ORCS!: os desajustados da fantasia tomam o protagonismo

Leonardo Fraga
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Sempre fui Horda em Warcraft. Estar ao lado dos Orcs, com sua cultura, seus excessos e seu comportamento muitas vezes sujo e destrutivo sempre me pareceu mais interessante do que ficar ao lado dos humanos. Na fantasia medieval, porém, os Orcs costumam ser relegados ao papel de vilões. O Senhor dos Anéis ajudou a fixar essa imagem: criaturas vistas com ódio e repulsa, soldados descartáveis a serviço de algum grande mal. E não, essa obra não tem nada a ver com o tipo de orc abordado em Shrek, muito longe disso, ainda bem.




A autora Christine Larsen segue na contramão desses clichês em ORCS!, história em quadrinhos que coloca um grupo de Orcs no centro da aventura. Publicada pela KaBOOM!, selo infantojuvenil da BOOM! Studios, a edição de 256 páginas reúne uma minissérie de seis partes lançada em 2021. É uma fantasia leve, engraçada e frenética, com arte cartunesca excelente e uma construção de mundo mais rica do que sua proposta inicial faz parecer.




Acompanhamos Bog, um guerreiro atrapalhado, e seus companheiros: Zep, o orc ninja, a sempre pessimista Pez. Utzu, que tem um péssimo jeito de lidar com as situações. Gurh, o gigante fortão que sabe pronunciar apenas seu nome, mas sempre disposto a ajudar e o pequeno Sprog, o mascote do grupo. Depois de capturar centenas de esquilos, Bog decide entregá-los ao rei Hrogragah como se fosse uma piada muito engraçada. Ledo engano: o rei não vê graça alguma e bane o grupo da tribo.




Longe de casa e sem rumo, os Orcs passam a se meter em uma confusão atrás da outra. A esperança é voltar quando o rei se acalmar ou encontrar um tesouro tão valioso que justifique não retornarem de mãos abanando.

Enquanto acompanhamos as desventuras do grupo no presente, Vovó Zamma, xamã e anciã da tribo, narra as aventuras da lendária guerreira caolha Drod, da Sereia, da elfa Wendy e da feiticeira Zamma (hmm). Drod é uma inspiração para todos, sobretudo para Bog, que usa um tapa-olho sem qualquer necessidade apenas para homenagear sua ídola. Aos poucos, as aventuras do passado se conectam às do presente e revelam a habilidade de Larsen em construir um mundo coeso e cheio de história.





As referências a J. R. R. Tolkien são evidentes. Larsen é fã do autor desde a infância e, logo após saírem da tribo, Bog e seus amigos são capturados por trolls, em uma situação que remete a Bilbo e aos anões em O Hobbit. A influência tolkieniana também está no uso da Black Speech, a Língua usada para feitiços associada à Terra-média. Larsen combina referências linguísticas e, quando necessário, cria novas palavras para dar consistência à cultura orc.






Mas ORCS! não bebe apenas em Tolkien: há referências variadas à fantasia, além de uma estrutura que lembra desenhos como Hora de Aventura, já que a autora trabalhou na série em quadrinhos que contava as aventuras de Finn e Jake. Cada capítulo apresenta uma aventura própria, mas todas contribuem para uma linha do tempo maior.




Além dos trolls, os Orcs cruzam o caminho de gnomos, cavernas amaldiçoadas e palácios subterrâneos acessíveis apenas por portas mágicas. A jornada também apresenta os elfos Daniel e Leonard, envolvidos em uma situação com uma aranha gigante e seus filhotes. Eles ajudam a expandir esse universo e ganharão mais importância em edições posteriores.

O maior charme da obra, é claro, são os próprios Orcs. Eles são barulhentos, atrapalhados, afetuosos e, acima de tudo, humanos em suas inseguranças. Larsen trata o gênero com carinho e irreverência, criando uma história sobre amizade, pertencimento e o valor de quem normalmente é deixado à margem.





A arte é outro ponto alto. O traço expressivo e colorido combina perfeitamente com o humor e com o universo fantástico. Cada personagem possui uma silhueta e uma personalidade bem definidas, o que facilita acompanhar o grupo até nos momentos mais caóticos. O ritmo também é ágil e as piadas funcionam tanto nos diálogos quanto nas imagens.




A origem de ORCS! ajuda a explicar seu tom espontâneo. Em 2015, Larsen começou a desenhar Orcs como aquecimento matinal, e dessas ilustrações nasceu um livro de arte. O projeto, inicialmente pensado como um pequeno zine com uma única história, cresceu junto com os personagens até se transformar em uma série. “Comecei a me apaixonar de verdade pelos personagens, criei outros e fui preenchendo o que acabaria se tornando um vasto mundo. Enquanto escrevia, o passado passou a ter tanta importância quanto o futuro, e eu queria que essas linhas do tempo se tornassem relevantes nas edições que viriam depois”, conta a autora.





ORCS! foi publicada completa em três encadernados, em formatinho, ainda inédito no Brasil. A obra mostra que a fantasia não precisa depender apenas de reis, profecias e grandes heróis. Às vezes, a melhor aventura começa quando um grupo de amigos desajustados pegam a estrada, contam a própria versão da história e se divertem muito no caminho.














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