Banksy em quadrinhos: entre o mito, o mercado e o muro

Leonardo Fraga
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A editora londrina Prestel Publishing lançou em 2022, a HQ Banksy: A Graphic Novel, uma proposta ambiciosa: transformar em narrativa biográfica a trajetória de um artista cuja identidade permanece desconhecida. Afinal, Banksy é possivelmente o nome mais famoso da arte urbana mundial e, ao mesmo tempo, um completo enigma. É justamente esse paradoxo que orienta o trabalho do roteirista Francesco Matteuzzi e do desenhista Marco Maraggi.

Em vez de seguir o caminho de uma biografia tradicional, Matteuzzi opta por uma construção narrativa indireta. A história é conduzida por dois personagens fictícios, Claire e Adam, jovens fascinados pela arte de rua que funcionam como mediadores para o leitor. Em Londres, Claire está tentando gravar um documentário e tentando flagrar Banksy em ação fazendo alguma de suas obras, quando encontra Adam grafitando uma parede. A polícia chega e os dois são detidos pela polícia.



Como consequência, recebem uma medida socioeducativa que os obriga a limpar pichações e grafites pela cidade. É nesse contexto que Claire propõe a Adam que a ajude com seu documentário sobre Banksy. Enquanto percorrem as ruas londrinas, Claire e Adam revisitam a trajetória do artista, comentando suas obras, métodos e impacto cultural.



Ao longo desse percurso, a HQ apresenta ao leitor não apenas o caráter politicamente engajado da arte de Banksy e as causas que ele abraça, mas também sua projeção global, das intervenções urbanas às exposições em museus e leilões milionários. Ainda que a identidade real do artista continue um mistério, a escolha por essa estrutura narrativa reforça sua principal mensagem: a arte é acessível, coletiva e pertence a todos.



Organizada em capítulos temáticos com títulos: “Arte versus __”. A narrativa estrutura sua análise a partir dos conflitos que atravessam a obra de Banksy. Em “Arte versus Multinacionais”, o artista é situado no contexto dos movimentos antiglobalização e das críticas ao capitalismo contemporâneo. Já “Arte versus Muros” volta o olhar para seus métodos de atuação, destacando o uso de estênceis previamente preparados, que permitem intervenções rápidas, precisas e, sobretudo, difíceis de rastrear.



Na sequência, “Arte versus Complacência” amplia o debate ao discutir o papel da arte como instrumento de transformação social, uma ideia que dialoga diretamente com o percurso de Claire e Adam. Por fim, “Arte versus Arte” investiga a relação ambígua de Banksy com o circuito institucional, evidenciando como ele transita entre a crítica ao mercado e sua inserção nele.


Banksy usa ratos em suas peças como símbolo de rebeldia. Sua ideia é de que os ratos vivem às margens da sociedade, mas ainda existem, resistem e ocupam espaço. Maraggi usa um rato carregando uma carruagem de abóbora nesta página referenciando a peça que Banksy expôs em sua Dismaland, um parque onde ele colocou várias de suas peças. Na escultura em questão, uma carruagem capotada com uma princesa morta, faz referência à morte da Princesa Diana, falecida após o veículo em que estava capotar ao ser perseguida por paparazzis. 


Imagem: Reuters

A parte visual de Marco Maraggi, responsável também pelas cores da edição, busca ao invés de reproduzir diretamente as obras de Banksy, uma limitação ligada aos direitos autorais para publicação, recriar atmosferas, situações e imagens que evocam os trabalhos do artista. O foco é não fazer uma cópia, mas sim sugestões visuais das obras.



Um dos exemplos mais emblemáticos é a releitura de Napalm (2004), em que Banksy subverte uma fotografia icônica ao posicionar a menina vietnamita, vítima de um ataque durante a Guerra do Vietnã, entre Ronald McDonald e Mickey Mouse. O resultado é uma imagem de forte impacto, que sintetiza críticas ao consumo global e à cultura corporativa. Na HQ, Francesco Matteuzzi e Maraggi enriquecem a narrativa com curiosidades e bastidores, como o destino da própria garota retratada, que mais tarde se tornaria embaixadora da UNESCO.



Napalm (2004). A obra original foi adquirida por Damien Hirst.


Outro episódio marcante recupera as intervenções de Banksy em 2005, na Palestina, especialmente as obras realizadas no chamado “Muro da Segregação”. Ao tentar ressignificar visualmente a barreira que separa territórios palestinos e israelenses, o artista esbarrou em uma reação direta dos moradores locais, que rejeitam qualquer tentativa de “embelezar” aquilo que, para eles, é antes de tudo um símbolo de opressão. Passagens como essa ajudam a alimentar o mito em torno de Banksy, algo que a HQ não busca desmontar, mas incorporar à sua própria narrativa.



Muro da Segregação, 2005.


No plano ficcional, Claire e Adam percorrem esse mapa simbólico visitando intervenções, registrando imagens e, aos poucos, se envolvendo de forma mais ativa com a arte que investigam. A trajetória de Adam, que vai da ignorância à ação, oferece um arco narrativo claro, ainda que por vezes pouco convincente. A relação entre os dois, frequentemente estruturada como um processo de aprendizado, cumpre bem a função didática, mas carece de maior densidade dramática. Em alguns momentos, os diálogos soam mais como um veículo direto das ideias de Francesco Matteuzzi do que como uma troca orgânica entre personagens.



Arremessador de Flores, 2005.


O estilo gráfico de Maraggi estabelece um diálogo direto com a arte de Banksy ao incorporar elementos como o uso de linhas finas, cenários detalhados e traços que remetem à quadrinhos mais underground. Por outro lado, a opção por uma paleta de cor dominada por tons de pêssego provoca certo estranhamento, principalmente pelo seu uso contínuo ao longo das 128 páginas que pode se tornar cansativo.



Menina com um balão, 2012. A obra foi originalmente exibida em Southbank, em Londres, com uma citação que dizia "sempre há esperança".


Apesar dessas limitações, o resultado final é consistente. Matteuzzi e Maraggi constroem um retrato amplo, informativo e envolvente de Banksy, um artista cuja trajetória, por definição, escapa a registros convencionais. Ao apostar em uma abordagem que mistura ficção e experimentação, a HQ não pretende substituir uma biografia tradicional, mas se afirma como uma leitura relevante, capaz de reunir fatos, contexto e reflexões sobre a obra e o impacto do artista ao longo de sua carreira.




Pulp Fiction, 2002.





Em 2018, Banksy colocou uma de suas obras à venda em um leilão na famosa Sotheby's, em Londres. Quando o estêncil batizado de "A Menina com Balão" foi arrematado por 1,4 milhão de libras (cerca de R$ 5 milhões), um dispositivo eletrônico foi acionado no quadro e o desenho foi picotado por um cortador de papel escondido. O próprio Banksy fez piada de sua atitude postando no Instagram uma foto do momento em que a obra se autodestruía . Ele escreveu "Está indo, indo, foi...".







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