de que existe algo dentro do indivíduo capaz de resistir à corrupção do mundo, uma centelha moral interior, uma espécie de “verdade da alma”. Noturno não aparece aqui por acaso. Ele é o X-Men mais espiritualizado, e sua presença ecoa diretamente o pensamento de Thoreau, que acreditava nessa força íntima e ética que sobrevive mesmo quando tudo ao redor apodrece. Pode chamar de se quiser.



No fim, fica claro que Greg Rucka escreve Wolverine como um personagem profundamente existencial: sozinho, vivendo à margem da sociedade, guiado pela consciência e em guerra contra a injustiça estrutural, tentando desesperadamente não perder a si mesmo no processo. Ele é o próprio Thoreau, só que ao invés de simplesmente se recusar a pagar impostos, Logan invade um culto armado sanguinário e resolve a situação com as próprias garras.



“Walden” é retiro. “A Irmandade” é inferno. Mas ambos são tentativas de responder à mesma pergunta: como viver corretamente quando o mundo está errado?

A arte de Darick Robertson é fundamental para o impacto dessa abordagem. Conhecido também por seu trabalho em The Boys, Robertson entrega páginas sujas, carregadas de sombras, com um clima urbano decadente e opressivo. A composição reforça o tom noir e investigativo da narrativa, criando uma estética perfeita para esse Wolverine mais sombrio, pé-no-chão, feio, muito feio e com cara de quem já viu coisas demais.



“A Irmandade” é o início da fase de Rucka, que depois faria “Coiotes da Fronteira” e ficaria com o personagem durante 19 volumes, antes da revista retornar ao “normal” em “Inimigo do Estado”, com Mark Millar e arte de John Romita Jr. Mas esse arco inicial funciona muito bem de forma isolada: uma excelente porta de entrada para quem quer histórias de Wolverine longe da fórmula tradicional de super-heróis, mais próximas do noir, do horror moral e da tragédia humana.




 






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