Iraúna do Olhar Âmbar é uma HQ nacional publicada pela Editora JBC em 2024. Escrita e desenhada por Gabriel Pieri, a HQ de 168 páginas traz uma obra que mistura espiritualidade, folclore, humor debochado e construção de universo com personalidade própria, além de uma forte sensação de brasilidade.
A série é publicada página a
página no Instagram do autor, “duas vezes na semana, quando der”, segundo a
descrição na bio de Gabriel. Com quantidade suficiente, Iraúna ganhou formato
físico do tamanho de um mangá, com um recorte inicial de toda a saga já
publicada. Por vir do digital, o ritmo da narrativa é pensado com ganchos que prendem
o leitor. Uma fluidez muito boa para um quadrinho brasileiro.
Irene Nogueira, a Iraúna.
Na orelha da edição Pieri comenta
que “sempre quis fazer meu “Dellamorte Dellamore” (de Tiziano Sclavi, Dylan
Dog), meu “Hellblazer” (John Constantine, DC Comics) ou meu “Yu Yu Hakusho” (de
Yoshihiro Togashi)”, com isso ele já me vendeu a edição fácil, e quando se
conhece a protagonista, o quadrinho só melhora.
A protagonista é Irene Nogueira,
a Iraúna, ou “Nera”, é uma jornalista e escritora especializada em paranormal,
que publica histórias vividas por ela e pela sua assistente, a fotógrafa Nanda,
em uma espécie de canal de exploração paranormal da internet, mas com
consequências reais e perigosas. “Iraúna” não é exatamente um nome, mas um
título, algo que o leitor vai descobrindo ao longo da narrativa.
Ainda criança, Irene fez um pacto com um demônio, em uma espécie de jogo de cartas Pokémon e, desde então, convive com entidades sobrenaturais, incluindo um grupo de cães infernais que a acompanham constantemente. Essa habilidade é tratada mais como uma maldição do que como um dom e coloca Iraúna no centro de conflitos sobrenaturais.
O mundo apresentado é um Brasil urbano onde o paranormal existe, mas não é amplamente reconhecido. Espíritos, lobisomens, fantasmas e deuses circulam à margem da normalidade, e Irene é uma das poucas pessoas que interagem diretamente com esse universo, tudo isso enquanto leva uma vida bastante comum: pega metrô, vai a bares, se envolve em encontros amorosos e lida com vizinhos reclamando do barulho.
Ritmo de mangá, alma brasileira
Apesar de não especificar qual
cidade a história se passa, o cenário é explicitamente paulistano. Há fantasmas
“tiozões do rock”, assombrações viciadas em narguilé e situações sobrenaturais
encaradas com ironia e certo descaso. Temperada com um jeitinho brasileiro de lidar
com o estranho.
Visualmente e narrativamente, a HQ bebe muito da fonte dos mangás. A quadrinização prioriza o ritmo, as transições silenciosas e cenas estendidas, algo difícil de sustentar no mercado brasileiro por limitações de produção. Gabriel Pieri, no entanto, abraça esse desafio: há páginas de transição, lutas longas e momentos contemplativos que tornam a leitura leve e envolvente.
O traço é propositalmente “sujo” em cenários e texturas, criando um contraste que reforça o clima espiritual e urbano da narrativa. Pieri demonstra domínio dessa estética, usando retículas e sujeira visual sem comprometer a clareza da narrativa, pelo contrário, reforça a atmosfera da obra.
Os personagens são o verdadeiro
destaque gráfico: expressivos, únicos e memoráveis. Desde Irene até entidades
espirituais e figuras sobrenaturais, todos possuem identidade visual marcante.
Apesar das tramas iniciais
parecerem muito rápidas e episódicas, com foco no vilão da semana, na segunda
metade a história cresce muito, expandindo a história de forma mais complexa. O
passado da protagonista é explorado e sua relação com a própria família, sua
origem e a ligação com a deusa conhecida como “Mãe das Mortalhas”. Há uma
mistura de elementos espirituais, religiosos e culturais, inspirados em
referências brasileiras. Certamente é um dos maiores méritos da obra.
O capítulo final, em especial, tem
um ótimo domínio de ritmo, uso eficaz de splash pages e cenas silenciosas de
grande impacto emocional.
Uma ótima protagonista, destaque
do quadrinho nacional
Nera é um dos grandes trunfos da
história. Carismática, visualmente marcante e dona de uma personalidade forte,
ela encara o absurdo com humor, cansaço e humanidade. É uma personagem com
potencial para figurar em qualquer “panteão” de protagonistas brasileiras.
Entre facas, cachorros infernais
e comentários ácidos sobre lobisomens e vampiros, Iraúna se firma como uma
heroína singular: profundamente brasileira, urbana e contemporânea.
Iraúna do Olhar Âmbar – Volume 1
se destaca não apenas pela qualidade técnica, mas por conseguir algo raro: unir
influência de mangá, narrativa longa e identidade cultural brasileira de forma
orgânica. Uma leitura fácil, divertida e cheia de personalidade, um forte
indicativo de que Gabriel Pieri está construindo uma das séries mais
interessantes do cenário atual dos quadrinhos nacionais.











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