Mariko e a influência de Shōgun em Wolverine

Leonardo Fraga
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Publicado em 1975, Shōgun, de James Clavell, um calhamaço de mais de mil páginas começa sua narrativa em 1600, quando o navegador inglês John Blackthorne chega ao Japão e precisa sobreviver em uma sociedade cuja língua, hierarquia e costumes desconhece por completo.

Acompanhamos também a ascensão de Yoshii Toranaga. Após a morte do Taikō, o Japão passa a ser governado por um conselho de cinco regentes até que seu herdeiro atinja a maioridade. Entre eles está Toranaga, senhor da região de Kantō, que enfrenta os outros quatro em uma disputa pelo controle do país. Estrategista habilidoso, ele articula alianças e manobras políticas para sobreviver às intrigas de seus rivais e ampliar seu poder, tudo para se tornar o novo Xogum.

Hiroyuki Sanada como lorde Toranaga na série Shōgun da FX.

O livro permaneceu por mais de 30 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times. O impacto cultural da obra foi enorme e ajudou a despertar o interesse ocidental pela história japonesa. Naquele mesmo ano, chegava às bancas Giant-Size X-Men #1, a HQ que apresentou uma nova formação da equipe mutante da Marvel. Ao lado de Tempestade, Colossus, Pássaro Trovejante, Noturno, entre outros, estava Wolverine, o baixinho invocado criado por Len Wein e John Romita Sr., que havia surgido no ano anterior como um adversário nas histórias do Hulk.

Apesar do bom início da nova equipe, Chris Claremont (que assumira os roteiros da série regular) e o desenhista Dave Cockrum (que já declarou não gostar de Wolverine) não viam muito potencial no personagem. Bruto e pouco carismático em comparação aos outros, chegou a ter sua permanência no grupo questionada pelos autores. Foi com a chegada do desenhista John Byrne, canadense como Logan, que aquele integrante até então pouco desenvolvido começou a ganhar novas camadas.

John Byrne


Ao colaborar nos roteiros, Byrne ajudou a construir o passado misterioso e a personalidade complexa que se tornariam marcas do personagem. Nesse processo, a aproximação com a cultura japonesa abriu caminho para explorar uma característica fundamental em Wolverine: o conflito entre seus impulsos violentos e a busca por um código de honra.

É nesse ponto que a obra de Clavell entra na história. Em entrevista à revista Back Issue nº 4, em 2004, Byrne revelou ter “roubado na cara dura” a personagem Mariko de Shōgun. Ele havia acabado de ler o romance, que Claremont ainda não conhecia, e queria aproveitar aquela inspiração nos quadrinhos.

Anna Sawai como lady Toda Mariko na série Shōgun da FX.


Lady Toda Mariko é uma das figuras centrais de Shōgun. Em torno dela se articulam alguns dos conflitos mais profundos do livro: o choque entre desejo e dever, fé e lealdade, além da busca por autonomia em uma sociedade que restringe suas escolhas. Integrante da nobreza japonesa, ela atua como intérprete de Blackthorne e o ajuda a compreender o mundo ao qual acaba de chegar. Sua posição entre essas duas culturas, porém, não apaga seus próprios interesses e compromissos.


Nos quadrinhos, Mariko Yashida é filha de Shingen, líder do Clã Yashida, ligado à Yakuza, a máfia japonesa. Também é meio-irmã do Samurai de Prata e prima de Shiro Yashida, o mutante Solaris, que chegou a integrar os X-Men durante a reformulação.

Os Fabulosos X-Men: Edição Definitiva nº 6, primeiro encontro de Logan e Mariko.


Ela e Logan se conhecem em Uncanny X-Men #118, história reunida no Brasil em Os Fabulosos X-Men: Edição Definitiva nº 6. Ao retornar de uma viagem à Terra Selvagem, os X-Men vão ao Japão enfrentar o terrorista Moses Magnum. Em uma pausa no conflito, Wolverine encontra Mariko e se encanta pela jovem.


É também nessa história que Ciclope descobre que o companheiro fala japonês, um pequeno detalhe que revela o quanto Logan ainda era um desconhecido até mesmo dentro da própria equipe.

Mariko personificava elegância e nobreza. O encontro deu início a um romance construído aos poucos, entre momentos de ternura, obrigações familiares e correspondências trocadas à distância. Com ela, Wolverine passou a demonstrar uma delicadeza que parecia incompatível com sua imagem de máquina de matar. Mais do que acrescentar um interesse amoroso à trajetória do herói, essa relação permitiu ao leitor enxergar um homem capaz de afeto, vulnerabilidade e respeito.


Após a saída de Byrne, Claremont continuou a desenvolver Logan como uma espécie de “samurai fracassado”, explorando dilemas próximos aos do cinema de Akira Kurosawa. Assim como o guerreiro sem mestre interpretado por Toshiro Mifune em Yojimbo (1961), Wolverine é cínico e áspero por fora, mas guiado por um código ético que resiste à brutalidade do mundo ao redor.


Toshiro Mifune em Yojimbo (1961).
Toshiro Mifune como Toranaga e Yoko Shimada como Mariko na série de televisão Shōgun de 1980. 


Suas garras, como as espadas dos samurais, representam tanto uma arma quanto um fardo. A disposição de aceitar a dor para proteger os mais fracos também aproxima o personagem de temas presentes em Os Sete Samurais (1954). A presença de Mifune nos filmes de Kurosawa oferece, ainda, uma referência para essa imponência: a de um guerreiro capaz de exigir respeito antes mesmo de desembainhar a espada ou, no caso de Logan, de mostrar as garras.



O romance com Mariko ganha novos contornos na minissérie de Claremont e Frank Miller conhecida no Brasil como Eu, Wolverine (1982). Ao descobrir que suas cartas foram devolvidas sem sequer serem abertas, Logan viaja ao Japão em busca de uma explicação. Lá, encontra a mulher que ama presa a uma união abusiva, imposta pelo pai em nome das dívidas e da honra do Clã Yashida.



Ciente da paixão entre os dois, Shingen desafia Logan para um duelo com espadas de madeira. Envenenado pela assassina Yukio a mando de Shingen, Wolverine é derrotado e humilhado diante de Mariko. O confronto atinge justamente a imagem que ele gostaria de preservar aos olhos dela: a de um homem digno, capaz de controlar a própria violência.



Logan acaba enfrentando Shingen novamente e o vence. Com a possibilidade de finalmente ficarem juntos, ele e Mariko decidem se casar. A felicidade, porém, dura pouco: sob a influência do Mestre Mental, ela o abandona no altar. Mesmo depois de se libertar desse controle, Mariko entende que suas responsabilidades à frente do Clã Yashida a impedem de retomar os planos de casamento.



O vínculo entre os dois, entretanto, permanece. Quando Wolverine resgata a pequena Amiko de um desabamento, ele a deixa aos cuidados de Mariko, que a acolhe como parte da família Yashida, se tornando uma espécie de filha adotiva dos dois. A história foi publicada em Uncanny X-Men #181, no Brasil em A Saga dos X-Men nº 3.


A trajetória de Mariko Yashida apresenta paralelos claros com a de Mariko em Shōgun: ambas vivem casamentos abusivos, amam um estrangeiro e carregam o peso da história de suas famílias. No romance de Clavell, Mariko sofre com a violência de Buntaro e encontra em Blackthorne a possibilidade de outro amor, mas permanece comprometida com seus deveres. Sua morte em Osaka, durante uma missão a serviço de Toranaga, tem consequências políticas decisivas.

Cosmo Jarvis como John Blackthorne na série Shōgun da FX.


Nos quadrinhos, o vínculo de Mariko com o Clã Yashida também a envolve em conflitos que terminam de forma trágica. Na fase escrita por Larry Hama, em Wolverine #57 (no Brasil em A Saga do Wolverine nº 5). Vítima de uma armadilha de um de seus rivais, Mariko é envenenada e, diante de uma morte lenta e dolorosa, implora para que Logan encerre seu sofrimento. O gesto impõe ao personagem uma de suas perdas mais cruéis: usar as próprias garras contra a mulher que ama, a pedido dela.


Embora Mariko volte a aparecer em outras histórias, esse desfecho permanece como um dos momentos decisivos da relação. Sua morte deixa uma marca profunda em Wolverine e seu luto é brilhantemente mostrado na obra Wolverine: Netsuke (2003, Panini Comics), escrita e pintada por George Pratt.


Na obra, o espírito de Mariko conduz Wolverine de volta à propriedade dos Yashida. A jornada mistura combates, aparições e deslocamentos no tempo. O sentido da história é que Wolverine compreenda que deixá-la partir não exige apagá-la de sua memória, mas sim transformar a maneira como ele carregará esse amor dentro de si.


A relação mais rica entre as duas Marikos está justamente na dificuldade de conciliar o amor com o direito de decidir o próprio destino. Blackthorne e Wolverine desejam romper os obstáculos que cercam as mulheres que amam, mas enfrentam conflitos que a força física não resolve. Para ambos, amar também exige reconhecer que elas têm sua própria ideia de uma vida digna, mesmo quando essa ideia contraria o futuro desejado pelo casal.


Mariko chegou a ganhar uma interpretação no filme Wolverine: Imortal (2013), dirigido por James Mangold. Vivida por Tao Okamoto, a personagem recebeu espaço para demonstrar autonomia e complexidade, ampliando sua presença para além do papel de interesse romântico.


Tao Okamoto como Mariko Yashida em Wolverine: Imortal (2013).


Curiosamente, seu pai no longa foi interpretado por Hiroyuki Sanada, que mais tarde assumiria o papel de lorde Toranaga na adaptação de Shōgun produzida pela FX (2024), onde Mariko foi interpretada pela atriz Anna Sawai.


Hiroyuki Sanada em Wolverine: Imortal (2013).


Do romance de Clavell aos quadrinhos dos X-Men, a trajetória de Mariko revela como uma personagem pode atravessar diferentes obras e ganhar novos sentidos. Para Wolverine, ela permanece ligada à possibilidade de uma vida em que a ternura encontre espaço entre a violência e o dever. Para o leitor, deixa uma questão que aproxima as duas histórias: até onde o amor pode ir quando estar junto significa abrir mão do próprio destino?


Nova edição de Shogun lançada pela JBC em 2025.

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