Homem-Aranha de Nick Spencer: o melhor ponto de partida moderno para ler o Aranha

Leonardo Fraga
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Com a estreia de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, o Cabeça de Teia chegou à sua 12ª adaptação cinematográfica, contando com as duas animações do Aranhaverso. Com os filmes surgem os leitores que buscam os quadrinhos e quem decide começar a ler Homem-Aranha hoje costuma esbarrar em um problema comum: por onde começar?




Com mais de sessenta anos de histórias publicadas, inúmeras mudanças editoriais e uma continuidade que atravessa gerações, encontrar uma porta de entrada não é fácil.  Embora existam ótimas histórias fechadas, como Homem-Aranha: Azul, e alternativas que voltaram a ser publicadas como Ultimate Homem Aranha, para quem deseja mergulhar na cronologia principal do personagem e acompanhar sua trajetória regular, poucas fases funcionam tão bem quanto a de Nick Spencer na revista O Espetacular Homem Aranha.




Para entender a importância dessa fase, é preciso olhar para o momento em que ela começou. Durante quase dez anos, Dan Slott comandou “O Espetacular Homem-Aranha” e levou Peter Parker por caminhos bastante diferentes dos tradicionais. O personagem tornou-se um cientista renomado, comandou a Parker Industries, uma multinacional de tecnologia, viajou pelo mundo e enfrentou ameaças em escala global. Além disso, viveu acontecimentos marcantes, como o período em que teve seu corpo ocupado pelo Dr. Octopus durante “Homem-Aranha Superior”.




Embora essa fase tenha produzido histórias memoráveis, ela também afastou Peter da imagem clássica do "amigão da vizinhança". Quando assume a revista em 2018, Spencer não ignora nada disso. Pelo contrário, utiliza todos esses acontecimentos como ponto de partida para reconstruir o personagem.

No Brasil, essa fase inicia em abril de 2019, quando a Panini Comics reinicia Espetacular Homem Aranha. É uma revista de 84 páginas, lombada canoa (grampo), capa cartão e papel couché. A partir da edição #22 passa a ter lombada quadrada e 100 páginas. É considerada a 4ª fase das revistas do Aranha publicadas pela Panini.

E por que não começar pela fase mais recente de Zeb Wells e pela atual, escrita por Joe Kelly?




A de Wells apresenta justamente a pior versão possível de Peter Parker para um novo leitor. Durante boa parte da série, Peter fracassa em praticamente todos os aspectos da vida e passa mais tempo sendo humilhado do que evoluindo como personagem.

A maior polêmica envolve Mary Jane. Logo nas primeiras edições, ela aparece separada de Peter e vivendo com Paul, ao lado de duas crianças formando uma nova família. A decisão desagradou boa parte dos leitores justamente por desfazer anos de desenvolvimento do casal.





Outro ponto bastante criticado é o mistério envolvendo Peter, tratado por todos como responsável por algum acontecimento terrível. Quando a resposta finalmente chega, descobrimos que toda a construção servia, em grande parte, para a morte de Kamala Khan, a Ms. Marvel, que posteriormente retornaria como mutante para aproximar a personagem da versão apresentada no Universo Cinematográfico Marvel. Essa decisão foi vista como um recurso editorial, e não como uma história que realmente beneficiasse o Homem-Aranha.

Já a fase de Joe Kelly parece promissora, mas ainda está em andamento. Logo nas primeiras histórias Peter é enviado ao espaço enquanto outra pessoa assume o uniforme do Homem-Aranha. Ela pode se tornar uma excelente fase no futuro, mas ainda é cedo para indicá-la como porta de entrada.


Homem Aranha por Joe Kelly, a partir de O Espetacular Homem Aranha #7 (Maio, 2026)


Há ainda outro detalhe importante. Qualquer pessoa que chega ao Homem-Aranha pelos filmes sabe que o Duende Verde é o maior inimigo de Peter Parker. Imagine, então, abrir uma edição atual e encontrar Norman Osborn trabalhando ao lado do herói, tentando fazer o bem. Sem contexto, essa mudança parece completamente absurda.




A explicação está justamente na fase de Nick Spencer. É durante a saga Devorador de Pecados que Norman tem seus pecados removidos e inicia um processo de redenção que muda completamente sua relação com Peter. Em outras palavras, para compreender o status atual do Universo do Homem-Aranha, é preciso passar por Spencer. Sua fase não apenas resgata a essência do personagem, como também reorganiza toda a mitologia moderna do Cabeça de Teia, tornando-se a ponte ideal entre o passado clássico e as histórias publicadas hoje.






 Spencer, eu te perdoo

 

Nick Spencer começa sua fase de mansinho, resgatando os elementos clássicos do personagem enquanto apresenta a nova realidade de Peter Parker. Logo nas primeiras edições, Peter vê seu doutorado ser invalidado. O diploma havia sido conquistado por Otto Octavius enquanto controlava seu corpo, e Peter decide abrir mão dele por entender que nunca o conquistou por mérito próprio. Peter Parker jamais construiria sua vida sobre uma mentira, mesmo que isso signifique recomeçar do zero.




Com a Parker Industries encerrada, Peter volta a enfrentar dificuldades financeiras, procura emprego e tenta reorganizar sua vida. Spencer recupera o protagonista que precisa contar moedas para pagar o aluguel, conciliar o trabalho com a vida de super-herói e lidar com problemas que qualquer pessoa enfrenta. Em vez do empresário bilionário cercado por tecnologia, temos novamente o amigão da vizinhança.




Esse retorno às origens também aparece na personalidade do herói. O Homem-Aranha volta a fazer piadas durante as lutas, protagoniza situações constrangedoras e recupera o humor que sempre foi uma de suas marcas registradas. Mais do que isso, Peter volta a ser um personagem profundamente humano, guiado pela empatia, pelo senso de responsabilidade e pela culpa que sempre definiram sua trajetória.






No primeiro arco de histórias Spencer brinca com isso, criando uma mini Saga do Clone separando o Homem Aranha de Peter Parker. Enquanto o Aranha fica livre para ser herói em tempo integral, Peter fica sem poderes e finalmente tocar sua vida sem a responsabilidade de ser herói. Mas claro, isso não dura muito pois não pode existir um Homem Aranha sem grandes responsabilidades, e somente a junção dos dois consegue funcionar.




Spencer também entende que o Homem-Aranha nunca funcionou sozinho. A Tia May vive um período de estabilidade ao lado de J. Jonah Jameson Sr. (pai de J. J. Jameson), enquanto Peter divide apartamento com Randy Robertson (filho de seu ex-colega de Clarim Diário, Robbie) e, posteriormente, com Fred Myers, o antigo vilão Bumerangue. A convivência entre os três rende ótimos momentos na série e acompanha a gradual redenção do ex-criminoso. Aqui temos a engraçadíssima história da “Noite do Quiz sobre o Homem Aranha”, onde o Bumerangue leva Peter para um bar repleto de vilões, onde eles competem quem conhece mais o aracnídeo.




Spencer traz uma dinâmica inédita com J. Jonah Jameson. Depois dos acontecimentos de “Pecado Original” (saga em que o Vigia morre e vários segredos da Marvel são revelados), Jameson sabe que Peter é o Homem-Aranha. Em vez de insistir na rivalidade clássica, Spencer transforma essa revelação em uma amizade improvável. Jonah continua explosivo e teimoso, mas agora reconhece os sacrifícios feitos por Peter e frequentemente se torna um aliado inesperado.





Outro grande acerto da fase é a reconstrução do relacionamento entre Peter Parker e Mary Jane Watson. Depois de anos marcados por separações, idas e vindas e decisões editoriais controversas, Spencer coloca os dois novamente juntos de forma natural. Mary Jane continua perseguindo sua carreira como atriz, mas volta a ocupar o papel de principal confidente de Peter, conhecendo sua identidade secreta e oferecendo o apoio emocional que sempre caracterizou a relação entre os dois.

A química do casal rapidamente volta a ser um dos pilares da revista, lembrando por que tantos leitores consideram Peter e Mary Jane um dos casais mais importantes da história dos quadrinhos. Peter já teve várias namoradas, mas é Mary Jane que complementa melhor o personagem, em todos os aspectos.






Outro acerto desse início de fase é a relação entre Felícia Hardy, a Gata Negra e o Aranha. Desde “Um dia a mais” (história em que Peter sacrifica seu casamento com Mary Jane em um acordo com Mephisto, em troca da vida da Tia May e ter sua identidade secreta apagada), Felícia lembrava ter vivido um relacionamento com o Homem-Aranha, mas não conseguia recordar quem existia por trás da máscara. Spencer usa esse detalhe para justificar parte do comportamento mais frio e agressivo que a personagem apresentou durante a fase de Dan Slott. O momento em que Peter revela novamente sua identidade para Felícia é um belo momento. A cena devolve à personagem uma parte importante de sua própria história que havia sido apagada.





Outra correção realizada por Spencer foi explicar de onde vieram os supostos filhos de Gwen Stacy e Norman Osborn (Duende Verde), revelando que tudo se tratava de uma manipulação criada por Mysterio (ufa!).

E por falar em Mysterio, toda a fase é recheada de vilões clássicos do Aranha, a começar pelo Abutre que cria um novo Sexteto Sinistro. Temos também Rino, Escorpião, Lagarto, Camaleão, Shocker, Rei do Crime (que na época era prefeito de Nova York) e entre tantos, Kraven, onde Spencer faz uma releitura de “A última caçada de Kraven”.






Spencer não repete a obra clássica de J.M. DeMatteis e Mike Zeck, ele usa o legado de Kraven para discutir sua obsessão pelo Homem Aranha e dar novos rumos ao personagem e à sua família. É um dos primeiros grandes eventos da fase e demonstra como o roteirista dialoga com elementos clássicos do Aranha, os modernizando sem depender apenas da nostalgia.





O grande fio condutor da fase é protagonizada pelo misterioso vilão O Condenado. Desde a primeira edição, Spencer o apresenta conhecendo Peter profundamente, tanto como Homem-Aranha quanto como pessoa. Essa presença constante cria um clima de suspense que vai até o final da fase. Mesmo quando as histórias são mais leves ou episódicas, o leitor sabe que existe uma ameaça maior se aproximando. A revelação e o desfecho dessa trama, não corresponde às expectativas criadas pelos leitores, porque tudo que é bom não dura pra sempre, principalmente em Homem-Aranha.





Depois de reorganizar toda a cronologia, corrigir elementos que irritavam os fãs por anos e restaurar o status clássico do Homem Aranha, Spencer encontrou dificuldades para manter o mesmo nível de inspiração. Ele até se esforçou trazendo arcos com o Carnificina, onde ele retira os vestígios do simbionte que estavam em Norman Osborn (outra invenção de Dan Slott) para preparar o terreno para a grande história de redenção de Norman em Devorador de Pecados.





Também investe em histórias envolvendo o Homem-Aranha 2099 e outros eventos, mas nenhuma delas alcança o mesmo impacto do início da série. Mas, mesmo não tão boas, mal sabiam os fãs que éramos felizes e não sabíamos.

O balanço dessa fase é muito positivo pois Nick Spencer compreende profundamente quem é Peter Parker e conseguiu devolver ao personagem características que muitos leitores sentiam falta durante anos. Sua passagem acabou sendo reavaliada por muitos leitores como uma das fases mais sólidas do personagem nos últimos anos.

Por isso se já te critiquei, me perdoe Nick Spencer!


Nick Spencer.

O estilo Invencível de Ryan Ottley no Aranha

 

Depois de uma década marcada por desenhistas como Humberto Ramos, Giuseppe Camuncoli e Stuart Immonen, a chegada de Ryan Ottley deu ao título uma energia renovada. Conhecido por seu trabalho em “Invencível”, Ottley trouxe um traço extremamente dinâmico, capaz de alternar momentos de humor, ação e drama sem perder fluidez. A escolha dialoga perfeitamente com a proposta de Spencer de recuperar o espírito clássico do Homem-Aranha. As cores vibrantes de Laura Martin complementam perfeitamente o trabalho de Ottley, valorizando o colorido dos personagens, cenários e reforçando o tom leve e aventureiro que Spencer buscou para a série.




A influência de artistas como Todd McFarlane e Erik Larsen é evidente na forma como Ottley representa a linguagem corporal do herói, as grandes lentes da máscara e o uso expressivo das teias. Ao mesmo tempo, o artista evita soar como uma simples homenagem, imprimindo um estilo próprio que já havia aperfeiçoado. A única ressalva fica para o excesso de detalhamento dos dentes dos personagens. É uma característica marcante do estilo de Ottley, mas que em alguns momentos chama mais atenção do que deveria.





Mesmo atrás da máscara, o Homem-Aranha de Ryan Ottley transmite emoção pela postura, gestos e composição das cenas. Peter Parker também ganha uma linguagem corporal muito natural, funcionando tanto no humor quanto no drama. Essa expressividade valoriza os diálogos de Nick Spencer, que afirmou que a energia, o senso de movimento e o timing cômico de Ottley o obrigavam a elevar o nível de seus roteiros.

Ottley também fez a grande maioria das capas dessa fase mas não permaneceu como desenhista regular durante toda ela. Os prazos da revista levaram à alternância com artistas como Patrick Gleason, Mark Bagley, Humberto Ramos e até Chris Bachalo, o que gerou certa inconsistência visual ao longo da série.




 

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