Publicada originalmente em 1948 na revista Tintim, “Alix, o Intrépido” marcou a estreia de um dos maiores heróis dos quadrinhos europeus. Criada por Jacques Martin, a série nasceu ambiciosa ao unir aventura clássica, intrigas políticas e uma reconstrução histórica extremamente detalhada, elementos que transformariam Alix em um dos pilares da tradição franco-belga.
No Brasil, As Aventuras de Alix
foram publicadas pela editora portuguesa Edições 70. Trouxe 19 edições publicadas
de 1981 a 1990. A edição conta com 66 páginas coloridas, capa cartão e formato
europeu.
A trama acompanha Alix, um jovem
gaulês vendido como escravo ainda criança. Alix é lançado em uma
sucessão vertiginosa de acontecimentos tentando fugir de sua condição. Ele
atravessa diferentes territórios do mundo antigo, passando por experiências
extremas: é adotado por um governador em Rodes, participa de corridas de quadrigas,
torna-se gladiador e, por fim, acaba sob a proteção de Júlio César. Tudo isso
ocorre dentro desta primeira história, marcada por ritmo acelerado e constante
sensação de perigo.
A história tem início em
Khorsabad (atual Iraque) e se desenrola ao longo do vasto território do Império Romano,
situando-se historicamente em 53 a.C., durante o chamado Primeiro Triunvirato,
período em que Roma era influenciada por três figuras centrais: Júlio César,
Pompeu e Crasso. Esse pano de fundo não é meramente decorativo, ele estrutura
uma intrincada trama política na qual Alix, ainda que jovem e vulnerável,
torna-se peça-chave.
Um dos grandes méritos da obra
está na forma como Martin equilibra aventura e contexto histórico.
Diferentemente de narrativas puramente escapistas, “Alix, o Intrépido” investe
em uma ambientação detalhada: arquitetura, vestimentas, armas e até cortes de
cabelo são cuidadosamente representados, evidenciando um trabalho de pesquisa
minucioso.
Jacques Martin tinha um cuidado
quase obsessivo com perspectiva e cenografia. Em muitos álbuns, cidades
inteiras parecem “reconstruídas” diante do leitor. Essa atenção ao realismo
contribui para a imersão do leitor e antecipa o que se tornaria uma marca
registrada da série. Apesar de que personagens e acontecimentos, mesmo que bem
calcados no período histórico não representassem a história real.
Embora Martin tenha colaborado com Hergé (criador de Tintin) e adotado elementos da chamada “linha clara”, seu estilo aqui se aproxima mais da estética dinâmica e realista de Alex Raymond (Flash Gordon). O uso frequente de grades rígidas, muitas vezes com até 16 quadros por página, reforça o ritmo ágil da narrativa, permitindo que múltiplas ações ocorram simultaneamente sem comprometer a clareza visual.
O resultado é uma leitura
envolvente, que evita momentos de estagnação. As situações de risco, as
reviravoltas constantes e o jogo político mantêm a tensão elevada do início ao
fim. No centro de tudo, está o carisma de Alix: um protagonista que, mesmo
diante da adversidade extrema, demonstra coragem, inteligência e um forte senso
de justiça.
“Alix, o Intrépido” estabelece as bases de uma saga que atravessaria décadas, consolidando-se como um dos pilares dos quadrinhos históricos europeus. É uma obra que não apenas entretém, mas também revela o potencial dos quadrinhos como meio de reconstrução e interpretação do passado, sem abrir mão da emoção e do espetáculo narrativo.
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| Ben-Hur: A Tale of the Christ (1925) |
Entre tantas referências históricas para a construção de Alix, Jacques Martin reconheceu em entrevistas que uma das principais inspirações veio do filme Ben-Hur de 1925, dirigido por Fred Niblo. Martin, que nasceu em 1921 disse que ficou impactado com as cenas apoteóticas do filme mudo da época.
Logo na primeira página incluiu uma referência de quando Alix deixa cair pedras de uma sacada na chegada dos Romanos a Khorsabad, semelhante à cena em que o governador da Judeia chega à Jerusalém em Ben-Hur.
Outra cena inspirada no filme foi a corrida de quadrigas, impressionante para a época em que foi filmada. Martin disse que pensava que Alix teria vida curta, por isso incluiu já no início todos os elementos que podia, além da rápida evolução do personagem que de garoto sem qualquer experiência, logo está lutando com espadas e correndo de quadrigas como ninguém.
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| Ben-Hur: A Tale of the Christ (1925) |
É bom saber que o ritmo narrativo de Alix é mais contemplativo e literário do que o das HQs modernas. Alix tem muito texto, diálogos expositivos e uma narrativa bastante clássica. Isso transformou a série quase numa “aventura arqueológica ilustrada”. Muitos leitores conheceram civilizações antigas através das HQs de Alix como a Roma republicana, o Egito ptolomaico, a Grécia antiga, Fenícia, Mesopotâmia, Gália e Cartago.
“Alix, o Intrépido” permanece
impressionante não apenas por sua importância histórica, mas pela ambição rara
de transformar os quadrinhos em uma verdadeira máquina de viajar no tempo.
Jacques Martin entendia a aventura como espetáculo, mas também como descoberta.
A série abriu para gerações de leitores as portas da Antiguidade clássica e mais
de sete décadas depois de sua estreia, Alix continua sendo uma das maiores
expressões da tradição franco-belga e um marco fundamental das HQs históricas
europeias.
Alix e sua longa trajetória
Alix teve 20 volumes publicados
por Jacques Martin fazendo roteiro e desenhos sozinho até 1996. A partir de
1998, Martin começou a ter a saúde debilitada e a perder a visão, então a série
continuou mas começou a contar com colaboradores da edição 21
a 28. Com o falecimento de Martin em 2010, as aventuras continuaram, sendo
publicados os volumes 29 a 41 de 2010 a 2023.
Além da série regular, a série conta com derivados como “As Viagens de Alix”, 35 edições que retratam a cultura e a geografia da antiguidade com ilustrações inspiradas nas aventuras de Alix. “Alix conta”, uma série em três volumes que apresenta biografias de grandes personagens da antiguidade como Alexandre o Grande, Cleópatra e Nero.
A partir de 2012 começou a ser publicada a série “Alix, Senador”, com roteiro de Valérie Mangin e desenhos de Thierry Démarez. Uma série mais sóbria e mais realista que a original, mostrando Alix como um Senador romano no ano 12 a.C.
Jacques Martin,
Antes de chegar à revista Tintim,
Jacques Martin teve uma trajetória bastante complicada. Ele nasceu em
Estrasburgo (Alsácia, Leste da França), em 1921 e cresceu no período turbulento da Segunda Guerra Mundial. Fascinado por desenho e arquitetura,
tentou entrar no mercado editorial francês ainda nos anos 1940.
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| Jacques Martin |
Trabalhou em pequenos estúdios e
produziu histórias curtas para editoras menores. Uma de suas primeiras séries
foi “Le Hibou Gris”, ainda bastante influenciada pelos quadrinhos de aventura
americanos que admirava como Alex Raymond (Flash Gordon), Milton Caniff (Terry
e os Piratas) e o próprio Hergé (Tintim), com quem em 1948 finalmente conseguiu
se encontrar.
Hergé, que naquele momento estava
expandindo os Studios Hergé para atender à crescente demanda da revista Tintim,
ficou impressionado com Martin principalmente com a precisão do desenho, o
domínio da perspectiva, a construção de cenários e a clareza narrativa.
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| Jacques Martin e Hergé |
Martin então foi contratado
inicialmente como colaborador técnico e desenhista assistente, ajudando em
cenários, veículos, pesquisa visual e finalização de páginas. Jacques colaborou
em álbuns como Tintim Rumo a Lua, Explorando a Lua, O Caso Girassol, Tintim no Tibete, entre
outros.
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| Página de Tintim Rumo a Lua, com colaboração de Jacques Martin e Bob De Moor. |
Uma das características da revista Tintim era a de constantemente buscar criar novos personagens seriados capazes de acompanhar o sucesso de Tintim. O editor Raymond Leblanc queria transformar a revista em um grande polo de aventuras franco-belgas.
Martin acabou propondo uma
história ambientada na Antiguidade Romana, algo relativamente incomum na época.
Em vez de ficção científica ou aventura contemporânea, ele queria misturar
ação, política, arqueologia e rigor histórico. A proposta chamou atenção porque
tinha uma identidade muito própria.
Assim nasceu Alix e Hergé teve
papel fundamental nesse processo.
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| Hergé e a equipe dos Studios Hergé |
Além de apoiar Martin
internamente, Hergé enxergava em Alix algo que complementava Tintim sem imitá-lo
diretamente. Hergé também incentivou Martin a simplificar parte do traço,
aproximando-o da “linha clara” para melhorar a legibilidade.
Mesmo assim, Jacques Martin
manteve várias características próprias como quadros muito detalhados, cenários
monumentais e uma narrativa densa. “Alix, o Intrépido” rapidamente se destacou e o personagem ganhou popularidade pois oferecia algo diferente
do restante da publicação. Isso consolidou Martin como um dos principais
autores da revista ao lado de nomes como: Edgar P. Jacobs (Blake &
Mortimer), Bob de Moor (Cori, O Grumete) e Paul Cuvelier (Corentin).
Poucos anos depois do sucesso inicial de Alix, Jacques criou o personagem Guy Lefranc. A primeira aventura da série, A Grande Ameaça (“La Grande Menace”), começou a ser publicada em 1952 na revista Tintim e depois saiu em álbum em 1954. Sua intenção era trabalhar também com aventuras contemporâneas que abordavam o clima da Guerra Fria, thrillers de espionagem, ficção científica e jornalismo investigativo.
O protagonista, Guy Lefranc, é um
jornalista aventureiro que acaba constantemente envolvido em conspirações
internacionais, ameaças tecnológicas e conflitos geopolíticos.
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| Jacques Martin. 1921-2010 |




























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