Moby Dick de Bill Sienkiewicz é uma brutal história sobre obsessão

Leonardo Fraga
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Não se deixe enganar pelo fato de esta HQ ter apenas 52 páginas. São páginas densas, intensas e visualmente desconcertantes, capazes de despertar no leitor a mesma obsessão que move este clássico de Herman Melville. Passados mais de 170 anos de sua publicação, Moby Dick continua sendo um daqueles romances que nunca desaparecem. Volta e meia retorna ao imaginário popular, ganha novas interpretações e prova que seus temas permanecem tão atuais quanto no século XIX.

Escrita e desenhada por Bill Sienkiewicz, com roteiro coassinado por Dan Chichester, esta adaptação nos leva novamente a bordo do Pequod para singrar os mares do Oceano Atlântico.






Publicada pela Editora Trem Fantasma em 2022, a HQ já havia chegado ao Brasil em 1990, em formato americano, na coleção Classics Illustrated, da Editora Abril. A nova edição, em capa dura e no generoso formato 21 x 33 cm, faz toda a diferença. O tamanho valoriza o trabalho de Sienkiewicz, que mistura pintura, desenho, colagem e elementos abstratos em páginas que desafiam qualquer padrão tradicional dos quadrinhos.




Essa linguagem visual conversa perfeitamente com a proposta da narrativa. Percebemos que seguimos um fluxo de consciência, uma história contada a partir de um evento traumático, parecendo um sonho, ou melhor, um pesadelo.




Logo nas primeiras páginas isso já fica evidente. Quando Queequeg surge pela primeira vez, envolto pelas sombras, vemos inicialmente apenas sua silhueta. Em seguida, seus estranhos rituais são apresentados em poucos quadros, suficientes para transmitir o impacto que aquele encontro provocou em Ishmael. No romance de mais de 600 páginas, Melville pode dedicar capítulos inteiros para construir esses momentos. Na HQ, Sienkiewicz consegue transmitir a mesma sensação usando quase exclusivamente a força das imagens.




Para quem não sabe nada sobre este clássico, a história acompanha Ishmael, um jovem que embarca no navio baleeiro Pequod em busca de trabalho e aventura. Durante a viagem, ele conhece uma tripulação formada por homens das mais diversas origens e descobre que seu comandante, o capitão Ahab, possui um único objetivo: encontrar Moby Dick, a gigantesca baleia branca que lhe arrancou uma perna anos antes. O que deveria ser apenas mais uma expedição baleeira transforma-se em uma perseguição movida pela vingança, levando toda a tripulação a participar da obsessão de seu capitão em um confronto que coloca frente a frente a ambição humana e a força indomável da natureza.






O romance de Herman Melville é famoso não apenas pela narrativa, mas também pelas longas reflexões sobre religião, filosofia, natureza humana e a própria indústria baleeira. Em pouco mais de cinquenta páginas, Sienkiewicz e Dan Chichester jamais tentam reproduzir toda essa complexidade. Em vez disso, fazem uma escolha muito mais inteligente: capturam a essência da obra.





Nessa versão, Ahab deixa de parecer apenas um homem consumido pela vingança. Ele assume uma presença fantasmagórica que vaga pelo convés pronunciando discursos inflamados aos marinheiros. "Há um só Deus que governa a Terra, e um só Capitão que governa o Pequod. Para o convés!", enquanto a página mostra o óleo de baleia armazenado no navio derretendo até mesmo as bordas dos quadros.





A própria Moby Dick deixa de ser apenas um enorme animal para tornar-se quase uma entidade. Ela representa uma força primordial, impossível de compreender ou controlar, uma presença tão gigantesca que escapa dos limites das páginas da HQ.




Mais do que ilustrar o texto, os desenhos acrescentam significados. Em uma adaptação tão condensada, seria impossível reproduzir toda a riqueza do romance. Em vez de preencher essas lacunas com diálogos expositivos, Sienkiewicz entrega respostas por meio da composição das páginas, das cores, das manchas de tinta e da deformação das figuras. É uma HQ que exige um leitor atento, disposto a interpretar tanto as palavras quanto as imagens.





Essa abordagem não surgiu por acaso. Bill Sienkiewicz iniciou sua carreira desenhando sob forte influência de Neal Adams, mas aos poucos passou a estudar pintura, expressionismo e artes plásticas, afastando-se completamente do estilo predominante dos quadrinhos norte-americanos.


Bill Sienkiewicz

Essa transformação tornou-se evidente em obras como Novos Mutantes, Elektra: Assassina e Demolidor: Amor e Guerra, atingindo em Moby Dick um de seus momentos mais radicais. O artista utilizava colagens, mimeógrafo, fotografias e diferentes materiais para criar texturas inéditas, transformando cada página original em uma verdadeira obra de arte.




Ao invés de tentar recriar o romance de Melville ou resumir seus acontecimentos, Sienkiewicz cria uma obra com identidade própria. O livro original serve como ponto de partida para uma interpretação profundamente autoral. Ao longo das décadas, diversos artistas adaptaram Moby Dick como Christophe Chabouté, Will Eisner, Roy Thomas e tantos outros que produziram versões competentes, algumas excelentes, mas quase sempre preocupadas em representar fielmente o romance.




Sienkiewicz segue pelo caminho oposto. Reorganiza cenas, elimina passagens inteiras, condensa diálogos e aposta na força da linguagem visual para transmitir aquilo que, muitas vezes, as palavras não conseguem expressar.

É por isso que o número de páginas pouco importa aqui. Esta não é apenas mais uma adaptação de um dos maiores romances da literatura mundial, mas a interpretação de um artista que expandiu os limites da linguagem dos quadrinhos. Nas mãos de Bill Sienkiewicz, a caça à baleia branca deixa de ser apenas uma aventura marítima e transforma-se em uma experiência visual hipnótica sobre obsessão, loucura e a incapacidade do ser humano em aceitar aquilo que jamais poderá dominar.





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