Júlia Omnibus: Ano Um — Os primeiros passos de uma criminóloga

Leonardo Fraga
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Júlia Omnibus, publicado no Brasil pela Mythos Editora, reúne os números 3 a 7 da série italiana Speciale Julia e revisita um período decisivo da trajetória de Júlia Kendall, a criminóloga criada por Giancarlo Berardi (Ken Parker) para a Sergio Bonelli Editore. Ao revelar os primeiros passos da personagem depois da universidade, o volume funciona como uma espécie de Batman: Ano Um de Júlia. Uma história de formação marcada por descobertas, erros e experiências que ajudam a definir seu futuro como investigadora.






Essa proposta fica evidente na história de abertura, “O Caso da Gêmea Perdida” (Speciale Julia nº 3, de 2017). A aventura acompanha a formatura de Júlia e o início de sua carreira profissional, quando ela ainda começa a transformar o conhecimento acadêmico em experiência prática. A celebração, no entanto, é abruptamente interrompida pela notícia da morte de Rita, uma estudante encontrada sem vida na universidade. O que deveria representar o encerramento de uma etapa torna-se, assim, o ponto de partida para um novo e perturbador caso.




Com roteiro de Berardi e Maurizio Mantero, desenhos de Steve Boraley e cores de Spartaco Lombardo e Gloria Martinelli, a história começa combinando a solenidade da formatura na Universidade Hollyhock com lembranças do passado de Júlia. A narrativa retorna à infância da personagem, marcada pela perda dos pais e pela mudança para a casa da avó Lilian, onde passou a viver com a irmã, Norma. Também recupera o momento em que Júlia precisou escolher entre a criminologia e uma promissora carreira como pianista, além de mostrar a primeira cena de crime que investigou ao lado de seu mentor, o professor Raymond Cross.




É Cross quem informa a Júlia sobre a morte de Rita e a leva para a investigação junto ao Detetive Irving e ao Tenente Carter. Os indícios iniciais apontam para suicídio, e uma carta de despedida deixada pela jovem menciona diversos nomes, estabelecendo os primeiros caminhos da investigação. Júlia não esconde o incômodo por ver um dia tão importante de sua vida interrompido pelo caso. Essa reação, longe de diminuir sua empatia, ajuda a revelar uma personagem ainda jovem e humana, dividida entre suas emoções pessoais e as exigências da profissão que acaba de abraçar.




Rita era irmã gêmea de Terry, uma jovem bem-sucedida nos estudos e admirada por todos ao redor. A relação entre as duas torna-se uma peça fundamental para que Júlia compreenda as inseguranças e os conflitos da vítima. O ambiente familiar, as expectativas dos pais e o reconhecimento desigual recebido pelas irmãs podem ter desempenhado um papel decisivo no destino de Rita.




Acompanhada de Ben Irving e do professor Cross, Júlia descobre que as irmãs são adotadas e inicialmente interroga o namorado da vítima. Ele revela que Rita fraudava notas e provas da faculdade na esperança de conquistar maior estima dos pais. A investigação também leva a um guia espiritual procurado pela estudante, cuja conduta suspeita desperta a atenção da criminóloga.




A trama lembra a série Twin Peaks e a investigação de Dale Cooper sobre a morte de Laura Palmer. Em ambos os casos, a apuração revela gradualmente os segredos de uma jovem que todos acreditavam conhecer. Depois da morte, porém, surge uma pessoa muito diferente daquela construída pela memória da comunidade.




As histórias de Júlia ainda estudante e seus primeiros contatos com as investigações policiais começaram na série já publicada pela Mythos em dez edições, Júlia - Aventuras de uma Criminóloga Especial. Nelas, acompanhamos seus encontros iniciais com vários personagens que se tornariam importantes na série regular, além de seu amadurecimento como investigadora.




“O Caso da Gêmea Perdida” apresenta uma Júlia mais corajosa e familiarizada com os procedimentos policiais, mas também disposta a correr riscos cada vez maiores. Sua obstinação a aproxima de possíveis envolvidos na morte de Rita e a leva até mesmo a invadir a residência do suposto guru para avançar na investigação.




Júlia comete erros, age de maneira irresponsável e leva para seus sonhos os casos que investiga. É justamente essa vulnerabilidade que a torna tão humana: uma jovem dedicada à profissão que escolheu, movida por uma intuição extraordinária, mas ainda em processo de aprendizado. A conclusão da história é surpreendente e, ao mesmo tempo, perfeitamente coerente com as pistas apresentadas. É um daqueles mistérios em que Berardi acerta e consegue conduzir o leitor sem permitir que ele antecipe facilmente a solução.





A edição da Mythos é impecável. Com 628 páginas e formato grande, o volume valoriza tanto a narrativa quanto a arte. As capas de Marco Soldi acrescentam um charme especial à abertura das cinco histórias presentes no Omnibus, cada uma com aproximadamente 130 páginas. As duas primeiras edições dessa série já foram publicadas pela Mythos em Júlia Graphic Novel, em capa dura. O Caso do Criminólogo Assassino (2020) e O Caso de Luna Park (2021).





Mais do que uma simples coletânea, Júlia Omnibus retrata a formação pessoal e profissional de Júlia Kendall, funcionando como uma verdadeira história de origem da “investigadora da alma”. Por isso, o volume é também uma excelente porta de entrada para quem deseja conhecer essa apaixonante personagem.





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