Ao desenhar Chadwick Boseman como Yasuke, em 2020, o quadrinista Isaac Santos não imaginava que aquela ilustração daria origem a uma HQ brasileira, sobre o africano que entrou para a história do Japão como o primeiro samurai negro. Criada para a maratona Afropower, a arte chamou a atenção da editora Skript, que publicou a obra.
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| Chadwick Boseman como Yasuke, arte de Isaac Santos. |
A inspiração vinha de um encontro que o cinema havia prometido: Boseman, consagrado como o Pantera Negra da Marvel, foi anunciado em 2019 como protagonista de um filme sobre Yasuke. O ator veio a falecer em agosto de 2020 sem concretizar o projeto, mas sua imagem permaneceu como uma das referências para a interpretação de Santos.
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| Yasuke (2021) - Netflix |
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| Assassin’s Creed Shadows, lançado em 2025 |
Nos anos seguintes, Yasuke conquistaria novos espaços na cultura popular, protagonizando uma animação pela Netflix em 2021 e aparecendo como um dos personagens jogáveis de Assassin’s Creed Shadows, lançado em 2025. No Brasil, sua trajetória também chegou ao Sambódromo do Anhembi, onde inspirou o enredo que levou a Mocidade Alegre ao título do Carnaval de São Paulo de 2023.
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| Mocidade Alegre, campeã do Carnaval Paulista de 2023 |
A HQ de Santos ganhou forma com
roteiro, desenhos, cores e capa assinados pelo próprio artista. Viabilizada por
uma campanha pelo Catarse em 2021, a publicação da Skript reúne 156 páginas
coloridas em formato 16 x 23 centímetros.
O desafio de contar essa história
começa justamente pelo pouco que se sabe sobre seu protagonista. Yasuke chegou
ao Japão em 1579, acompanhando o jesuíta italiano Alessandro Valignano, mas seu
local de nascimento e boa parte de sua vida anterior permanecem desconhecidos.
Na versão de Santos, é utilizada a origem de alguns estudiosos, como as
crônicas do jesuíta francês François Solier, de que Yasuke seja originário de
Moçambique, país africano que tem o português como língua oficial.
Em 1581, Valignano visita Oda Nobunaga colocando Yasuke diante de um dos homens mais poderosos do Japão. Encarregado de supervisionar as missões jesuítas, o religioso procurava fortalecer a presença católica no país e manter boas relações com as autoridades, em um período marcado por disputas entre senhores feudais e pelas campanhas de unificação do território.
Segundo os relatos da época,
Nobunaga ficou tão intrigado com a aparência de Yasuke que mandou lavar sua
pele, imaginando que a cor pudesse ser resultado de tinta, episódio que Santos
incorpora à HQ. O africano acabou sendo convidado a integrar como um guerreiro
a serviço do senhor feudal, recebendo sustento, residência e privilégios. Uma
ascensão que está na origem de sua identificação como samurai.
Seu porte físico impressionou os
japoneses, e segundo as memórias de Nobunaga, Yasuke seria um homem com cerca
de 27 anos e mais forte do que dez homens. Isaac retrata um evento onde Yasuke
luta sumô com diversos adversários, incluindo o próprio Nobunaga.
Yasuke e Nobunaga compartilhavam experiências
de suas culturas. Yasuke conta como os portugueses chegaram e exploraram seu
país, o separando de sua família. Além de ajudar Nobunaga a manusear armas de
fogo que chegavam ao Japão na época.
Santos mostra como Yasuke era
presente ao lado de Nobunaga, presenciando tentativas de assassinato do senhor
feudal, reuniões importantes de governo e até mesmo em batalhas campais,
vestido com armadura completa de samurai.
Essa convivência seria
interrompida em junho de 1582, quando Akechi Mitsuhide se rebelou contra
Nobunaga e atacou o templo Honnō-ji, em Kyoto. O episódio terminou com a morte
do senhor feudal, que tiraria sua vida cometendo seppuku, o suicídio ritual
associado à tradição guerreira japonesa. Yasuke sobreviveu e voltou a combater
ao lado das forças de Oda Nobutada, filho de Nobunaga, antes de ser capturado
e, segundo os relatos disponíveis, encaminhado aos jesuítas. Depois disso, seu
destino permanece desconhecido.
Essas lacunas oferecem espaço para a ficção histórica da HQ. Santos trabalha com versões como a de que o nome Yasuke teria surgido da dificuldade de Nobunaga em pronunciar “Yassuf”, seu nome original. Além da possibilidade de o guerreiro ter levado a cabeça de seu senhor após a morte. São elementos da construção narrativa, que não devem ser confundidos com acontecimentos historicamente comprovados.
Encontrar esse equilíbrio também
significou mudar o rumo do projeto. Segundo o quadrinista, a primeira versão se
concentrava tanto na história do Japão que o protagonista acabava perdendo
espaço, o que o levou a descartar cerca de 60 páginas de roteiro e começar
novamente, dessa vez procurando dar mais presença e personalidade ao homem por
trás da figura histórica.
Para construir seu Yasuke, Santos recorreu à imagem de Boseman, a homens negros de seu convívio e à própria experiência, trazendo para o centro da narrativa questões como reconhecimento e pertencimento entre culturas extremamente diferentes. A pesquisa histórica se combina, assim, com uma perspectiva pessoal, pela qual o autor procura imaginar como esse personagem poderia se sentir e interpretar o Japão daquela época.
Em sua arte, Santos combina
recursos tradicionais e digitais buscando misturar seu lápis à aquarela. O
cuidado com a ambientação aparece nos cenários, nas vestimentas e na composição
das cenas de ação, que estão entre os grandes atrativos da obra. As referências
passam pelo cinema de Akira Kurosawa e pela atmosfera musical da animação Samurai
Champloo, onde a trilha sonora é do saudoso DJ japonês Nujabes.
Ao se concentrar apenas em
Yasuke, porém, a edição deixa uma lacuna: falta um texto introdutório que situe
o leitor pouco familiarizado com o período. Uma apresentação da organização
política do Japão, dos conflitos entre clãs e do papel dos samurais ajudaria a
dimensionar os acontecimentos e a compreender a importância da presença de um
samurai negro naquele contexto.
Distribuída em quatro capítulos,
a HQ reúne os principais acontecimentos conhecidos da passagem de Yasuke pelo
Japão e os articula à interpretação do autor. O resultado impressiona pela
qualidade dos desenhos e pela maneira como Santos aproxima seu interesse pela
cultura japonesa de questões ligadas à experiência negra, construindo um
protagonista com o qual o leitor pode estabelecer uma relação para além da
curiosidade histórica.






















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