Cuphead e sua divertida experiência nos quadrinhos

Leonardo Fraga
por -
0


O universo de Cuphead sempre pareceu destinado a existir além dos videogames. Desde seu lançamento, o título desenvolvido pelo StudioMDHR chamou atenção não apenas pela dificuldade brutal, mas principalmente pela identidade visual inspirada nos desenhos animados das décadas de 1920 e 1930. Com traços “rubber hose”, animação artesanal e referências diretas à era de ouro dos cartoons norte-americanos, o jogo rapidamente virou um fenômeno cultural que ultrapassou o público tradicional dos games.


Cuphead (2017)

A expansão da marca para outras mídias só engrandeceu a obra. A excelente série animada The Cuphead Show! (2022), produzida pela Netflix, foi um passo natural nesse processo. Mas antes mesmo de consolidar sua presença no streaming, Cuphead encontrou nos quadrinhos um terreno surpreendentemente fértil para explorar melhor seus personagens, seu humor nonsense e seu visual nostálgico.




Publicadas pela Dark Horse Comics em 2020, as HQs da franquia mostram que o charme de Cuphead nunca esteve apenas no visual do game, nas batalhas contra chefes irritantes ou no prazer em vencê-los. Existe ali um universo cartunesco forte o bastante para sustentar histórias próprias e os dois primeiros volumes deixam isso bastante claro.



 

Uma adaptação que entende a essência do jogo

 

O maior receio em adaptar Cuphead para os quadrinhos era óbvio: como transportar para páginas estáticas um jogo cuja identidade depende tanto de movimento, exagero visual e ritmo frenético? A resposta encontrada pela equipe criativa funciona melhor do que se imaginava.




Os roteiros de Zack Keller (que escrevia histórias de terror para a Dark Horse) apostam em aventuras episódicas curtas, enquanto a arte de Shawn Dickinson reproduz com enorme fidelidade a estética dos desenhos clássicos. O resultado lembra mais uma coletânea de tiras e curtas animados antigos do que uma adaptação convencional de videogame.



O volume 1 – Comic Capers & Curios (algo como Trapalhadas Cômicas e Curiosidades), desde as primeiras páginas já demonstra uma preocupação constante em sugerir movimento. A composição dos quadros funciona muito bem criando sensação de fluidez com muitos personagens em movimento. Eles parecem que estão prestes a sair correndo das páginas a qualquer instante.



A tentativa de reproduzir o aspecto envelhecido das antigas películas também chama atenção. As páginas recebem texturas granuladas e pequenos efeitos que simulam filmes antigos. Em alguns momentos, o acabamento pode causar certo estranhamento inicial, quase como se o papel estivesse “sujo”, mas a escolha faz sentido dentro da estética retrô, que faz parte da identidade visual do game.



Histórias curtas, caos absoluto e humor nonsense


As HQs não tentam adaptar a campanha do game, ao invés disso funcionam como coletâneas de histórias independentes protagonizadas por Cuphead, Mugman (Xicrinho e Caneco) e vários personagens secundários conhecidos pelos fãs. Essa estrutura episódica beneficia bastante a leitura, pois nos quadrinhos há espaço para desenvolver personalidades, interações e piadas com mais calma do que no jogo.




As histórias são um deleite para os fãs e para quem também não conhece a obra. Em “Graveyard Gauntlet” (Desafio no Cemitério), por exemplo, após o Vovô Chaleira pedir que eles não fossem ao cemitério, Cuphead com sua personalidade desafiadora, claro que vai e leva o irmão junto. Lá encontram os fantasmas em uma grande festa e participam junto, com muito movimento e muitos personagens nos quadros. Um excelente início.



Já em “Mugman and the Promenade Predicament” (Caneco e a Confusão no Calçadão), Mugman atravessa distraidamente o caminho de chefes famosos enquanto lê um livro, derrotando criaturas perigosas quase sem perceber. É uma inversão divertida para quem sofreu horas tentando vencer esses mesmos inimigos no game.







A HQ também aproveita muito bem personagens secundários, especialmente os chefões. Figuras como Baronesa Von Bon Bon, King Dice, a sereia Cala Maria, Werner Werman e o Capitão Brineybeard reaparecem em versões mais cômicas e menos ameaçadoras, funcionando como caricaturas exageradas, exatamente como acontecia nos desenhos animados.



Outro destaque é a participação de Ms. Chalice, personagem que mais tarde ganharia importância no DLC The Delicious Last Course. Sua presença reforça como o universo de Cuphead consegue expandir naturalmente suas histórias sem depender exclusivamente da estrutura do game.



A revista é em formatinho com 72 páginas com capa cartão e é uma delícia de ler. São histórias curtas, mas Shawn não teve preguiça em desenhar vários personagens em cena nem os cenários. A revista conta até com atividades como a de aprender a desenhar o Diabo!



 

O segundo volume mostra que a fórmula realmente funciona


Se o primeiro encadernado serve como teste para descobrir se Cuphead funcionaria nos quadrinhos, O volume 2 – “Cartoon Chronicles & Calamities” (Crônicas cartunescas & Calamidades) deixa claro que a proposta encontrou seu tom.




A coletânea mantém a mesma estrutura de aventuras independentes, mas parece ainda mais confortável com seus personagens e com o ritmo cômico. A leitura lembra muito os antigos “funny pages”, páginas de quadrinhos publicados em jornais.

As aventuras são rápidas, leves, absurdas e feitas puramente para divertir. É curioso perceber como os quadrinhos conseguem destacar justamente aquilo que muitas vezes fica escondido no videogame. Sem a tensão constante dos chefes e do “game over”, sobra espaço para apreciar melhor o carisma dos personagens, as expressões exageradas e o humor nonsense que sempre esteve presente no universo da franquia.








Entre as histórias que se destacam no Volume 2 está a primeira que conta com Glumstone, o Gigante (ou Monty Turrão), que é um chefão da DLC The Delicious Last Course. A história do Vovô Chaleira na cidade é um espetáculo visual incrível. Tem um What If... (E se...) Cup Head e Mugman tivessem perdido as almas para o Diabo, será que o bicho ruim ia aguentar estes endiabrados?



Além de uma história curta com o Chef Saltbeaker, chefão da DLC e outra história divertidíssima com a Baronesa Von Bon Bom e sereia Cala Maria.




 De inocentes não tem nada

 

Apesar da aparência inocente, os quadrinhos de Cuphead também brincam com uma ambiguidade interessante. Na superfície, tudo parece bastante “family friendly”. Não há violência explícita pesada, palavrões ou conteúdo adulto direto. O humor segue a tradição caricata dos desenhos antigos, cheio de exageros, confusões e situações absurdas.



Mas as histórias também não possuem necessariamente um caráter educativo. Os personagens frequentemente tomam decisões ruins, aprendem pouco com seus erros e terminam suas aventuras exatamente tão caóticos quanto começaram.




A única grande “moral” herdada do jogo continua sendo a mesma: jamais aposte sua alma no cassino do Diabo. Fora isso, o humor trabalha muito mais com nonsense, paródia e exagero cartunesco do que com lições edificantes. Essa característica aproxima a HQ tanto das animações clássicas da primeira metade do século XX que não se preocupavam em nada com o politicamente correto. Mas pelo menos aqui, as tramas são mais evoluídas, sem estereótipos ou preconceito.




Uma homenagem apaixonada à era de ouro da animação


O universo criado pelo StudioMDHR possui personalidade suficiente para sobreviver em diferentes formatos, seja nos videogames, na animação ou nos quadrinhos. O grande diferencial da franquia está no carisma de seus personagens, na consistência visual e na capacidade de transformar a estética dos desenhos clássicos em algo surpreendentemente atual, qualidades que as HQs conseguem preservar com enorme eficiência.

Por isso, os quadrinhos parecem funcionar para um público amplo: crianças podem gostar das cores, do humor físico e das trapalhadas. Adultos provavelmente vão apreciar ainda mais as referências visuais, o clima retrô e a homenagem constante à história da animação. E os fãs do jogo ou da animação da Netflix irão adorar estas histórias que expandem a experiência de Cuphead. 





Além das três temporadas de The Cuphead Show! Na Netflix, a franquia também ganhou três edições em quadrinhos, dois livros e dois Art Books, um do game e um da série animada. Até hoje, todos os materiais impressos permanecem inéditos no Brasil.


Livros de Cuphead escritos por Ron Bates.





Postar um comentário

0Comentários

Vamos lá pessoal. Sua opinião é muito importante. Tem Preguiça Não de comentar.

Postar um comentário (0)