Buenas!
Tem sujeito que, quando começa a
contar um causo, prende a atenção de todo mundo. Pode até ser uma baita
conversa fiada, mas conta com tanta segurança que, quando a gente percebe, já
está acreditando. É nessa mistura de lábia, carisma e talento pra contar
milonga que entra o próprio: Bueno Milonga.
E olha, só sendo muito bueno de
prosa pra fazer o leitor embarcar no que essa HQ de Rossano Segabinazzi, com
desenhos de Luan Zuchi, tem pra contar. Na edição de estreia, são 44 páginas em
formatinho e duas histórias ambientadas na fictícia Passo do Sul, uma cidade
com um pouco de tantas outras do interior do Rio Grande do Sul. Dessas em que
parece que nada acontece, até acontecer tudo de uma vez.
O protagonista é Bueno Milonga,
um velho policial, sábio e boa-praça, que conhece bem o chão onde pisa. Ao seu
lado está Lima Otoridade, recém-transferido para a Delegacia da cidade e
prestes a descobrir que o serviço por aquelas bandas exige bem mais do que
preencher boletim de ocorrência.
Os dois estão no alto da laje da
delegacia quando veem o Bar do Seu Prado explodir. Chegando lá, encontram o
pobre homem no meio de uma mutação das mais esquisitas: o braço fica
monstruoso, e ele arranca o próprio olho para colocá-lo na palma da mão. Alaputcha!
E a gente achando que ia ser só uma ocorrência de rotina.
Parece doideira? Pois te acomoda,
que isso é só o começo.
Na perseguição ao responsável pelo atentado, Milonga e Otoridade descobrem que o sujeito havia deixado uma cobra radioativa no local para contaminar os moradores e transformar a cidade num ajuntamento de monstros. Milonga captura o bicho, monta no cavalo TchauBrigado e sai atrás do vivente. Quando o alcança, usa a própria cobra para atacá-lo, fazendo o sujeito despencar de um penhasco.
É nesse compasso que a
investigação avança e os segredos de Passo do Sul começam a aparecer. Tem
menino-diabo, que já faz a gente pensar em Hellboy, e um gato-rato monstruoso
chamado Guaipeca, escondido no subsolo secreto de um ponto de ônibus. Sim, de um
daqueles ponto de ônibus de tijolo à vista que tem em várias cidades desse
Brasil. Bah, nem pra esperar a condução o cidadão tem sossego!
No meio dessa indiada toda, ainda
cabem referências à série Família Soprano (1999). O mais divertido, porém, é a
naturalidade com que os personagens encaram o absurdo. Eles levam o trabalho a
sério, mas já parecem ter passado da fase de se espantar com qualquer
assombração. Se é verdade, coisa do outro mundo ou pura milonga, isso se descobre
depois. Primeiro, é preciso resolver o caso, encerrar o turno e ir pra casa ou
pro bar, esquentar a goela e dar umas risadas.
A segunda história é um episódio
especial de Natal que volta ao passado de Bueno Milonga e revela um lado mais
humano do personagem. Há espaço para conhecê-lo além da farda e da conversa
afiada, sem deixar a maluquice de lado. Um Papai Noel vampiro aparece pra
atrapalhar o turno da véspera de Natal. Porque uma noite de paz, pelo jeito,
seria pedir demais.
A arte de Luan Zuchi dá conta
desse universo com muita competência. A anatomia é bem construída, os cenários
situam a ação e os personagens têm personalidade no traço. O cuidado aparece
também nos veículos e no próprio TchauBrigado, que recebe tanta atenção quanto
o restante do elenco (Alô Bonelli, aqui sabe desenhar cavalo!”.
Há ainda um detalhe que
impressiona. Segundo Luan, a HQ foi desenhada diretamente nas páginas, sem
esboços. Já o especial de Natal é feito em aquarela, trazendo outra textura e
outra atmosfera à narrativa. São escolhas que mostram a versatilidade de um
artista disposto a explorar diferentes possibilidades do próprio trabalho.
Mas o que mais me pegou foi que Bueno
Milonga é uma HQ com sotaque. E até musicalidade, deixa um Mano Lima tocando
enquanto lê para ver se você não entra na vanera.
Rossano Segabinazzi, gaúcho de
Alegrete, tem entre suas influências os quadrinhos do Tio Patinhas de Don Rosa
e o Hellblazer de Garth Ennis. Também roteirizou Escafandro: Arsène &
Sherlock 1873, lançado pela UB Editora, com arte de Dilacerda. Aqui, coloca
essa bagagem a serviço de uma história com os dois pés no Rio Grande do Sul,
mesmo quando a coisa toda vira de cabeça pra baixo.
A gente lê os diálogos e quase
escuta os personagens. O ritmo das frases, as escolhas de palavras e o jeito de
reagir às situações dão voz àquela cidade. “Alaputcha!”, “de jeito maneira”,
“solaço” e “bruxo” ajudam a construir uma fala que diverte e situa a trama. O
gauchês participa do humor e da personalidade dos personagens, dando à leitura
aquele gosto de causo contado sem pressa, por alguém que sabe a hora de
caprichar no exagero.
Bueno Milonga tem o espírito de
uma boa comédia policial de Sessão da Tarde, atravessada pelo sobrenatural e
temperada com uma identidade bem brasileira. É próxima o bastante pra gente
reconhecer os tipos, as conversas e os lugares, mas absurda o suficiente pra
nunca saber o que vem na próxima página.
A leitura me lembrou “Iraúna”, de
Gabriel Pieri, publicada pela JBC. Ambientada em São Paulo, a HQ também mistura
investigação sobrenatural, criaturas e cultura popular brasileira. Cada uma tem
seu jeito, mas ambas encontram boas histórias ao trazer o fantástico pra perto
de casa.
Luan compartilhou o processo de
desenho de Bueno Milonga em vídeos nas redes sociais, e a HQ também pode ser
lida em formato digital pelo Fliptru. O segundo episódio já está em produção,
com trechos disponíveis online, e vai colocar Milonga e Otoridade diante de um
lobisomem. Pelo histórico da dupla, dá pra imaginar que a ocorrência vai
render.
Como é uma produção independente, o apoio dos leitores ajuda essa história a seguir adiante. A edição pode ser adquirida nas campanhas de financiamento pelo Catarse ou diretamente com Luan, pelas redes sociais.
Bueno Milonga entrega uma estreia
divertida, cheia de personalidade e com muita história pra contar. E, se esse é
só o primeiro causo, tchê, ainda tem muita milonga boa vindo de Passo do Sul.



















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