Gannibal #01: canibalismo, paranoia e horror no interior do Japão

Leonardo Fraga
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Tensão. Essa talvez seja a melhor palavra para definir “Gannibal”, mangá de Masaaki Ninomiya publicado no Brasil pela Editora MPEG. A obra mistura suspense policial, thriller, violência e horror. Tem tudo isso. Mas com o único objetivo de manter o leitor desconfortável, desconfiado e cada vez mais ansioso para descobrir o que está acontecendo.





A trama acompanha Daigo Agawa, um policial que se muda com a esposa, Yuki, e a filha, Mashiro, para a pequena vila de Kuge, no interior do Japão. A princípio, a mudança parece representar uma oportunidade para a família recomeçar em um lugar tranquilo, mas Daigo chega à região justamente para ocupar o posto deixado por um policial que desapareceu misteriosamente. E há um detalhe ainda mais inquietante: antes de sumir, o antigo agente havia levantado suspeitas sobre os moradores e espalhado rumores de que a comunidade poderia estar envolvida com canibalismo.







Daigo mal consegue se estabelecer no novo trabalho quando uma idosa da família Goto é encontrada morta após um suposto ataque de urso. O problema é que o policial percebe no corpo uma marca que parece ser de uma mordida humana. Quando começa a fazer perguntas, a reação dos integrantes da família Goto é tudo menos normal, chegando ao ponto de apontarem uma arma para o policial.

A mensagem é mais que óbvia. Tem alguma coisa muito errada nessa comunidade, e a agonia de acompanhar Daigo e sua família tentando entender o que está acontecendo é justamente o que torna “Gannibal” tão viciante.





 "Quem com maus vizinhos vizinhar, com um olho há de dormir e com outro vigiar."

 

O mangá nunca entrega uma resposta definitiva sobre a possibilidade de os moradores serem canibais ou não. Pelo contrário, Ninomiya espalha pequenas pistas pelo caminho: aparece um dedo aqui, um pedaço de pele ali, uma informação aparentemente sem importância que ganha outro significado algumas páginas depois. O autor sabe exatamente quanto revelar e, principalmente, o quanto esconder.




A maior responsável pela tensão do primeiro volume, certamente, é a própria família Goto. Existe uma sensação permanente de paranoia, porque seus integrantes parecem esconder informações não apenas de Daigo, mas até uns dos outros. Ao mesmo tempo, alguns moradores se aproximam da família do policial por razões que ainda não ficam claras. Em “Gannibal”, uma conversa aparentemente banal pode esconder uma ameaça, e um personagem que parece estar tentando ajudar pode ter motivos completamente diferentes.




Um dos membros da família Goto é Kesuke Goto, que aparenta ser o membro mais racional. Embora esteja envolvido até o pescoço com a comunidade e seus costumes, Kesuke demonstra uma postura menos agressiva e, em determinadas situações, tenta impedir que as coisas saiam do controle. Mas ele é aliado ou inimigo? O primeiro volume não está interessado em responder isso tão cedo, porque a dúvida é justamente uma das armas mais poderosas da narrativa de Ninomiya.



 

"Mais vale o mau ano do que um mau vizinho."

 

Mashiro, a filha de Daigo é uma das figuras centrais para entender o lado emocional da trama. A menina não fala, e inicialmente parece algum traço de sua personalidade. Mas a medida que a história avança, fica evidente que seu silêncio está ligado a um acontecimento traumático envolvendo o próprio pai. É esse motivo também que Ninomiya consegue amarrar a trama e fazer com que a família simplesmente não saia correndo da vila, já que acontecem coisas estranhas todo o tempo, e é o que qualquer um faria.




Mais do que uma história sobre uma possível comunidade de canibais, “Gannibal” fala sobre os limites da violência e da proteção familiar. Daigo é colocado constantemente diante de situações em que precisa decidir até onde está disposto a ir para proteger a filha, mesmo quando isso significa ultrapassar os limites esperados de sua função como policial.




Daigo está longe de ser um herói tradicional. Ele é um homem comum colocado sob uma pressão absurda, tentando proteger a própria família enquanto investiga um lugar onde não consegue confiar em praticamente ninguém. Quanto mais avança em sua investigação, mais difícil fica determinar quem está dizendo a verdade e quem está simplesmente tentando manipulá-lo.




 “É mais fácil amar a humanidade inteira do que amar o seu vizinho.”

 

Como a obra é voltada para um público mais velho, Ninomiya consegue combinar a investigação policial com elementos de horror e thriller sem precisar transformar todas as cenas em violência gratuita. Quando uma sequência brutal acontece, ela tem função dentro da narrativa e serve para aumentar ainda mais a sensação de perigo.




A arte é fundamental nesse processo. As expressões faciais desconfortáveis, o grotesco dos personagens e as cenas de violência fazem com que o leitor permaneça em estado de alerta, esperando que alguma coisa aconteça a qualquer momento. Um dos melhores exemplos está em um ataque de urso apresentado no meio da edição, uma sequência tão violenta que a sensação é de que qualquer um dos personagens pode morrer a qualquer instante.



O suspense policial tem tanto peso quanto o horror, porque boa parte da experiência está em acompanhar Daigo tentando descobrir o que existe por trás do comportamento dos moradores. A cada nova conversa, surge a impressão de que alguém sabe muito mais do que está disposto a contar, enquanto cada descoberta abre espaço para outra pergunta.

 



“Se ofenderes o teu vizinho, é melhor não o fazeres pela metade.”

 

A atmosfera de “Gannibal” também tem uma forte relação com o cinema japonês. Ninomiya já revelou que buscou referências em filmes de diferentes épocas, especialmente nas obras do diretor Shōhei Imamura, responsável por “Chuva Negra” (1989) e “A Mulher Inseto” (1963).


“A Mulher Inseto” (1963).

Para Ninomiya, estes dramas de Imamura possuem justamente essa característica visceral que combina com a atmosfera que ele constrói em Gannibal.

Fora que o próprio nome do mangá significa Hannibal (mas em russo), como o do famoso canibal fictício Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins em “O Silêncio dos Inocentes” (1991).  


Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins em “O Silêncio dos Inocentes” (1991). 


 Um mangá difícil de “engolir”

 

“Gannibal” já ganhou uma série em live-action, lançada em 2022 e bastante fiel ao mangá, disponível no Brasil pelo Disney+. A obra original foi publicada no Japão em 13 volumes, enquanto a edição brasileira atualmente está na sétima edição.




Com cerca de 216 páginas, “Gannibal” está longe de ser uma leitura fácil de engolir, e o trocadilho aqui é praticamente inevitável. É desconfortável, violento e, em alguns momentos, genuinamente nojento. Mas é justamente essa combinação que faz a obra funcionar tão bem. Masaaki Ninomiya cria uma história instigante, com rápida leitura e ganchos que fazem a trama avançar rapidamente, e é isso que dá um gosto especial à leitura.

 


 


 

 

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