Lady Snowblood e um acerto de contas extremamente violento

Leonardo Fraga
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Ao abrir as portas para o jardim japonês coberto de neve do restaurante Casa das Folhas Azuis, a Noiva, interpretada por Uma Thurman enfrenta a assassina O-Ren Ishii, interpretada por Lucy Liu. Trajada com um quimono branco, a assassina na neve retira as sandálias e dá-se início a uma das batalhas mais impactantes do cinema. Porém o clímax de Kill Bill Vol.1 nada mais é do que uma homenagem ao clássico japonês Lady Snowblood (1973), de Toshiya Fujita.


O-Ren Ishii (Lucy Liu) em Kill Bill Vol.1 (2003).


O duelo se encerra com a música “Shura no Hana” (Flor do Massacre), da incrível Meiko Kaji, atriz e cantora que interpretou a protagonista Yuki em Lady Snowblood. Através de Quentin Tarantino, conheci a inspiração original dirigida por Fujita, mas foi com o material original, o mangá de Kazuo Koike (Lobo Solitário) com desenhos de Kazuo Kanimura, que me fascinei pela história de vingança da Assassina da Neve.


Yuki (Meiko Kaji) em Lady Snowblood (1973).


No mangá, a trajetória de Yuki ganha espaço para explorar os ambientes, as relações e as contradições de um Japão em transformação. Publicada originalmente entre 1972 e 1973, a obra chegou ao Brasil pela Conrad como Yuki - Vingança na Neve, entre 2006 e 2007, e ganhou uma republicação a partir de 2021 pela Panini, em quatro volumes com 288 páginas cada intitulado Lady Snowblood - Uma História de Vingança, com tradução de Drik Sada.




Durante uma nevasca, nasce uma criança na prisão. Antes mesmo de conhecer o mundo, seu destino já está traçado: vingar os crimes cometidos contra sua mãe, Sayo.

Após ter o marido e o filho assassinados por Tokuichi Shouei, Okono Kitahama, Gishiro Tsukamoto e Banzo Takemura, Sayo é sequestrada e submetida à violência sexual pelo grupo. Ela consegue matar Tokuichi, mas é condenada à prisão perpétua. Sem poder alcançar os demais responsáveis, decide gerar uma criança ainda na prisão, que leve adiante sua vingança para além dos muros daquele lugar.







Sayo morre após dar à luz Yuki, deixando à filha uma missão que ela nem pôde escolher. Adotada por uma companheira de cela da mãe, a menina é entregue ainda na infância a um sacerdote budista, que a submete a um rigoroso treinamento. Vinte anos depois, hábil no combate e no manejo de uma espada escondida na sombrinha, Yuki parte em busca dos culpados, no Japão do final do século XIX, durante a era Meiji.




Belíssima, inteligente, hábil e fria como a neve, Yuki domina o centro da narrativa. Ao trabalhar como assassina de aluguel enquanto procura os responsáveis pela tragédia de sua mãe, Yuki atravessa histórias de exploração sexual, chantagem, corrupção e disputas por dinheiro, ampliando o alcance do mangá para além da vingança familiar. Cada serviço permite conhecer um pedaço daquele mundo, assim como os mecanismos que garantem poder a algumas pessoas e deixam outras sem possibilidade de defesa.





Koike evita construir uma protagonista cuja competência resolva tudo automaticamente, pois Yuki precisa observar, planejar, aprender e adaptar suas estratégias às pessoas que enfrenta. Sua frieza impressiona, mas é a inteligência que transforma muitos confrontos em algo mais interessante do que uma simples demonstração de superioridade física.




O primeiro capítulo já apresenta essa característica quando Yuki entra em um local clandestino de jogo para cumprir um contrato de assassinato e manipula a situação até ser descoberta trapaceando. A aparente perda de controle, que a deixa despida e cercada por homens violentos, faz parte de uma sequência em que a vulnerabilidade se converte em oportunidade para atingir o alvo.





Essa capacidade de adaptação aparece com clareza em sua relação com Kiku, uma ladra que conheceu sua mãe na prisão e lhe ensina a bater carteiras, oferecendo tanto uma habilidade quanto uma ligação com o passado. Outro aliado importante é Matsuemon, líder de um grupo de pessoas que vivem nas ruas, e que a rede de contatos dele se torna fundamental para localizar os indivíduos que Yuki busca para cumprir sua vingança.




O mangá trabalha de forma não linear e episódica. A passagem pela história de sua mãe aparece somente no terceiro capítulo, por exemplo.

Os desenhos de Kamimura captam muito bem a personalidade de Yuki, com um olhar que não se abala, a personagem fisga o leitor que acompanha cada movimento seu com atenção. Além de construir belos cenários, cenas de ação, coadjuvantes marcantes e explorar a sensualidade e erotismo quando necessários. A vingança de Yuki não mede esforços nem escrúpulos. Ela vai às últimas consequências para consumar seus assassinatos, até mesmo flertar e se deitar com suas vítimas, e tudo é mostrando de forma explícita no mangá.





Há muitos quadros onde a narrativa acompanha apenas os desenhos. Pouco texto e uma linguagem visual rica sem depender de explicações. A riqueza do preto e branco, especialmente ao retratar a neve em meio ao preto profundo, oferece enquadramentos impactantes nas cenas.






O primeiro grande acerto de contas é com Okono Kitahama. Yuki explora sua cobiça, envolve-a em uma armadilha financeira e a incrimina por assassinato. Em vez de executá-la, faz com que termine presa, retirando dela a riqueza e a liberdade.





Para encontrar os alvos restantes, Yuki busca a ajuda do escritor Miyanara, que publica sua história com a intenção de provocar uma reação dos procurados. A relação entre os dois se transforma ao longo do caminho: ele passa a tratá-la como uma filha e arrisca a própria vida para ajudá-la. Gishiro Tsukamoto acaba fazendo do escritor um refém, mas Yuki consegue surpreender o criminoso disfarçada de uma mulher idosa e o mata.





A vingança final apresenta uma situação dolorosa. Yuki vai atrás de Banzo Takemura, doente, Banzo deve para a Yakuza e sua filha, Kobue tenta sustentar a casa e pagar a dívida de seu pai se prostituindo. Mas sem revelar ao pai como consegue o dinheiro, Kobue finge que o dinheiro vem da produção de cestos de bambu, mas ao final do dia os joga no mar.





Ao presenciar a cena, Yuki se sensibiliza com a jovem ao encontrar alguém inocente que também organizou a própria vida em torno de uma obrigação familiar, embora esteja ligada ao homem que ela veio executar. Ao cumprir sua vingança, Yuki procura impedir que Kobue seja vendida para a prostituição e para ocultar sua participação e proteger a moça, diz que o pai se suicidou.





Ao longo da jornada, o mangá combina vingança, exploração feminina e crítica às relações de poder. Seu conflito central está na própria Yuki: uma mulher extraordinariamente capaz, mas que a liberdade permanece condicionada à vontade de uma mãe que ela nunca chegou a conhecer. O leitor compartilha seu desejo de vingança e acompanha cada acerto de contas com expectativa, e ao final dela, como Yuki, é possível sentir o vazio de realizar algo por muito tempo e que não trouxe nada de bom.






A determinação de Yuki fascina, mas seus métodos e a maneira como a narrativa trata algumas vítimas tornam sua jornada moralmente desconfortável. O erotismo é frequente e, por vezes, incômodo. Enquanto Yuki recorre à sedução para atingir seus objetivos, outras personagens são submetidas à exploração, à chantagem e à violência sexual. Ao mesmo tempo que coloca uma mulher forte no centro da ação, o mangá usa o corpo feminino como apelo visual, oscilando entre a objetificação e sua reprodução para atrair o leitor.





Isso tem uma explicação. Lady Snowblood foi publicado originalmente na revista adulta Weekly Playboy e Koike propositalmente desafiou os limites morais e sociais do gênero. A obra é um Ero-Guro-Nansensu, que traz violência, erotismo extremo e nonsense. É 50% sexo e 50% violência, o que gerou muitos debates na sociedade japonesa da década de 1970. Para o público da época, ver uma mulher despida de qualquer instinto maternal, doçura ou romance, agindo puramente como um "demônio” foi um choque cultural.


Weekly Playboy onde foi publicada originalmente Lady Snowblood.






Mesmo com as polêmicas, a obra foi um sucesso ganhando uma adaptação para o cinema de 1973 que reorganiza os acontecimentos e conduz a personagem a um desfecho diferente do mangá. A continuação, Lady Snowblood 2: Love Song of Vengeance, lançada em 1974, amplia o componente político ao colocá-la diante de uma missão ligada ao governo após ser presa. Com Meiko Kaji novamente no papel e Fujita na direção, esta é uma história original que não foi abordada no mangá.


Lady Snowblood Ressurrection Chapter. Inédito no Brasil.




De novembro de 1973 a junho de 1974, o mangá ganhou uma continuação, republicada em 2006 com o título Lady Snowblood: Ressurrection Chapter. Esta história não tem relação com o filme Lady Snowblood 2. No mangá, ainda inédito no Brasil, Yuki continua a cruzar caminhos com figuras corrompidas, espionagem política e o peso de sua vida violenta.










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