Uma Estrela de Algodão Preto é uma poderosa história sobre memória e racismo na Segunda Guerra Mundial

Leonardo Fraga
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Cerca de 1,2 milhão de afro-americanos serviram nas Forças Armadas norte americana durante a Segunda Guerra Mundial. Mas os Estados Unidos ainda era um país regido sob leis segregacionistas. Os soldados lutavam contra o racismo nazista na Europa enquanto conviviam com o racismo institucional dentro do próprio exército americano.





Soldados negros e brancos pertenciam a unidades diferentes, tinham oficiais diferentes, alojamentos separados, refeitórios separados e até bancos de sangue separados. A justificativa oficial era de que a segregação preservaria a “eficiência militar”, mas, na prática, ela apenas reproduzia dentro das Forças Armadas a política racial vigente nos Estados Unidos. Apesar de muitos soldados negros terem lutado, cerca de 2 mil participaram da invasão das praias da Normandia no Dia D, a grande maioria sequer podia ocupar funções de combate. Eram destinados a tarefas de “apoio”, como dirigir caminhões, carregar munição, cozinhar, construir, realizar manutenção e cuidar da logística.

O racismo desperdiçava um enorme contingente de homens treinados justamente quando o Exército precisava desesperadamente de efetivos. Muitos desejavam apenas conquistar o direito de defender seu próprio país, mas o governo americano temia que militares negros retornassem da guerra como heróis nacionais, capazes de reivindicar igualdade de direitos com ainda mais legitimidade. 





É justamente esse contraste que permeia Uma Estrela de Algodão Preto. Logo nas primeiras páginas, o roteirista Yves Sente (Thorgal, Blake & Mortimer) apresenta seus protagonistas cuidando de um batalhão equipado apenas com tanques infláveis, destinados a enganar os nazistas. A missão daqueles soldados nunca foi combater na linha de frente. Não lhes faltavam coragem, treinamento ou disposição para lutar. O único motivo de serem mantidos longe do campo de batalha era a cor de sua pele.





Com desenhos magistrais de Steve Cuzor e cores de Meephe Versaevel, “Uma Estrela de Algodão Preto” foi lançada pela editora portuguesa Ala dos Livros em 2023. Originalmente, a HQ saiu em 2018 pela Dupuis com o título “Cinq branches de coton noir”. Em 192 páginas coloridas e em formato grande, a obra constrói uma história tão bem amarrada que, em vários momentos, o leitor tem a sensação de que aquilo realmente aconteceu.








A trama se desenvolve em duas linhas temporais. A primeira se passa durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos e acompanha a confecção da primeira bandeira do país. A segunda segue Lincoln, um soldado negro que participa da Segunda Guerra Mundial e, apesar de toda a disposição para lutar, é impedido de entrar em combate por causa da segregação racial.




Cuzor se inspira fortemente no cinema americano para construir seus cenários e personagens. Lincoln, por exemplo, tem feições que remetem ao ator Denzel Washington. Conor é claramente inspirado no cantor Sammy Davis Jr., especialmente pelo bigodinho, enquanto Johnson parece carregar traços de um ainda jovem ator, Forest Whitaker. Essas referências não aparecem como simples brincadeiras visuais, mas ajudam a reforçar o tom cinematográfico da obra, que mistura aventura histórica, drama de guerra e denúncia social.






A ligação entre as duas épocas está na estrela de algodão preto mencionada no título. Segundo a ficção criada por Sente, sob uma das estrelas brancas da primeira bandeira americana teria sido costurada secretamente uma estrela preta. O gesto teria sido feito por Angela Brown, empregada doméstica afro-americana de Betsy Ross, a mulher a quem o general George Washington teria pedido que fizesse a primeira bandeira dos Estados Unidos, usada junto à Declaração de Independência em 4 de julho de 1776.








Angela vive dias de angústia ao testemunhar as injustiças cometidas por uma sociedade controlada pelos brancos. A situação passa dos limites quando seus dois irmãos se tornam vítimas de mais uma violência motivada pelo racismo. Como forma de protesto pessoal, ela decide prestar um tributo secreto a toda a comunidade negra que, gostem ou não, também faz parte do então projeto de nação dos Estados Unidos. No entanto, após a vitória americana, a escravidão permanece intacta, transformando aquela esperança inicial em profunda frustração.





Durante a guerra, a bandeira com a estrela preta teria sido perdida, mas acabou resgatada por um mercenário prussiano que lutou ao lado dos ingleses. Ao retornar para casa, ele levou a peça consigo, e a bandeira passou de geração em geração até chegar à última herdeira da família, que se casou com um banqueiro judeu. Com a ascensão do nazismo, seus bens foram confiscados, e a bandeira desapareceu novamente dentro do caos da Europa ocupada.

Ao descobrir a possível localização da bandeira na França, o senador Roger F. Vaughn, da Carolina do Norte, aciona os Monuments Men, grupo especializado em recuperar obras de arte e bens culturais saqueados pelos nazistas. Toda a história da bandeira é descoberta por Johanna Bolton, irmã de Lincoln e estudante de História dos Estados Unidos no St. Augustine's College. Ela encontra o relato de Angela Brown em um diário recebido como herança após a morte de uma tia. Com a ajuda de um professor que tinha contato com o senador, Lincoln e seus amigos são colocados no caminho dos Monuments Men e, ao lado do primeiro-tenente, Frank Perryt, que é branco, partem em busca da bandeira.





A pequena tropa se infiltra na Europa dias após o Dia D e passa a percorrer caminhos junto às tropas americanas até chegar ao seu destino. A missão, porém, está longe de ser simples. Além dos riscos da guerra, eles enfrentam a desconfiança e o desprezo de outras tropas, que não valorizam o objetivo da busca e fazem de tudo para dificultar seu avanço. Em determinado momento, acabam sendo os primeiros a entrar em Paris, antes mesmo da libertação oficial da cidade, apenas para descobrir que a bandeira foi roubada por um comandante de uma divisão de Panzers escondido na Floresta das Ardenas, palco de uma das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial.






Mesmo alternando entre períodos históricos diferentes, a história mantém um ritmo fluido e nunca confunde o leitor. Os capítulos organizam bem as mudanças temporais, permitindo que cada revelação fortaleça a seguinte até o desfecho. É uma leitura longa, mas que se sustenta do início ao fim graças à boa construção dos personagens, ao peso histórico do tema e ao mistério em torno da existência ou não daquela estrela preta escondida sob a bandeira americana que buscam.





Em vez de uma pintura tradicional, a colorização aposta em uma paleta de cores chapadas e monocromáticas, que variam conforme o período histórico ou o ambiente da história. O recurso ajuda a orientar o leitor durante as mudanças de cenário e tempo, embora também seja impressionante apreciar o refinamento do desenho de Cuzor em sua forma original. O artista, já consagrado por trabalhos ligados a séries como XIII, Thorgal e Blake & Mortimer, demonstra aqui uma maturidade visual impressionante.





Outro aspecto fundamental para Steve Cuzor foi abandonar a preocupação excessiva ao detalhismo gráfico. Inspirado por autores clássicos dos quadrinhos americanos, como Alex Toth além de referências europeias como Moebius, ele buscou usar o desenho como ferramenta narrativa, e não como simples demonstração técnica. Em muitos momentos, silhuetas, sombras e enquadramentos substituem detalhes minuciosos para transmitir tristeza, esperança ou solidão.





Sente e Cuzor também compartilham vivências pessoais nos Estados Unidos. Sente estudou no país e ficou marcado pela importância quase sagrada atribuída à bandeira americana. Cuzor, por sua vez, conhece profundamente a cultura norte-americana após viver alguns anos no Texas, onde a presença da bandeira em casas, ruas e instituições é quase onipresente. Foi justamente dessa fascinação pelo simbolismo do estandarte que nasceu a ideia central da HQ.

A proposta nunca foi reescrever a História, mas preencher seus espaços vazios com uma ficção plausível o bastante para fazer o leitor se perguntar onde termina a realidade e onde começa a imaginação. E funciona. “A Segunda Guerra aconteceu da mesma forma, os Aliados venceram e a condição dos negros americanos continuou praticamente a mesma. Apenas inserimos uma história fictícia dentro dos acontecimentos reais”, explica Cuzor. Essa preocupação com a credibilidade aparece em toda a obra: os grandes eventos históricos permanecem intactos, enquanto apenas a lenda da estrela preta é inventada.





Sente também faz questão de lembrar o caso do medalhista olímpico Jesse Owens. Nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, quando o atleta norte-americano conquistou quatro medalhas de ouro nos 100 e 200 metros, salto em distância e revezamento 4x100 tornando-se um dos maiores nomes daqueles Jogos. Além do desempenho extraordinário, Owens, um atleta negro, representou um enorme constrangimento para a narrativa de superioridade racial propagada pelo regime de Adolf Hitler. A ironia é que, ao retornar aos Estados Unidos, não recebeu o reconhecimento esperado: o presidente Franklin D. Roosevelt não o convidou para a Casa Branca, não lhe prestou uma homenagem oficial e sequer enviou um telegrama de congratulações, o ignorando politicamente.




“Uma Estrela de Algodão Preto” se torna muito mais do que uma aventura de guerra ou uma busca por uma relíquia perdida. É uma história sobre memória, apagamento e pertencimento. A estrela escondida sob a bandeira funciona como uma metáfora poderosa para todos aqueles que ajudaram a construir uma nação, mas foram mantidos à margem de sua própria história.

O ressurgimento público de grupos supremacistas nos últimos anos e o aumento das discussões sobre racismo mostram que essa metáfora continua dolorosamente atual. A estrela preta de Angela Brown pode nunca ter existido de verdade, mas representa algo profundamente real: a presença de homens e mulheres negros que estiveram lá desde o início, costurados na História, mesmo quando a História oficial preferiu não enxergá-los.




 

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