Dakota 1880: No tempo das Diligências com Lucky Luke

Leonardo Fraga
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O cowboy que “atira mais rápido que a própria sombra” atravessou décadas como um dos maiores ícones dos quadrinhos franco-belgas, mas raramente foi revisitado com tanta consistência quanto em Dakota 1880. O álbum, assinado por Appollo e Brüno, parte de uma ambição clara: não apenas homenagear Lucky Luke, mas investigá-lo em profundidade, explorando suas origens, suas ambiguidades e o contexto histórico que sustenta a construção de sua lenda.




Inserido na coleção “Lucky Luke por...”, que reúne releituras do personagem por autores como Mathieu Bonhomme e Guillaume Bouzard, o álbum se afasta das abordagens mais leves e humorísticas para adotar um tom mais sóbrio, realista e, em diversos momentos, melancólico. Desde o título, estabelece-se um diálogo direto com Arizona 1880, a primeira história publicada de Lucky Luke, criada por Morris em 1946. É também uma aventura que envolve uma diligência. No entanto, ao invés de apostar na nostalgia, a obra constrói uma verdadeira arqueologia narrativa: um retorno ao passado que busca compreender como o mito começou a se formar.





Em sintonia com o espírito de René Goscinny, que redefiniu o personagem ao lado de Morris, Appollo insere o cowboy solitário em um mundo onde a ficção cruza constantemente com fatos reais. O álbum se estrutura em sete histórias curtas que, embora autônomas, compõem uma narrativa contínua, costurada pela viagem de diligência de Luke e Hank Bully rumo à Califórnia.

Lucky Luke: Dakota 1880 foi lançado pela editora portuguesa A Seita em novembro de 2025. O álbum conta com 64 páginas coloridas e acabamento em capa dura, reforçando sua proposta de ser não apenas uma releitura, mas uma obra de peso dentro do universo do personagem.



Um western de silêncio e contemplação


A abertura do álbum já estabelece o tom com uma sequência quase silenciosa. Uma diligência avança pelas paisagens nevadas de Dakota do Norte, envolta por um frio implacável. É um início profundamente cinematográfico, em que a narrativa se constrói pela força das imagens e da atmosfera, dispensando explicações e confiando no olhar do leitor para ditar o ritmo.



É nesse cenário que surge um jovem Lucky Luke. Com um rifle Winchester, o lenço vermelho e o inseparável chapéu branco, ele já exibe precisão e habilidade. Mas aqui, Luke ainda não é um mito: é um homem em formação, moldado pelas estradas que percorre, pelos encontros que o transformam e pelas experiências que o marcam.



Ao longo do percurso, Lucky Luke cruza com uma galeria diversa de personagens, alguns inspirados em figuras reais, outros típicos do imaginário do Velho Oeste: viajantes, artistas, sobreviventes. Cada encontro revela uma nova camada do protagonista, ampliando sua complexidade. Logo no primeiro episódio, na fronteira do Canadá com Dakota, ele se depara com Louis Riel.




Na vida real, Riel foi um líder político canadense e uma das principais vozes do povo Métis, grupo de ascendência indígena e europeia que habitava o interior do Canadá. Defensor dos direitos e da identidade cultural de seu povo, ele liderou movimentos de resistência contra o governo canadense, chegando a criar um governo provisório Métis em 1870. Em 1880, encontrava-se exilado nos Estados Unidos, contexto histórico que a HQ aproveita para promover esse encontro ficcional com Lucky Luke, reforçando a proposta do álbum de entrelaçar mito e história em uma mesma narrativa.


Louis Riel. Líder do Povo Métis.
Foto: Library and Archives Canada

Baldwin: o homem que transforma vida em lenda

 

Um dos elementos mais instigantes da obra é a escolha do narrador. Baldwin, um jovem descendente de escravizados libertos após a Guerra Civil Americana, acompanha parte da jornada e se torna testemunha direta e indireta das histórias de Lucky Luke. Ao lado de sua avó, a carismática Grandma Gumbo, ele atravessa um país em transformação, marcado por promessas não cumpridas e desigualdades persistentes.



No futuro, Baldwin se tornará escritor, transformando essas vivências em matéria-prima para as chamadas dime novels, publicações populares que ajudaram a consolidar o imaginário do Oeste americano. Appollo explora essa ideia com inteligência ao final da HQ, sugerindo que Baldwin teria sido uma figura real que conviveu com Lucky Luke e que seus relatos teriam servido de inspiração para Morris criar o personagem.



Fotografias, capas de livros e referências visuais são utilizadas para sustentar essa brincadeira, construindo uma ficção dentro da ficção. O resultado é uma solução narrativa elegante e metalinguística: o mito de Lucky Luke surge como produto de uma construção literária baseada em acontecimentos supostamente reais.




As dime novels ou “romances de dez centavos”, eram publicações de grande circulação, focadas sobretudo em histórias de aventura. O termo ganhou força a partir da década de 1860, quando os editores Erastus e Irwin Beadle lançaram a série “Beadle’s Dime Novels”, que se tornaria referência para esse tipo de literatura popular.




Antes disso, porém, Baldwin ainda é apenas um menino em viagem com a avó. O nome “Grandma Gumbo” carrega uma referência direta à tradição culinária crioula e cajun da Louisiana. O gumbo é um prato feito com ingredientes como quiabo, camarão, linguiça e frango, cozidos lentamente. Mais do que um detalhe pitoresco, essa origem reforça o vínculo cultural da personagem e sua luta por sobrevivência: ela deixa Nova Orleans e passa a cozinhar para garimpeiros e aldeias, perseguindo um sonho que nasce de uma promessa feita durante a guerra.




Essa promessa remete às medidas anunciadas pelo general da União William Tecumseh Sherman por meio das Ordens Especiais de Campo nº 15, em 1865, que previam a distribuição de terras a famílias negras recém-libertas, os famosos “40 acres e uma mula”. A expectativa era assentar cerca de 18 mil famílias, e parte dessas terras chegou a ser redistribuída sob jurisdição militar. No entanto, no pós-guerra, as políticas federais e estaduais passaram a priorizar o trabalho assalariado em vez da posse de terra, e praticamente todas as áreas foram devolvidas aos antigos proprietários brancos.


William Tecumseh Sherman.
Foto: Library of Congress.

Grandma Gumbo buscava essa promessa, e no meio do caminho acabou encontrando Lucky Luke, enforcado. O ajudou a se recuperar e tempos depois ela chega a casa de um parente, local que resolve permanecer. Baldwin cresce, mas herda da avó o impulso de seguir adiante. Ao retomar a estrada, reencontra Lucky Luke, agora já trabalhando em uma diligência. A partir daí, seus caminhos se cruzam novamente, e os dois seguem juntos rumo à Califórnia.




O pistoleiro mais rápido do Oeste

 

Com o objetivo de aprofundar ainda mais a construção do mito do Oeste e, por consequência, do próprio Lucky Luke, Appollo insere o personagem em uma competição de tiro ao alvo. É nesse contexto que surge Annie Oakley, outra figura histórica que atravessa a narrativa e reforça o diálogo constante entre ficção e realidade.



Annie, conhecida por sua impressionante habilidade com o rifle desde muito jovem, começou a caçar ainda na infância para ajudar a sustentar a família em um período de grandes dificuldades. Vendendo sua caça para restaurantes, transformou necessidade em talento. Na adolescência, já superava atiradores consagrados, como Frank Butler, e acabaria se tornando uma das grandes atrações do espetáculo de Buffalo Bill, o famoso Wild West Show. Ali, consolidou sua fama, percorrendo os Estados Unidos e conquistando multidões com sua precisão extraordinária.


Annie Oakley.
Imagem: The Bettmann Archive

Na HQ, porém, Annie ainda é uma menina quando cruza o caminho de Lucky Luke em Cross Creek. Durante um concurso de tiro, Luke toma a decisão de abrir mão de sua própria posição para permitir que Annie brilhe. O gesto, longe de ser apenas um detalhe, reforça a dimensão ética do personagem e evidencia um traço fundamental dessa releitura, a ideia de que o mito de Lucky Luke não se constrói apenas por feitos individuais, mas também pela forma como ele impacta e transforma a trajetória daqueles que encontra pelo caminho.





Um Oeste menos romantizado e mais crítico

 

Embora dialogue com elementos clássicos do velho Oeste, Dakota 1880 se destaca justamente por não romantiza-los. Longe da idealização, o álbum constrói um cenário atravessado por conflitos sociais, desigualdades e disputas por poder e território. Appollo opta por um Oeste mais áspero e historicamente consciente, em que o mito é constantemente colocado à prova.



A relação de Lucky Luke com os povos indígenas é um dos pontos mais reveladores dessa abordagem. Se, em um primeiro momento, ele reproduz atitudes típicas de seu tempo, aos poucos passa a reconhecer os nativos como povos livres e legítimos habitantes daquelas terras, demonstrando incômodo diante da lógica expansionista que culminaria na criação das reservas. Esse pensamento é construído com sutileza, um processo de aprendizado que acompanha o próprio amadurecimento do personagem.




A narrativa também abre espaço para discutir a condição dos escravizados negros libertos, como já sugerido na trajetória de Grandma Gumbo e ensaia críticas ao capitalismo predatório e às dinâmicas de exploração econômica. Tudo isso surge de maneira orgânica, integrado ao fluxo da história, sem quebrar o ritmo ou soar didático.




Outro aspecto que diferencia o álbum é a atenção dada às personagens femininas. Em um universo tradicionalmente dominado por homens, Dakota 1880 apresenta mulheres diversas, com trajetórias próprias e papéis relevantes. Entre elas, destaca-se uma jovem prostituta que incendeia o bordel onde era explorada, em uma sequência intensa e carregada de tensão. Nesse momento, Lucky Luke assume uma postura mais dura, quase vingadora, demonstrando empatia por aquelas que enfrentam violência e opressão.


 

Cultura do Oeste e referências ao cinema Western

 

Além de figuras históricas, Appollo cria personagens que funcionam como sínteses de movimentos culturais do período. É o caso dos poetas briguentos que cruzam o caminho de Luke e Hank na diligência. Figuras excêntricas que mais tarde partem para Chicago com a ambição de fundar uma editora de poesia, em clara alusão ao efervescente ambiente literário que a cidade desenvolveria nas décadas seguintes.




Na última história, o autor também presta homenagem ao cinema de faroeste ao acompanhar a jornada de um fotógrafo itinerante. Curly Wilcox, personagem fictício que representa os pioneiros da fotografia no Oeste americano, responsáveis por registrar e, em certa medida, construir o imaginário visual da época.




Seu nome é uma referência a Marshal Curly Wilcox, personagem icônico interpretado por George Bancroft no filme clássico “No Tempo das Diligências” (Stagecoach, 1939), de John Ford, filme que ajudou a consolidar o western como um dos pilares do cinema americano. Ele é um xerife durão, mas justo, do Território do Arizona, conhecido por prender Ringo Kid (aqui interpretado por John Wayne) e garantir a segurança da diligência para Lordsburg.

No caminho, Cody se junta a três homens interessados no dinheiro da recompensa, liderados por um fora da lei interpretado por Claude Akins. A travessia pelo deserto rapidamente se transforma em um jogo de tensão e desconfiança, onde alianças são frágeis e a violência pode explodir a qualquer momento.



Tirando Lucky Luke e Hank Bully, que são os condutores, a HQ conta a história de 9 pessoas,
como no filme "No Tempo das Diligências".


Outro detalhe que remete ao cinema é o local que eles param para se reabastecerem, a Comanche Station. Referência ao filme Comanche Station (1960), conhecido no Brasil como “Cavalgada Trágica”. Para não deixar dúvidas que é uma referência Brüno faz um panorama do local idêntico à cena do filme. Este é um dos grandes westerns da chamada “fase final” do gênero clássico, dirigido por Budd Boetticher e estrelado por Randolph Scott.



Na trama, Randolph Scott interpreta Jefferson Cody, um homem solitário que vaga pelo Oeste em busca de sua esposa, capturada anos antes por indígenas. Durante sua jornada, ele resgata Nancy Lowe (vivida por Nancy Gates), uma mulher branca mantida pelos comanches, e decide levá-la de volta ao marido, que oferece uma recompensa por sua recuperação.



Cena de Comanche Station (1960).

 

O traço de Brüno e as cores de Croix

 

Nos desenhos, Brüno aposta em um estilo de linha clara que, à primeira vista, parece simples, mas revela grande sofisticação na composição. O desenho privilegia a legibilidade e a fluidez narrativa, evitando excessos e confiando na força do enquadramento e do ritmo visual. Alguns leitores clássicos podem estranhar as expressões mais contidas dos personagens, ou se vierem com a expectativa de encontrar uma obra semelhante à de Bonhomme, mas essa escolha estética se alinha perfeitamente à proposta da HQ.




O resultado é um Oeste mais seco, silencioso e pouco sentimental. As cores de Laurence Croix potencializam essa atmosfera ao trabalhar a paleta de forma dramática e funcional: tons azulados dominam os ambientes gelados, enquanto amarelos e laranjas aquecem as paisagens áridas. Já em momentos de maior tensão, o contraste com preto e vermelho intensifica o peso emocional das cenas.

 

Um Lucky Luke mais humano

 



Dakota 1880 é um álbum que surpreende. Quando se chega ao final, o leitor sente o impacto da trama que acabara de ler. Mais do que um herói lendário, Luke é um observador que aprende, muda e, em muitos momentos, questiona. Essa humanização, aliada a uma narrativa consistente e a um sólido pano de fundo histórico, transforma o álbum em uma das releituras mais interessantes do personagem.

Mais de um século depois de 1880 e décadas após sua criação, o Velho Oeste de Lucky Luke ainda tem muito a dizer.



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