Dylan Dog #29 – No Escuro (Mythos, 1ª série) é uma daquelas
histórias que ajudam a explicar por que Dylan Dog se tornou um dos maiores
ícones do horror nos quadrinhos mundiais. É a estreia de Claudio Chiaverotti nos roteiros da série e contando com desenhos de Pietro Dall’Agnol, a HQ apresenta um dos vilões mais assustadores
de toda a série: Mana Cerace, também conhecido como Philip Crane. Uma criatura
que parece saída de um cruzamento entre o Bicho-Papão, o Monstro do Armário e
Freddy Krueger, da Hora do Pesadelo (1984).
O grande diferencial de Mana Cerace está justamente em sua relação com o escuro. Ele não é apenas um assassino brutal, mas uma manifestação do medo infantil das sombras. Quanto maior o pavor de suas vítimas, mais forte ele fica. É um conceito simples, mas extremamente eficiente, que transforma cada apagão de luz em um momento de tensão para o leitor.
A trama começa quando Kelly, ainda criança, é colocada de
castigo pelo pai após respondê-lo de forma malcriada. Sozinha em seu quarto
completamente escuro, ela vê seu medo ganhar forma da pior maneira possível.
Das trevas surge Mana Cerace: uma figura verde, deformada, grotesca e armada
com uma faca. Em uma sequência traumática, a criatura assassina o pai da menina
diante de seus olhos, deixando marcas psicológicas que a acompanharão pela vida
inteira.
Anos depois, já adulta, Kelly percebe que o pesadelo voltou. Convencida de que Mana Cerace está novamente atrás dela, procura Dylan Dog para tentar sobreviver ao retorno do monstro. O desespero é tanto que ela paga o investigador adiantado e ainda oferece mais dinheiro do que o combinado, numa tentativa quase desesperada de garantir salvação. Só que a presença de Dylan não impede a escalada de violência. Pessoas próximas a Kelly começam a morrer brutalmente. Primeiro o namorado, depois uma amiga. A sensação é de que ninguém está seguro enquanto Cerace continua à espreita.
A situação piora quando a tia de Kelly passa a enxergar
Dylan como um farsante aproveitador, afastando a sobrinha do investigador.
Ainda assim, Dylan e o inspetor Bloch seguem investigando o caso, tentando
compreender como enfrentar uma criatura que parece existir justamente nos
espaços onde a lógica deixa de funcionar.
É então que Mana Cerace passa a perseguir também Dylan e
Groucho, levando a trama para a icônica convenção de sósias. Groucho participa
do evento cercado por imitadores do Gordo e o Magro, dos The Blues Brothers e
outras figuras populares da cultura pop. O que começa quase como uma cena
cômica rapidamente se transforma em horror quando Cerace invade o local para
atacar Groucho.
A perseguição culmina numa tensa sequência nos telhados do prédio, com Dylan enfrentando o monstro em meio ao medo constante de ser dominado pelas sombras. A cena é tão marcante que acabou eternizada na belíssima capa de Claudio Villa, uma das artes mais lembradas da fase clássica da série.
Chiaverotti constrói a narrativa com um equilíbrio
impressionante entre terror, ação e humor. Mesmo mergulhada em um clima
sufocante, a HQ nunca abandona completamente o sarcasmo característico de
Groucho, o que ajuda a dar ainda mais ritmo à leitura. As piadas surgem naturalmente
no meio do caos, sem quebrar a tensão, algo que poucos roteiristas conseguem
fazer tão bem dentro de Dylan Dog.
Os desenhos de Dall’Agnol também têm papel fundamental no impacto da história. O artista investe pesado no splatter, destacando toda a brutalidade de Mana Cerace, mas o que realmente chama atenção é a expressividade dos personagens. O medo estampado nos rostos é convincente o suficiente para fazer o leitor sentir a tensão junto a eles. Cada olhar assustado, cada hesitação diante da escuridão e cada reação desesperada ajudam a vender a ideia de que ninguém ali está realmente seguro.
Além disso, o uso do preto e branco é excepcional.
Dall’Agnol transforma o escuro em uma presença viva dentro da HQ. As sombras
parecem engolir os personagens a qualquer momento, criando um clima constante
de insegurança. É claustrofóbico. O leitor passa a ficar tão desconfortável
quanto os protagonistas sempre que as luzes piscam ou se apagam.
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| Freddy Kruegger é interpretado pelo ator Robert Englund, que viveu o personagem oito vezes incluindo Freddy vs. Jason em 2003. |
Não por acaso, Mana Cerace acabou se tornando uma espécie de Freddy Krueger do universo de Dylan Dog. O personagem retornou várias vezes ao longo da série e ganhou uma mitologia própria bastante rica. Chiaverotti inclusive criou para o vilão uma canção infantil macabra, claramente inspirada na música usada em A Hora do Pesadelo, reforçando ainda mais a conexão entre as duas figuras.
A HQ ainda reserva um detalhe especialmente perturbador ao mostrar um pequeno fragmento do passado de Philip Crane. Em uma rápida cena, vemos o futuro assassino ainda criança brincando na rua, já com traços físicos que remetem diretamente a Krueger. É uma imagem breve, mas poderosa, que sugere que o horror já fazia parte dele desde muito cedo.
Canção “Il Buio” que está na história. Letra de Claudio Chiaverotti e
aqui interpretada por Anto n.i.o:
Mais do que apenas uma boa história de terror, “No Escuro” é
uma HQ que entende perfeitamente como trabalhar o medo do desconhecido e a
vulnerabilidade humana diante daquilo que não consegue explicar. E talvez seja
justamente por isso que Mana Cerace permaneça até hoje como um dos inimigos
mais memoráveis e assustadores que Dylan Dog já enfrentou.
Dylan Dog: “No Escuro” foi publicado originalmente em Dylan
Dog #34, no auge da chamada “Dylan Dog Mania”, período em que o
personagem se transformou em um verdadeiro fenômeno cultural na Itália. O sucesso
era tão grande que o Investigador do Pesadelo já inspirava festivais dedicados
exclusivamente à série, reunindo centenas de fãs, artistas e nomes importantes
ligados ao universo do horror.
Em 1992, durante o Dylan Dog Horror Fest 3, o convidado de honra
foi ninguém menos que Robert Englund, eternizado como Freddy Krueger. O ator
aproveitou bastante sua passagem pela Itália, interagindo com os fãs tanto do
icônico vilão quanto do próprio Dylan.
Esta história sairá no Dylan Dog Omnibus #6, previsto para Junho ou Julho.
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| Englund chegou a ganhar um desenho de Angelo Stano, tomando um drink em um bar em Milão. |
















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