Com a estreia de “Homem-Aranha:
Um Novo Dia”, o Cabeça de Teia chegou à sua 12ª adaptação cinematográfica,
contando com as duas animações do Aranhaverso. Com os filmes surgem os leitores
que buscam os quadrinhos e quem decide começar a ler Homem-Aranha hoje costuma
esbarrar em um problema comum: por onde começar?
Com mais de sessenta anos de
histórias publicadas, inúmeras mudanças editoriais e uma continuidade que
atravessa gerações, encontrar uma porta de entrada não é fácil. Embora existam ótimas histórias fechadas,
como Homem-Aranha: Azul, e alternativas que voltaram a ser publicadas como Ultimate
Homem Aranha, para quem deseja mergulhar na cronologia principal do personagem
e acompanhar sua trajetória regular, poucas fases funcionam tão bem quanto a de
Nick Spencer na revista O Espetacular Homem Aranha.
Para entender a importância dessa
fase, é preciso olhar para o momento em que ela começou. Durante quase dez
anos, Dan Slott comandou “O Espetacular Homem-Aranha” e levou Peter Parker por
caminhos bastante diferentes dos tradicionais. O personagem tornou-se um
cientista renomado, comandou a Parker Industries, uma multinacional de
tecnologia, viajou pelo mundo e enfrentou ameaças em escala global. Além disso,
viveu acontecimentos marcantes, como o período em que teve seu corpo ocupado
pelo Dr. Octopus durante “Homem-Aranha Superior”.
Embora essa fase tenha produzido
histórias memoráveis, ela também afastou Peter da imagem clássica do
"amigão da vizinhança". Quando assume a revista em 2018, Spencer não
ignora nada disso. Pelo contrário, utiliza todos esses acontecimentos como ponto
de partida para reconstruir o personagem.
No Brasil, essa fase inicia em
abril de 2019, quando a Panini Comics reinicia Espetacular Homem Aranha. É uma
revista de 84 páginas, lombada canoa (grampo), capa cartão e papel couché. A
partir da edição #22 passa a ter lombada quadrada e 100 páginas. É considerada
a 4ª fase das revistas do Aranha publicadas pela Panini.
E por que não começar pela fase
mais recente de Zeb Wells e pela atual, escrita por Joe Kelly?
A de Wells apresenta justamente a
pior versão possível de Peter Parker para um novo leitor. Durante boa parte da
série, Peter fracassa em praticamente todos os aspectos da vida e passa mais
tempo sendo humilhado do que evoluindo como personagem.
A maior polêmica envolve Mary
Jane. Logo nas primeiras edições, ela aparece separada de Peter e vivendo com
Paul, ao lado de duas crianças formando uma nova família. A decisão desagradou
boa parte dos leitores justamente por desfazer anos de desenvolvimento do
casal.
Outro ponto bastante criticado é
o mistério envolvendo Peter, tratado por todos como responsável por algum
acontecimento terrível. Quando a resposta finalmente chega, descobrimos que
toda a construção servia, em grande parte, para a morte de Kamala Khan, a Ms.
Marvel, que posteriormente retornaria como mutante para aproximar a personagem
da versão apresentada no Universo Cinematográfico Marvel. Essa decisão foi vista como um recurso editorial, e não como uma história que
realmente beneficiasse o Homem-Aranha.
Já a fase de Joe Kelly parece
promissora, mas ainda está em andamento. Logo nas primeiras histórias Peter é
enviado ao espaço enquanto outra pessoa assume o uniforme do Homem-Aranha. Ela
pode se tornar uma excelente fase no futuro, mas ainda é cedo para indicá-la
como porta de entrada.
| Homem Aranha por Joe Kelly, a partir de O Espetacular Homem Aranha #7 (Maio, 2026) |
Há ainda outro detalhe
importante. Qualquer pessoa que chega ao Homem-Aranha pelos filmes sabe que o
Duende Verde é o maior inimigo de Peter Parker. Imagine, então, abrir uma
edição atual e encontrar Norman Osborn trabalhando ao lado do herói, tentando
fazer o bem. Sem contexto, essa mudança parece completamente absurda.
A explicação está justamente na
fase de Nick Spencer. É durante a saga Devorador de Pecados que Norman tem seus
pecados removidos e inicia um processo de redenção que muda completamente sua
relação com Peter. Em outras palavras, para compreender o status atual do
Universo do Homem-Aranha, é preciso passar por Spencer. Sua fase não apenas
resgata a essência do personagem, como também reorganiza toda a mitologia moderna
do Cabeça de Teia, tornando-se a ponte ideal entre o passado clássico e as
histórias publicadas hoje.
Spencer, eu te perdoo
Nick Spencer começa sua fase de
mansinho, resgatando os elementos clássicos do personagem enquanto apresenta a
nova realidade de Peter Parker. Logo nas primeiras edições, Peter vê seu
doutorado ser invalidado. O diploma havia sido conquistado por Otto Octavius
enquanto controlava seu corpo, e Peter decide abrir mão dele por entender que
nunca o conquistou por mérito próprio. Peter Parker jamais construiria sua vida sobre uma mentira,
mesmo que isso signifique recomeçar do zero.
Com a Parker Industries
encerrada, Peter volta a enfrentar dificuldades financeiras, procura emprego e
tenta reorganizar sua vida. Spencer recupera o protagonista que precisa contar
moedas para pagar o aluguel, conciliar o trabalho com a vida de super-herói e
lidar com problemas que qualquer pessoa enfrenta. Em vez do empresário
bilionário cercado por tecnologia, temos novamente o amigão da vizinhança.
Esse retorno às origens também
aparece na personalidade do herói. O Homem-Aranha volta a fazer piadas durante
as lutas, protagoniza situações constrangedoras e recupera o humor que sempre
foi uma de suas marcas registradas. Mais do que isso, Peter volta a ser um
personagem profundamente humano, guiado pela empatia, pelo senso de
responsabilidade e pela culpa que sempre definiram sua trajetória.
No primeiro arco de histórias Spencer brinca com isso, criando uma mini Saga do Clone separando o Homem Aranha de Peter Parker. Enquanto o Aranha fica livre para ser herói em tempo integral, Peter fica sem poderes e finalmente tocar sua vida sem a responsabilidade de ser herói. Mas claro, isso não dura muito pois não pode existir um Homem Aranha sem grandes responsabilidades, e somente a junção dos dois consegue funcionar.
Spencer também entende que o
Homem-Aranha nunca funcionou sozinho. A Tia May vive um período de estabilidade
ao lado de J. Jonah Jameson Sr. (pai de J. J. Jameson), enquanto Peter divide
apartamento com Randy Robertson (filho de seu ex-colega de Clarim Diário,
Robbie) e, posteriormente, com Fred Myers, o antigo vilão Bumerangue. A
convivência entre os três rende ótimos momentos na série e acompanha a gradual
redenção do ex-criminoso. Aqui temos a engraçadíssima história da “Noite do
Quiz sobre o Homem Aranha”, onde o Bumerangue leva Peter para um bar repleto de
vilões, onde eles competem quem conhece mais o aracnídeo.
Spencer traz uma dinâmica inédita com J. Jonah
Jameson. Depois dos acontecimentos de “Pecado Original” (saga em que o Vigia
morre e vários segredos da Marvel são revelados), Jameson sabe que Peter é o
Homem-Aranha. Em vez de insistir na rivalidade clássica, Spencer transforma
essa revelação em uma amizade improvável. Jonah continua explosivo e teimoso,
mas agora reconhece os sacrifícios feitos por Peter e frequentemente se torna
um aliado inesperado.
Outro grande acerto da fase é a
reconstrução do relacionamento entre Peter Parker e Mary Jane Watson. Depois de
anos marcados por separações, idas e vindas e decisões editoriais controversas,
Spencer coloca os dois novamente juntos de forma natural. Mary Jane continua
perseguindo sua carreira como atriz, mas volta a ocupar o papel de principal
confidente de Peter, conhecendo sua identidade secreta e oferecendo o apoio
emocional que sempre caracterizou a relação entre os dois.
A química do casal rapidamente volta a ser um dos pilares da revista, lembrando por que tantos leitores consideram Peter e Mary Jane um dos casais mais importantes da história dos quadrinhos. Peter já teve várias namoradas, mas é Mary Jane que complementa melhor o personagem, em todos os aspectos.
Outro acerto desse início de fase
é a relação entre Felícia Hardy, a Gata Negra e o Aranha. Desde “Um dia a
mais” (história em que Peter sacrifica seu casamento com Mary Jane em um acordo com Mephisto, em troca da vida da Tia May e ter sua identidade secreta apagada), Felícia lembrava ter vivido um relacionamento com o Homem-Aranha, mas
não conseguia recordar quem existia por trás da máscara. Spencer usa esse
detalhe para justificar parte do comportamento mais frio e agressivo que a
personagem apresentou durante a fase de Dan Slott. O momento em que Peter
revela novamente sua identidade para Felícia é um belo momento. A cena devolve
à personagem uma parte importante de sua própria história que havia sido
apagada.
Outra correção realizada por
Spencer foi explicar de onde vieram os supostos filhos de Gwen Stacy e Norman
Osborn (Duende Verde), revelando que tudo se tratava de uma manipulação criada
por Mysterio (ufa!).
E por falar em Mysterio, toda a
fase é recheada de vilões clássicos do Aranha, a começar pelo Abutre que cria
um novo Sexteto Sinistro. Temos também Rino, Escorpião, Lagarto, Camaleão,
Shocker, Rei do Crime (que na época era prefeito de Nova York) e entre tantos,
Kraven, onde Spencer faz uma releitura de “A última caçada de Kraven”.
Spencer não repete a obra
clássica de J.M. DeMatteis e Mike Zeck, ele usa o legado de Kraven para
discutir sua obsessão pelo Homem Aranha e dar novos rumos ao personagem e à sua
família. É um dos primeiros grandes eventos da fase e demonstra como o
roteirista dialoga com elementos clássicos do Aranha, os modernizando sem
depender apenas da nostalgia.
O grande fio condutor da fase é protagonizada
pelo misterioso vilão O Condenado. Desde a primeira edição, Spencer o apresenta
conhecendo Peter profundamente, tanto como Homem-Aranha quanto como pessoa.
Essa presença constante cria um clima de suspense que vai até o final da fase.
Mesmo quando as histórias são mais leves ou episódicas, o leitor sabe que
existe uma ameaça maior se aproximando. A revelação e o desfecho dessa trama,
não corresponde às expectativas criadas pelos leitores, porque tudo que é bom
não dura pra sempre, principalmente em Homem-Aranha.
Depois de reorganizar toda a cronologia,
corrigir elementos que irritavam os fãs por anos e restaurar o status clássico
do Homem Aranha, Spencer encontrou dificuldades para manter o mesmo nível de
inspiração. Ele até se esforçou trazendo arcos com o Carnificina, onde ele
retira os vestígios do simbionte que estavam em Norman Osborn (outra invenção
de Dan Slott) para preparar o terreno para a grande história de redenção de Norman em
Devorador de Pecados.
Também investe em histórias
envolvendo o Homem-Aranha 2099 e outros eventos, mas nenhuma delas alcança o
mesmo impacto do início da série. Mas, mesmo não tão boas, mal sabiam os fãs
que éramos felizes e não sabíamos.
O balanço dessa fase é muito
positivo pois Nick Spencer compreende profundamente quem é Peter Parker e
conseguiu devolver ao personagem características que muitos leitores sentiam
falta durante anos. Sua passagem acabou sendo reavaliada por muitos leitores
como uma das fases mais sólidas do personagem nos últimos anos.
Por isso se já te critiquei, me
perdoe Nick Spencer!
![]() |
| Nick Spencer. |
O estilo Invencível de Ryan Ottley no Aranha
Depois de uma década marcada por
desenhistas como Humberto Ramos, Giuseppe Camuncoli e Stuart Immonen, a chegada
de Ryan Ottley deu ao título uma energia renovada. Conhecido por seu trabalho
em “Invencível”, Ottley trouxe um traço extremamente dinâmico, capaz de
alternar momentos de humor, ação e drama sem perder fluidez. A escolha dialoga
perfeitamente com a proposta de Spencer de recuperar o espírito clássico do Homem-Aranha.
As cores vibrantes de Laura Martin complementam perfeitamente o trabalho de
Ottley, valorizando o colorido dos personagens, cenários e reforçando o tom
leve e aventureiro que Spencer buscou para a série.
A influência de artistas como Todd McFarlane e
Erik Larsen é evidente na forma como Ottley representa a linguagem corporal do
herói, as grandes lentes da máscara e o uso expressivo das teias. Ao mesmo
tempo, o artista evita soar como uma simples homenagem, imprimindo um estilo
próprio que já havia aperfeiçoado. A única ressalva fica para o excesso de
detalhamento dos dentes dos personagens. É uma característica marcante do
estilo de Ottley, mas que em alguns momentos chama mais atenção do que deveria.
Mesmo atrás da máscara, o
Homem-Aranha de Ryan Ottley transmite emoção pela postura, gestos e composição
das cenas. Peter Parker também ganha uma linguagem corporal muito natural,
funcionando tanto no humor quanto no drama. Essa expressividade valoriza os
diálogos de Nick Spencer, que afirmou que a energia, o senso de movimento e o
timing cômico de Ottley o obrigavam a elevar o nível de seus roteiros.
Ottley também fez a grande
maioria das capas dessa fase mas não permaneceu como desenhista regular durante
toda ela. Os prazos da revista levaram à alternância com artistas como Patrick
Gleason, Mark Bagley, Humberto Ramos e até Chris Bachalo, o que gerou certa
inconsistência visual ao longo da série.




































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