Frank Castle sempre foi um
personagem profundamente ligado ao universo militar. Veterano de guerra e
especialista em armas e combate, ele transformou a experiência adquirida no
campo de batalha em uma guerra particular contra o crime. Ao longo das décadas,
diferentes roteiristas exploraram os mais variados aspectos de sua
personalidade, mas poucos levaram tão longe a ideia de que, por trás da
caveira, existe um soldado operando sozinho, quanto na fase
escrita por Nathan Edmondson.
Ao lado do desenhista Mitch
Gerads (Batman, Senhor Milagre), Edmondson comandou a revista Justiceiro entre
2014 e 2015, em 20 edições que levaram Frank Castle de Nova York para Los
Angeles. A mudança de cenário não serviu apenas para renovar o visual da
revista, mas ajudou a estabelecer uma identidade própria para a fase. Longe das
ruas claustrofóbicas de Nova York, Frank passa a atuar como um verdadeiro
operador de forças especiais, infiltrando-se em territórios dominados pelo
crime, seguindo pistas, estudando seus alvos e planejando cuidadosamente cada
ataque.
Em alguns momentos, a dinâmica lembra a experiência de jogos como Tom Clancy's Ghost Recon Wildlands. Quando enfrenta um adversário fisicamente superior, Frank não tenta competir em força, quando está em desvantagem numérica, recorre à estratégia e, quando seu arsenal convencional não é suficiente, improvisa. É o treinamento militar de Castle colocado no centro da narrativa.
Publicada no Brasil pela Panini Comics entre 2015 e
2016, nas três primeiras edições de Justiceiro da fase Totalmente Nova Marvel,
a série está longe de ser perfeita, mas oferece uma abordagem particularmente
interessante para entender o que torna Frank Castle diferente dos demais
personagens da Marvel. Ele não possui superpoderes, não é um gênio tecnológico
e não conta com uma equipe de heróis ao seu lado. Seu maior poder é saber fazer
guerra.
O primeiro arco, “Preto e Branco”,
apresenta Frank perseguindo o cartel Dos Soles, investigando a organização
terrorista I.M.A. e sendo caçado por uma versão moderna do Comando Selvagem,
grupo originalmente associado a Nick Fury, mas aqui completamente repaginado
para ocupar o papel de antagonista.
A história já começa em Los
Angeles, sem explicar detalhadamente por que Frank decidiu se estabelecer na
cidade, mas a escolha rapidamente demonstra sua função narrativa. Em vez de
colocar o personagem constantemente no caminho de super-heróis, como
aconteceria em Nova York, Edmondson cria um ambiente no qual o Justiceiro pode
atuar durante boa parte do tempo dentro de um território mais próximo do
thriller policial e militar.
Sua base de operações é o
Restaurante do Lou, administrado por alguém que já conhece Frank e que acaba
funcionando como um de seus poucos pontos de apoio. O estabelecimento também é
frequentado pela policial Sam Stone, que gradualmente desenvolve um vínculo de
amizade com Castle sem perceber inicialmente quem ele realmente é. Quando entra
em ação, Frank utiliza uma máscara com uma caveira para esconder a identidade.
Frank também conta com a ajuda de Tuggs, um antigo colega militar que possui acesso ao arsenal de uma base americana. A presença do personagem reforça a atualização da origem de Castle proposta por Edmondson, que parece muito mais próxima dos conflitos do Afeganistão e do Iraque do que da Guerra do Vietnã, aproximando-se inclusive da representação posteriormente utilizada na série produzida pela Netflix do Justiceiro.
Se Edmondson estabelece a
mentalidade do personagem, Gerads é responsável por transformar essa
mentalidade em imagem. Seu Frank Castle é grande, envelhecido, marcado e
intimidador. Gerards aproveita as paisagens ensolaradas
de Los Angeles, da cidade até o deserto de Yucca Valley. Os desenhos fazem com
que Frank Castle lembre versões clássicas desenhadas por Mike Zeck, John Romita
Jr. e Goran Parlov, mas com uma identidade própria. E um dos detalhes que Gerards
usaria em outras obras (como em Sr. Milagre), é fazer o personagem usar
camisetas com o símbolo de outros heróis ou frases. Em um momento Frank usa uma
camiseta com o alvo roxo e lilás, símbolo do Gavião Arqueiro.
O mais interessante, porém, está
na maneira como Castle enfrenta inimigos de naturezas completamente diferentes,
sempre levando em consideração suas próprias limitações. Quando precisa invadir
um prédio utilizado para armazenar drogas e encontra uma instalação fortemente
protegida, por exemplo, ele não necessariamente tenta entrar sorrateiramente:
simplesmente pega um lança-foguetes e resolve o problema à distância.
A mesma lógica aparece quando
Frank enfrenta o vilão Electro. Castle sabe que não pode simplesmente disparar
contra alguém capaz de controlar eletricidade e esperar que armas convencionais
sejam suficientes. Em vez disso, adapta seu equipamento e utiliza balas de
borracha para criar uma possibilidade de ataque.
Essas situações transformam a
leitura em uma história quase militar, enquanto a presença ocasional de
personagens superpoderosos serve justamente para lembrar que ainda estamos
dentro do Universo Marvel. Frank está constantemente avaliando seus adversários
e procurando maneiras de neutralizar suas vantagens, tornando-se um Justiceiro
muito mais tático do que simplesmente um assassino frio que chega, mata,
destrói e vai embora.
A violência é uma ferramenta
Edmondson também não suaviza
Frank. Castle continua sendo brutal, e alguns dos momentos mais violentos da
fase aparecem durante seus interrogatórios. Em uma das cenas, ele atira na mão
de um criminoso que tenta afastar sua arma para conseguir informações. Em
outra, utiliza um isqueiro durante uma sessão de tortura.
A diferença está na maneira como
essa violência é integrada ao método do personagem. Frank não tortura apenas
para produzir uma cena chocante, mas porque precisa de informações para
alcançar seu objetivo. Essa abordagem reforça a proposta de Edmondson, que
apresenta Castle pensando como um soldado em uma zona de guerra: para ele, um
criminoso não é necessariamente alguém que precisa ser derrotado em uma luta
justa, mas um alvo que precisa ser neutralizado da maneira mais eficiente
possível.
Apesar de toda essa
militarização, Edmondson não transforma o protagonista em uma máquina sem
sentimentos. Um dos elementos mais interessantes da fase é justamente a maneira
como o roteirista permite que Frank estabeleça vínculos, mesmo que eles sejam
raros e pouco convencionais.
O melhor exemplo é Cap, um coiote
que Castle adota depois de ser salvo pelo animal. O nome é uma abreviação de
Capitão, e a relação entre os dois acrescenta uma dimensão inesperadamente
humana ao personagem.
Pode parecer um detalhe pequeno
diante de explosões e tiroteios, mas ele é importante
porque impede que Frank se transforme definitivamente em uma máquina de guerra.
Os métodos do Justiceiro são cruéis e ele está longe de ser um herói
tradicional, mas ainda existe uma humanidade em suas relações que acabam
envolvendo indiretamente essas pessoas em sua guerra e, principalmente, nos limites que
estabelece quando o objetivo é proteger inocentes.
Atravessando a Fronteira
Depois dos acontecimentos do
primeiro volume, Frank está ferido e precisa deixar os Estados Unidos. A fuga o
leva para o sul do México, onde acaba capturado por um cartel de drogas e
entregue ao vilão Ossos Cruzados. A situação é particularmente interessante
porque Castle, que normalmente ocupa a posição de caçador, começa o arco na
condição de presa.
“Atravessando a Fronteira” muda
consideravelmente a dinâmica da série ao colocar Frank em um cenário que se
aproxima ainda mais de um filme de guerra na selva. Ferido, sem seu arsenal
habitual e cercado de inimigos, ele precisa contar com a ajuda de um médico das
Forças Especiais para atravessar um território hostil ocupado por mercenários.
Ossos Cruzados funciona
particularmente bem como antagonista porque não depende de poderes
extraordinários para ser ameaçador. Brock Rumlow é um combatente treinado,
violento e experiente, capaz de enfrentar Frank utilizando uma linguagem que o
protagonista conhece muito bem: a do combate militar.
Durante a fuga, Frank também
cruza o caminho da Viúva Negra. Natasha Romanoff possui muitas características
em comum com Castle, já que ambos são especialistas em infiltração, combate e
espionagem, mas trabalham a partir de códigos morais muito diferentes. A
presença da personagem amplia a dimensão de espionagem da história sem tirar o
foco da proposta militar de Edmondson.
De volta a Los Angeles, Frank se
infiltra em uma penitenciária para investigar o cartel Dos Soles e cria uma
série de situações para alcançar seus objetivos, mesmo sem contar com recursos
ou contatos. Ao mesmo tempo, a violência das gangues cresce na cidade e atinge
Lou, que fica em coma, levando a policial Sam Stone a perceber que seguir as
regras nem sempre é suficiente e que talvez seja necessário recorrer a métodos
mais próximos daqueles utilizados pelo próprio Justiceiro.
No último volume, “Últimos Dias”,
o conflito ganha uma dimensão maior quando o Comando Selvagem sequestra pessoas
próximas a Castle para atraí-lo para uma armadilha. A partir daí, a
investigação de Frank deixa de estar restrita às ruas e alcança níveis mais
altos de poder, revelando uma estrutura de corrupção que envolve interesses
políticos.
A mudança é importante porque
Frank deixa de ser apenas um vigilante perseguido por criminosos e passa a ser
um alvo do próprio sistema. A situação também dialoga diretamente com sua
relação ambígua com as autoridades: Castle respeita soldados, treinamento e
missão, mas não demonstra a mesma consideração por instituições que utilizam
essas estruturas para proteger interesses próprios.
A busca pela origem da
conspiração leva Frank a Washington, onde ele acaba enfrentando o Capitão
América Sam Wilson. O confronto coloca duas concepções de justiça em oposição:
enquanto o Capitão América ainda acredita na importância das instituições e de
determinados princípios, Frank parte da convicção de que o sistema já falhou e
que alguém precisa agir independente das regras.
O encontro também evidencia os
limites físicos de Castle. Por mais habilidoso que seja, ele continua sendo um
homem comum diante de personagens com capacidades muito superiores às suas, o
que torna sua inteligência tática ainda mais importante. Ao final, Edmondson
consegue fechar as principais linhas da trama, levando Frank ao confronto com o
responsável pelo cartel, a um último encontro inesperado com Sam e, finalmente,
a uma missão final no Iraque.
A história termina
cedo demais
Se existe uma grande fraqueza na
passagem de Edmondson e Gerads, é justamente a sensação de que algumas de suas
ideias poderiam ter sido desenvolvidas por mais tempo. A série chegou à edição
#20 em julho de 2015 e, naquele momento, a narrativa construída em Los Angeles
já possuía personagens recorrentes e conflitos suficientemente fortes para
sustentar uma trajetória mais longa.
O problema é que o evento “Guerras
Secretas” passa a determinar o destino de todo o Universo Marvel, encerrando a
série em meio ao colapso da realidade. O resultado deixa uma inevitável
sensação de “quero mais”, especialmente porque a fase havia encontrado uma
identidade muito própria. Depois da reorganização do Universo Marvel, Becky
Cloonan assumiria os roteiros do personagem, retomando uma abordagem mais tradicional do Justiceiro.
Ao longo de 20 edições, Edmondson
e Gerards pegaram os elementos mais básicos do personagem, o militar, as armas,
o treinamento e a guerra contra o crime e construíram uma história de ação
militar dentro do Universo Marvel. Não é uma fase que precise competir
diretamente com trabalhos tão marcantes quanto os de Garth Ennis ou Mike Baron,
porque sua proposta é diferente.
Frank Castle é um homem extremamente
treinado, extremamente determinado e disposto a fazer coisas que outros
personagens jamais fariam. Enquanto muitos personagens da Marvel precisam de
poderes, armaduras ou tecnologia para enfrentar ameaças extraordinárias,
Edmondson apresenta um Frank Castle que olha para um inimigo muito mais
poderoso e pensa apenas:
“Como eu mato isso?





























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