Lily e o Caçador - Ken Parker em uma história sobre afeto e humanidade no limite da vida

Leonardo Fraga
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“Lily e o Caçador” é, sem exagero, um dos grandes momentos de toda a trajetória de Ken Parker. Aqui, vemos de perto a essência do personagem: um homem moldado pela dureza da vida, mas que nunca perde a capacidade de se conectar, até mesmo com uma pequena cachorrinha que, ironicamente, acaba salvando sua vida duas vezes.



Com roteiro de Giancarlo Berardi e arte de Ivo Milazzo, a história mistura drama, lirismo e um olhar profundamente humano sobre a sobrevivência. Publicada originalmente na edição #25 de Ken Parker e recentemente pela Mythos em Ken Parker #13, ela continua sendo uma daquelas leituras que ficam com você por muito tempo.

 

Mais Forte que a Amizade


 

A trama começa de forma simples. Ken, coloca suas raquetes de neve e sai para verificar suas armadilhas nas montanhas geladas de Montana. Em uma delas, ele encontra algo inesperado, uma cadelinha vira-lata, toda desgrenhada, mas com um olhar impossível de ignorar. No começo, ela resiste. Mas basta um gesto de cuidado para que ali nasça uma amizade das mais bonitas. Ken a leva até o Forte Shaw para tratar os ferimentos em sua pata.



Ken estava trabalhando como guia para o Exército e também como caçador, garantindo carne fresca para o forte. O lugar, aliás, existiu de verdade: o Forte Shaw foi criado em 1867 para proteger mineradores e colonos de possíveis ataques de tribos indígenas, especialmente os Dakotas, durante a expansão para o oeste.




E é justamente aí que entra uma das críticas afiadas de Berardi. O capitão responsável pelo forte nem sequer ganha nome, ele funciona mais como símbolo de um Exército despreparado, cheio de autoridade e pouca compreensão do território e dos povos nativos. É um detalhe simples, mas cheio de significado, do qual Parker não deixa de jogar na cara do Capitão.




A criação de Lily tem uma origem bem especial: foi inspirada na cachorrinha do próprio Milazzo, chamada Lilla, resgatada na frente de uma escola e que viveu por 13 anos. O título da história também é uma homenagem direta à animação “A Dama e o Vagabundo”, clássico da Disney lançado em 1955 conhecido na Itália como “Lilli e il Vagabondo”.


Ivo Milazzo e Lilla, sua cachorrinha com quem conviveu por 13 anos.

Mais Forte que a Vida

 

A virada da história vem com um ataque dos Dakota ao Forte. Ken é gravemente ferido por lanças e flechas e fica à beira da morte, perdido no inverno brutal de 1875. É nesse momento que Lily deixa de ser apenas companhia e se torna sua salvação. Ela enfrenta lobos, luta com todas as suas forças, chegando a matar um deles e prova uma lealdade impressionante. Mais do que isso: demonstra inteligência e instinto de sobrevivência dignos de qualquer protagonista.











Os dois refugiam-se em uma caverna. Febril e à beira do delírio, Ken protagoniza uma das sequências mais marcantes da HQ. Berardi cria um “quadrinho dentro do quadrinho”, enquanto Milazzo muda completamente o estilo gráfico, evocando iluminuras medievais (ornamentações que decoravam manuscritos entre os séculos XI e XV). Nesse sonho, Ken revisita sua infância, reencontra a mãe, Lucy Parker, e mergulha em uma fantasia inspirada na lenda do Rei Arthur, onde ele próprio se transforma no cavaleiro “Parkelot”.




É uma metáfora rica sobre identidade, memória e destino, carregada com muito humor. O Mago Merlin, por exemplo, deixa a varinha mágica em um urinol sob sua poltrona.

Esta é a primeira vez que vemos a mãe de Ken. Ela volta a surgir nas histórias “Lar doce Lar” (KP #30) e “O Grande Espetáculo” (Ken Parker #33 - Mythos). Além de aparecer no especial “Nos Tempos de Pony Express” (Ken Parker Especial - Vol. 2 – Tapejara). Além disso, aqui é a segunda vez que um sonho é retratado na série. A primeira vez foi em “Chemako” (Ken Parker #3 – Mythos), ambos ligados a ferimentos sofridos pelo personagem.

 



Mais Forte que a Fome

 

Mas, o coração da história está mesmo na relação entre Ken e Lily. A HQ trata esse vínculo com muita delicadeza, elevando a conexão entre humano e animal a um nível quase filosófico. Em vários momentos, Ken conversa com Lily como se estivesse diante de alguém que realmente o entende e, de certa forma, está.





O mais impressionante é que nada disso soa forçado, pelo contrário. Ivo Milazzo desenha Lily com um realismo quase desconcertante: cada gesto, cada expressão, cada reação carrega emoção. Em vários momentos, parece possível entender exatamente o que passa pela cabeça dela. Esse nível de verdade só nasce de uma observação atenta, como a que ele teve ao se basear na cadelinha Lilla, captada aqui com sensibilidade e precisão raras.

Milazzo também transita com naturalidade entre o lirismo e a brutalidade. Nas cenas mais escuras, a intensidade salta aos olhos: pequenos fachos de luz, da fogueira ou da lua recortam a escuridão e guiam o olhar para o que realmente importa, seja no silêncio da noite ou no interior opressivo de uma caverna.




As sequências de ação carregam uma forte dramaticidade, com muitos detalhes nas expressões dos personagens. O desespero no olhar de Ken, quando está correndo perigo, com dor, ou vendo a morte chegar, é emocionante, quase real e provoca aflição ao leitor.

Mas uma das cenas mais extremas, que marcam a leitura de “Lily e o Caçador” para todo o sempre, é quando os dois estão na caverna e Parker, consumido pela fome, chega a cogitar matar Lily para sobreviver. Não é crueldade, é desespero puro, o limite da condição humana. E justamente por isso, a cena é tão impactante e tensa.



 

Mais forte que a Vingança

 

A HQ também traz referências ao cinema, especialmente a Jeremiah Johnson (Mais forte que a vingança, de Sidney Pollack, 1972), inspiração reconhecida para a criação do personagem. O visual de Ken barbudo, as roupas de pele, até o cachecol vermelho usado na capa e o clima de isolamento, tudo ecoa ao filme. Há até uma cena praticamente recriada: o encontro com um homem congelado na neve segurando um rifle. Até mesmo o bilhete no corpo e a questão do homem ter morrido após um urso quebrar suas pernas, é usado.


Jeremiah Johnson (Mais forte que a vingança, de Sidney Pollack, 1972)


Lily adora dançar, e outro detalhe curioso é quando Ken canta “Alabama Bound” para ela, uma canção que remonta a “I Hab Leff Alabama”, de 1849, e que só foi gravada décadas depois, em 1909, pela Prince’s Band.






Mais Forte que a Lembrança

 

“Lily e o Caçador” é, facilmente, uma das melhores histórias de Ken Parker. Brilha pelo roteiro, pela arte e até pela capa. E mais do que isso: marca a série ao colocar, pela primeira vez, um animal como figura central da narrativa. Para muita gente, é a história definitiva para entender por que Ken Parker é tão cultuado. Porque aqui não estamos só diante de uma história de faroeste, mas de uma reflexão profunda sobre fragilidade, empatia e conexão.




E o final… bom, o final é daqueles que ficam. Melancólico, inevitável, mas perfeito. Depois de garantir que Ken está fora de perigo, Lily segue seu próprio caminho, à liberdade, em uma referência clara a “O Chamado da Floresta”, de Jack London. Fica o vazio, claro, mas também a certeza de que aquele encontro mudou os dois. E, com certeza, o leitor também.





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