O ano era 2016, e a série do Superman dos Novos 52 tinha naufragado. Era um herói mais jovem, impulsivo e não muito inspirador, sem o peso simbólico do clássico. Mesmo com um começo promissor com Grant Morrison, a troca frequente de equipes criativas, a descaracterização do personagem e histórias fracas afastaram muitos leitores, fazendo com que as vendas despencassem.
A DC Comics então chamou três
autores com a missão de reposicionar completamente o Superman. Na verdade,
trazer de volta o Superman clássico de antes da saga Ponto de Ignição. Peter J.
Tomasi, Patrick Gleason e Dan Jurgens foram os responsáveis por salvar o herói,
liderando a fase Renascimento do herói. Na revista Superman, Tomasi e Gleason
humanizaram o personagem, que agora é pai, sem precisar enfraquecê-lo por isso.
Na verdade mostrou que o Superman é mais forte principalmente por ser pai,
marido e exemplo, sem medo de parecer antiquado.
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| Peter J. Tomasi, Patrick Gleason e Dan Jurgens |
Enquanto Jurgens, responsável por fases memoráveis do Superman como A Morte e O Retorno do Superman e O Casamento do Superman, assumiu a revista Action Comics. Ele trabalhou um lado mais clássico e épico, com conexões com a mitologia do personagem e consolidando o Superman como figura central do Universo DC.
Jurgens foi essencial para arrumar a casa. Escreveu durante o evento Convergência a história que reintroduziu o Superman clássico ao lado de Lois e do filho, Jonathan, posteriormente desenvolvida na minissérie Superman: Lois e Clark. Eles viviam no mesmo universo dos Novos 52, porém incógnitos para não chamar atenção de ninguém. Porém o Superman volta e meia, com sua barba e uniforme preto, acabava dando uma força em algumas situações necessárias.
Foi com este gatilho que
conseguiram trazer de volta o Superman, pois o do Novos 52 chegou a morrer, virando
poeira mesmo, pra nunca mais voltar. Mesmo assim, o mundo não era mais o mesmo.
Como inserir os antigos Clark e Lois em um mundo que já tinha Clark e Lois, e
eles sendo bem diferentes? Até mesmo a questão com Lex Luthor, que agora é um herói! Várias coisas
precisavam ser resolvidas.
Mesmo sem ser perfeita, essa fase reconectou o personagem com leitores antigos e novos, e provou que o Superman ainda funciona, e muito, desde que seja tratado como o que ele sempre foi: um símbolo de esperança… mas, acima de tudo, humano.
A fase foi publicada no Brasil
pela Panini a partir de 2016, na 3ª série da revista Superman e na revista
Action Comics. As duas foram lançadas em papel LWC, após anos da revista
Superman ser publicada em papel jornal.
Um uniforme entre tradição e
atualização
Uma das mudanças mais visíveis do
período foi o novo uniforme do personagem. Segundo Gleason, o processo de
criação não foi imediato, mas resultado de trocas constantes com a editora. A
proposta inicial partiu do próprio artista, que recebeu a tarefa de desenvolver
o design, mas apesar da liberdade criativa, algumas diretrizes foram claras,
entre elas, a ausência da tradicional cueca, ou calção, por cima da calça. Uma
decisão editorial que já vinha sendo adotada nos Novos 52. Ainda assim, a
equipe optou por não transformar o uniforme em um elemento central da trama.
Tomasi destacou que a prioridade estava na história e nos personagens, não em
explicar a origem de cada detalhe visual.
As botas no início não chamaram atenção, se mantendo azuis como o uniforme, mas logo elas voltaram a ficar vermelhas. Gleason explica que buscou um Superman mais próximo da tradição clássica, com postura, expressão e linguagem corporal que transmitissem segurança e empatia. Elementos como o olhar, o sorriso e a forma de se portar foram pensados para reforçar a ideia de um herói confiável, acessível e inspirador.
A distinção entre Clark Kent e Superman também foi trabalhada com cuidado. Mesmo sendo fisicamente imponente em ambas as identidades, Clark apresenta gestos mais contidos e discretos, enquanto Superman assume uma presença mais firme e segura.
A principal diferença entre o
Superman do Renascimento e sua versão anterior, dos Novos 52, está na
maturidade. Enquanto o personagem mais jovem era impulsivo e reagia de forma
imediata às situações, a nova encarnação demonstra maior controle, experiência e
estratégia, qualidades que influenciam diretamente em sua atuação como herói.
Jurgens já trabalhava o Superman
na minissérie Lois e Clark, com os dois vivendo em uma cidade pequena da
Califórnia, com a identidade de White e criando Jonathan. Parece estranho, mas
essa ideia foi essencial. Um plano B muito bem elaborado para dar frutos a
longo prazo. Caso o Superman dos Novos 52 desse certo, continuaria, senão,
aconteceria a substituição. Segundo Jurgens, a boa recepção da abordagem do
Superman pai foi fundamental para que a DC o convidasse a assumir Action Comics
durante o Renascimento.
Com a proposta editorial de
resgatar elementos essenciais que historicamente fizeram o personagem
funcionar, Jurgens não perdeu tempo e já no primeiro arco, chamado “Estrada
para o Apocalypse” trouxe de volta o grande responsável pela morte do Superman.
Isso enquanto Superman precisava lidar com desconfiança com a faceta heroica de
Lex Luthor, personagem que se redimiu e criou um laço de amizade com o Superman
dos Novos 52.
Luthor aqui usa uma armadura e honra o Superman com seu “S” no peito, tentando ocupar o lugar do falecido protetor de Metrópolis. É um arco com muita violência, ação desenfreada e a cereja do bolo foi a inserção de um Clark Kent misterioso, trabalhando no Planeta Diário, que ninguém sabia quem era, mas que seguia sua vida como se nada tivesse acontecido.
Apocalypse causa um rastro de destruição, como de costume, e o Superman se coloca em seu caminho fazendo de tudo para detê-lo. A Mulher Maravilha, do Universo dos Novos 52, ex namorada do antigo Superman, vem para ajudar na batalha e também proteger Lois e Jonathan, que se tornam alvos do monstro. Após muita luta, Superman usa o velho truque de enviar o que não se pode derrotar para a Zona Fantasma.
Durante os Novos 52 aconteceram
coisas inimagináveis para a história do Superman, que a DC precisou queimar os
neurônios para resolver na fase Renascimento. Uma delas foi a identidade de
Clark Kent ter sido exposta ao mundo, por Lois Lane!
Como jornalista do Planeta Diário, Lois era apenas uma colega de trabalho de Clark. Era uma relação profissional e distante, com pouquíssima carga romântica. Nesta fase, a Mulher Maravilha foi quem se tornou interesse amoroso do Superman. Relação estabelecida logo no início da fase, principalmente na revista da Liga da Justiça de Geoff Johns.
Ainda nos Novos 52, a saga intitulada no Brasil de “Dura Verdade” e “Verdade sombria”, Clark perde parte de seus poderes, se tornando uma espécie de vigilante e uma figura pública vulnerável. Depois que o Superman morre e todo o mundo sabe sua identidade, como convencer as pessoas que existe um Clark Kent vivendo normalmente em Metrópolis, e pior, com um Superman vivinho da silva também, e os dois não são a mesma pessoa pois são vistos juntos.
No segundo arco de Action Comics, Jurgens começa a resolver isso, confrontando Superman e o misterioso Clark Kent. Longe da ação desenfreada do início, agora temos o foco em uma trama mais investigativa. Superman conversa com Clark na Fortaleza da Solidão do antigo Superman, nas montanhas do Himalaia e percebe que não há nada errado com ele. Que realmente se tratava de Clark Kent, mas que nunca havia se tornado Superman. Porém, com ele vivo, o Superman não poderia usar sua identidade em Metrópolis.
Como se não bastasse o imbróglio com Clark, a situação da Lois também era bem complicada. Ela se tornou uma super heroína. Após a morte do Superman dos Novos 52, uma energia residual é liberada que concede poderes à Lois Lane e Lana Lang. Lois decide assumir o papel de Superwoman.
No entanto, seus poderes são
instáveis e perigosos e ela sofre uma sobrecarga de energia semelhante à que
matou o Superman, entra em colapso e morre. Uma morte rápida e trágica, mas o
grande público não sabia que Superwoman e Lois Lane eram as mesmas pessoas.
Isso abriu espaço para a Lois, mãe de Jonathan, assumir seu lugar no Planeta
Diário. Lana assume o papel de Superwoman após a morte da Lois dos Novos 52.
No arco seguinte, “Homens de Aço”, Superman vive um dilema. Luthor tenta provar que pode ser um herói, ainda que, com métodos e motivações questionáveis. Luthor é sequestrado por alienígenas que julgam por premonição. Eles preveem que Luthor assumirá o lugar de Darkseid e se tornará um ser pior que o vilão.
Superman então parte para
resgatá-lo, mas ainda com o pé atrás se deve ou não fazer isso. É uma discussão
sobre redenção e confiança, afinal, como confiar em Lex Luthor? Muitos arcos à
frente, essa história de Luthor e Apokolips volta e temos o desfecho dessa “amizade”
entre os dois.
A Action Comics traz histórias interessantes, mas o que atrapalha é a quantidade de artistas diferentes que ilustram as histórias. Temos artistas de qualidade como Doug Manhke e Tyler Kirkham e outros mais questionáveis como Stephen Segovia e Patch Zircher.
Enquanto Jurgens seguia na Action Comics, com foco em Metrópolis e na resolução de problemas vindos da fase Novos 52, na revista Superman estava a dupla Peter J. Tomasi e Patrick Gleason. Os autores apresentaram uma resposta firme, criativa e corajosa para esta fase, colocando o herói no centro de uma narrativa familiar. Gleason contribui significativamente não apenas como roteirista, mas também como artista, oferecendo um traço dinâmico, expressivo e adequado ao tom mais emocional da obra.
A presença de outros desenhistas ao longo da fase traz diversidade estética, com participações de nomes como Sebastián Fiumara e Jorge Jimenez. Em alguns casos, porém, essa alternância prejudica a identidade visual, gerando a sensação de quebra da narrativa, mas grande parte das histórias tem arte de Gleason.
Desde os primeiros arcos, fica
claro que a proposta não é apenas revisitar o Superman tradicional, mas
expandi-lo. Principalmente colocando o filho, Jon Kent no papel central, uma
criança de dez anos que muitas vezes divide o protagonismo com o pai.
Impulsivo, curioso e essencialmente bondoso. Aqui, a família vai morar em
Hamilton, uma cidade ao norte do estado de Nova York, assumindo a
identidade: Smith. Diferente da fase Lois e Clark, onde eles moravam na
California com a identidade: White.
O primeiro arco “O filho do
Superman” estabelece bem como será o Superman daqui pra frente. Jon começa a
manifestar seus poderes de forma instável e perigosa e Clark tenta ensiná-lo a
controlar sua força. Aqui, o vilão é o Erradicador, que questiona a ligação de
Jon com a herança Kryptoniana de Superman, acreditando que Jon deve abandonar
seu lado humano e abraçar apenas seu lado Kryptoniano.
Ao evitar retratar Jon como uma criança perfeita, Tomasi e Gleason constroem um arco de amadurecimento convincente. O garoto erra, enfrenta culpa e questiona se está à altura do símbolo que carrega. Nesse processo, Superman deixa de ser apenas um salvador e se torna também mentor, um pai que ensina pelo exemplo, reforçando valores que a própria narrativa questiona se ainda fazem sentido no mundo contemporâneo. Aqui também é acolhido o cachorro Krypto na família, que vivia na Fortaleza da Solidão isolado.
Se Clark Kent é o símbolo, Lois Lane é o eixo que sustenta essa dinâmica. Jornalista investigativa, mãe e parceira, ela desempenha um papel tão heroico quanto o do próprio Superman, muitas vezes enfrentando perigos sem qualquer poder. A personagem equilibra a vida familiar com sua carreira, além de ser a figura que enxerga simultaneamente o homem e o mito em Clark. É também ela quem mantém a coesão da família, funcionando como ponto de estabilidade em meio ao caos externo.
O segundo arco, “Em nome do pai”,
tem início a ligação entre Jonathan Kent e Damian Wayne, filho do Batman. Jon é
ingênuo, poderoso e de coração puro. Enquanto Damian é bem treinado, arrogante
e estratégico. A relação entre Jon e Damian, no título derivado Super Filhos,
reforça o crescimento de uma amizade, contrastando dois modelos distintos de
criação e visões de mundo.
No arco seguinte, “Multiplicidade”, acontece aqueles momentos de revista de Super Heróis que muda totalmente o foco da história para que os personagens possam interagir com outros personagens da Editora. Clark é puxado para mais uma aventura no Multiverso envolvendo várias versões do Superman, entre eles o Superman presidente, Calvin Ellis.
O vilão Profecia está capturando
Supermans de diferentes Terras, o que faz a Liga da Justiça Encarnada entrar em
ação e convocar o herói para ajudar. Esta história não envolve Jon Kent, sendo
um intervalo na ótima trama familiar que se desenrolava.
Como um passe de mágica (editorial), tudo se resolve
Chegamos finalmente ao arco que
organiza tudo, “Superman Renascido”. É um crossover entre as revistas Superman
de Tomasi/Gleason e Action Comics de Jurgens. A grande jogada é trazer o Mister
Mxyzptlk, em uma abordagem criativa e marcante, que organiza a casa de forma
literalmente mágica.
É o duende da quinta dimensão que
estava por trás do misterioso Clark Kent, e é a partir dele que a realidade é
manipulada resultando em uma fusão das versões do Superman dos Novos 52 com o pré-Ponto
de Ignição, criando uma continuidade unificada.
As memórias são integradas e elementos como os pais de Clark Kent mortos, e o filho Jonathan Kent, são mantidos. O romance do Superman dos Novos 52 com a Mulher Maravilha é apagado, principalmente das lemranças de Diana. Depois vem o arco “Aurora Sombria” onde a família, com a ajuda do Batman descobrem que a cidade de Hamilton não é tão segura quanto eles pensavam.
Com o fim do Clark Kent/Mxyzptlk, e os acontecimentos em Hamilton, a família volta a morar em Metrópolis. Nas edições seguintes Clark descobre quem é o Senhor Oz, uma figura que vinha arquitetando ameaças ao Superman desde o começo da fase Renascimento. É alguém que vai impactar na fase do Superman escrita por Brian Michael Bendis, fazendo algo que os fãs não curtiram tanto. Mas isso é outra história.
Sem Cueca mas com dignidade
Superman carregou por décadas a fama de ser um
personagem difícil de escrever. Poderoso demais, correto demais, previsível
demais, com cueca demais. Críticas recorrentes que desafiam roteiristas a
encontrarem novas camadas para o Homem de Aço.
Assim, o Superman apresentado em Renascimento é a versão que viveu histórias marcantes, agora inseridas em um universo reconfigurado. Ao priorizar a dimensão humana do herói e explorar sua vida como pai, a série reforça a ideia de que não existem personagens “chatos”, mas sim abordagens pouco inspiradas.
Ao final, o saldo é positivo.
Trata-se de uma fase que, embora não apresente narrativas boas do início ao
fim, compensa com momentos marcantes, boas caracterizações e uma proposta clara
de renovação. Para novos leitores, funciona como porta de entrada para o
Superman que lemos hoje, um grande sucesso, diga-se de passagem, angariando cada
vez mais fãs. E para veteranos, uma nova fase do herói clássico que amavam
acompanhar, com uma nuance incrível que é o lado familiar e humano muito bem
explorados.
Em um mercado frequentemente marcado por tons mais cínicos, a aposta em um Superman otimista e humano se mostrou não apenas uma escolha criativa e um posicionamento editorial, mas um lembrete de que, mesmo após décadas de histórias, ainda há espaço para redescobrir o significado de ser Superman.
Essa fase deu origem à série Superman
& Lois (2021) que teve quatro temporadas. Aqui, o mesmo conceito de um
Superman e Lois vivendo em uma cidade pequena, dessa vez Smallville, para criar
seus dois filhos, Jonathan e Jordan.






































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