O chamado “Universo Absolute”, da DC Comics, consolida-se como um dos movimentos editoriais mais bem-sucedidos recentes da indústria de quadrinhos. O êxito não se deve apenas à ousadia de reimaginar personagens consagrados como Batman e Superman, mas, sobretudo, à qualidade das histórias apresentadas, capazes de dialogar tanto com leitores veteranos quanto atrair um público novo.
Nesse contexto, a releitura da
Mulher-Maravilha, conduzida pela roteirista Kelly Thompson (Aves de Rapina,
Capitã Marvel) e pelo desenhista Hayden Sherman (Batman: Padrões Sombrios),
surge como um dos projetos mais interessantes da linha. Ao mesmo tempo em que
preserva elementos essenciais da personagem, a série propõe uma reformulação
estrutural que altera profundamente sua origem, seu ambiente e,
consequentemente, suas motivações.
Kelly Thompson ancora a narrativa na mitologia grega e magia, mas a partir de uma inversão radical: esta Diana não é formada em um paraíso, e sim forjada no inferno, sob a tutela da bruxa Circe. Sherman constrói uma identidade visual que combina delicadeza e brutalidade, evocando tanto a estética de contos de fadas e Dark Fantasy, quanto influências de obras como o mangá Berserk.
Ainda assim, o traço mais marcante da personagem permanece: sua humanidade. Diante de uma origem marcada por sofrimento, esta Diana demonstra compaixão, senso moral e um profundo compromisso com a justiça, chegando a tratar até mesmo criaturas demoníacas com empatia.
Publicada no Brasil pela Panini
Comics em edições de 64 páginas, a série já concluiu seu primeiro arco,
intitulado “A Última Amazona”.
Sem paraíso
A clássica Themyscira, símbolo de
equilíbrio, sabedoria e formação é citada, mas não aparece nesta origem da
personagem. A ausência das amazonas não apenas redefine a trajetória da personagem,
mas também introduz uma série de questionamentos que permeiam a narrativa: o
que teria ocorrido com esse povo? Teriam sido destruídas, punidas ou
simplesmente apagadas por forças divinas? A interferência de deuses como Apolo,
deus do Sol e responsável por levar Diana ainda bebê para Circe, sugere um pano
de fundo mais complexo, ainda em construção.
Mas o grande objetivo, segundo Thompson, não era simplesmente mudar a origem da personagem, mas colocá-la em um contexto onde suas escolhas, e não apenas sua herança, fossem determinantes. Essa mudança reverbera em todo o universo simbólico da obra. Elementos tradicionais da mitologia grega permanecem presentes, mas são reorganizados sob uma lógica mais sombria e imprevisível.
Circe e a construção de um vínculo inesperado
Na ausência de uma figura materna
amazona, geralmente atribuída à Rainha Hipólita das Amazonas, é Circe quem
assume esse papel. Inicialmente apresentada como uma entidade fria e
indiferente, Circe passa por um processo gradual de transformação à medida que
convive com a jovem Diana.
O que começa como desinteresse
evolui para um vínculo afetivo genuíno, enquanto Diana, por sua vez, reconhece
nela uma figura materna. Essa relação, construída de maneira progressiva,
adiciona densidade emocional à narrativa e redefine a dinâmica entre heroína e sua
antagonista na versão regular.
Circe é uma das maiores vilãs da Mulher Maravilha. Ganhou destaque no arco "A Bela e as Feras” na fase pós-Crise (1988), compreendendo as edições 15 a 19, escritas e desenhadas por George Pérez.
Ela também aparece na série
animada Liga da Justiça Sem Limites (2004), logo no quinto episódio da primeira
temporada, intitulado: “Essa porquinha”. Na história, a Mulher Maravilha é
transformada em uma porca e Batman e Zatanna precisam reverter o feitiço.
Na mitologia grega, Circe é uma poderosa feiticeira, frequentemente descrita como uma divindade menor, conhecida por transformar homens em animais por meio de poções mágicas em sua ilha, Eea. Sua representação mais famosa aparece na Odisseia, de Homero, quando transforma os companheiros de Odisseu em porcos. Ao longo dos séculos, consolidou-se como uma figura ambígua: ao mesmo tempo ameaçadora e sedutora, capaz de crueldades, mas também de gestos de hospitalidade e orientação, como quando ajuda o próprio Odisseu a seguir sua jornada.
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| Circe oferecendo uma taça a Ulisses, por John William Waterhouse (1891) Imagem: Gallery Oldham. Reino Unido |
Essa imagem da “bruxa” carrega também um peso histórico. Na Antiguidade e, mais tarde, durante a Idade Média, o rótulo de bruxa funcionava frequentemente como instrumento de violência de gênero e controle social, associado à marginalização de mulheres que fugiam das normas patriarcais, fossem curandeiras, parteiras ou simplesmente mulheres independentes. A perseguição às chamadas bruxas, portanto, não se limitava à superstição, mas em dinâmicas de poder e exclusão.
É a partir desse repertório que Kelly Thompson reconstrói sua versão de Circe. Na série, a personagem surge já marcada por punições dos deuses, relegada ao esquecimento no submundo, embora ainda detenha habilidades valiosas à eles. Nesse contexto, sua relação com a jovem Mulher-Maravilha ganha contornos inesperados: o inferno, inicialmente hostil, transforma-se gradualmente em lar.
Como a própria Thompson sugere, trata-se de uma dinâmica em que ambas se alimentam emocionalmente de amor e essa transformação é refletida visualmente no ambiente. A caverna árida e desolada vai se tornando um espaço de acolhimento, marcado por afeto e pertencimento. É nesse espaço que se forma, em grande parte, a identidade dessa nova Diana.
Uma nova estética e novas ferramentas
Hayden Sherman busca no visual da
Mulher-Maravilha uma estética mais diretamente ligada ao imaginário helênico,
algo que nem sempre aparece com tanta força nas versões modernas da personagem.
Em vez de apostar no tradicional apelo pin-up, Sherman constrói uma Diana que
remete a esculturas e cerâmicas da Grécia Antiga, com linhas mais limpas,
postura imponente e uma elegância quase clássica.
Há uma valorização do corpo como forma heroica, mas sem exageros. Sua altura e presença geram imponência, olhando de cima para baixo para figuras importantes como generais de exércitos, que se apequenam diante de Diana.
A reformulação também se manifesta no campo visual e funcional da personagem. O traje abandona a estilização clássica em favor de uma abordagem mais prática e utilitária, incorporando elementos como armadura, capa de pele e capacete. Além de cavalgar um Pégaso em uma versão esquelética reforçando o tom sombrio da narrativa.
Além disso, a personagem passa a dispor de múltiplos laços, uma espada de proporções exageradas e um conjunto de recursos mágicos que ampliam significativamente seu repertório. Entre esses elementos, destaca-se o braço direito robótico, resultado de um sacrifício e a bolsa druídica, utilizada como um pequeno portal, onde guarda armas e feitiços.
Este é outro ponto importante, que é a relação da personagem com o místico. Esta Mulher-Maravilha continua sendo uma princesa e uma amazona, mas agora também é uma bruxa. Em versões anteriores, Diana estava ligada ao místico, mas raramente o manipulava diretamente como aqui.
A introdução de práticas de magia,
incluindo o uso de uma linguagem específica para encantamentos, que mistura
grego e palavras ocultas, amplia o escopo narrativo e diferencia essa
interpretação das anteriores. No entanto, a obra estabelece uma regra clara: a
magia tem custo. Cada utilização implica consequências, o que adiciona peso
dramático às escolhas da protagonista e reforça a ideia de sacrifício como
elemento central.
Como bruxa, Diana venera Hécate, a deusa grega da magia, bruxaria e deusa das encruzilhadas. Em seu ombro direito há uma enorme tatuagem vermelha e no ombro um círculo, símbolo da Deusa. Essa simbologia se expande ainda mais na escolha das cores dessa nova Mulher Maravilha. O vermelho e o preto que definem o visual da personagem evocam as cores da Deusa.
Hécate domina os céus, terra e submundo, atuando como guia de almas e protetora das fronteiras entre mundos. Algo como a própria Diana, que transita entre o mundo dos humanos, dos deuses e das amazonas.
A última Amazona
Kelly
Thompson define a solidão como o eixo central desta nova Mulher-Maravilha. Trata-se de uma personagem
construída a partir da ausência de seu povo, as Amazonas. O que reforça de maneira contundente a ideia
de “última” ou “única” amazona, já sugerida no subtítulo do arco inicial, e
atribui um peso muito maior a cada uma de suas decisões.
A história se abre com um evento de escala quase apocalíptica: uma gigantesca pirâmide invertida surge flutuando próximo à costa de Gateway City e passa a vomitar hordas demoníacas sobre a cidade. É nesse cenário que Diana faz sua estreia, enfrentando criaturas infernais em sequências intensas, violentas e visualmente impactantes.
A estrutura do roteiro alterna entre passado e presente. No presente, acompanhamos a chegada da heroína à cidade e sua tentativa de conter algo que parece apenas o prenúncio de um ser ainda mais devastador: o Tetracida, um monstro gigante com características fortemente influenciadas pelo horror cósmico lovecraftiano. Ele vem com a intenção de destruir a humanidade, primeiramente os colocando uns contra os outros.
Já no passado, mergulhamos em sua origem: ainda bebê, Diana surge inesperadamente na chamada Ilha Selvagem, no Submundo, sob o olhar desconfiado de Circe e sob ameaça constante de criaturas que tentam matá-la. Isso só a fortalece. Em certo momento, Steve Trevor aparece nas praias da ilha e Diana decide ajudá-lo.
Os confrontos no presente cumprem bem o papel de apresentar a versão adulta da personagem, uma guerreira que maneja mais de um laço, nenhum deles o da verdade. Também entram em cena figuras que orbitarão sua trajetória, conhecidas do universo clássico mas aqui reimaginadas, como Etta Candy, sua irmã Gia e Barbara Minerva (que aqui ainda não é a Mulher Leopardo).
Em ambos os eixos, um conceito se impõe como fio condutor: o sacrifício. A magia, elemento fundamental da trama, faz com que Diana pene para conseguir reunir materiais para enfrentar o Tetracida ou devolver Steve Trevor para o mundo da superfície. O roteiro explora bem essa lógica, inserindo consequências que tornam o percurso da personagem mais difícil e, por isso mesmo, mais interessante.
Nesse contexto, até elementos aparentemente mais leves ganham nova função. A transformação de Etta em uma espécie de bruxa moderna, dona de uma loja de ingredientes exóticos que abastecem a bolsa druídica de Diana, pode soar conveniente, mas se encaixa organicamente nesse universo em que o místico permeia todas as camadas da realidade.
A liberdade e as referências de Hayden Sherman
Em Absolute Mulher-Maravilha, o
desenhista, Hayden Sherman destacou em entrevistas que a editora deu liberdade
quase total, como se fosse uma HQ autoral independente, mas sob a supervisão dos editores. Sherman
explica que suas influências vão desde a ficção científica clássica, como Flash
Gordon, até a sofisticação gráfica de artistas como Al Williamson (Contos da Crypta).
No entanto, talvez o elemento mais evidente dessa mistura esteja na
incorporação de referências da cultura pop japonesa e dos videogames.
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| Berserk de Kintaro Miura. |
A própria concepção da personagem evidencia essa fusão. A nova Diana empunha uma espada de proporções exageradas, ideia de Kelly Thompson, que remete à espada Dragon Slayer de Guts, do mangá Berserk. A própria armadura de Diana, preta e com pontas, também lembram a de Guts. São detalhes estéticos, que segundo Sherman comunicam imediatamente sobre o mundo e o tipo de história que está sendo contada.
Esse diálogo entre referências diversas também se manifesta na construção das páginas. O artista destaca sua admiração por quadrinhos europeus e pela forma como certos autores transformam cada página em uma composição quase autônoma, capaz de funcionar como obra visual independente. Essa preocupação com a dimensão estética da narrativa, onde cada quadro carrega peso próprio reforça a proposta de afastamento do padrão industrial mais rígido das comics americanas.
Uma reinvenção bem-sucedida
Ao final, Absolute Mulher
Maravilha se afirma como um dos exemplos mais bem-sucedidos dessa nova fase da
DC. Ao combinar magia, drama emocional e reinvenção bem feita, a obra
demonstra que ainda há espaço para explorar personagens clássicos sem recorrer
à repetição. Aposta na transformação de elementos já clássicos
como a própria mitologia grega e da Mulher Maravilha, em uma trama complexa
sobre escolhas, que definem esta nova heroína.







































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