E Não Sobrou Nenhum - Dylan Dog mergulha em um mistério clássico de Agatha Christie

Leonardo Fraga
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Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo criado por Tiziano Sclavi, sempre transitou com naturalidade entre o horror sobrenatural e o romance policial. Ao longo de sua trajetória, o personagem já mergulhou diversas vezes em histórias inspiradas nos grandes mestres da literatura de mistério, mas poucas referências são tão evidentes quanto nesta edição. Em Dylan Dog #440, Luca Vanzella presta uma homenagem direta a Agatha Christie, a eterna Rainha do Crime, ao construir uma trama que dialoga desde o título com um de seus romances mais célebres, “E Não Sobrou Nenhum”.



O roteiro marca a estreia de Vanzella na série regular, depois de sua participação no Color Fest #15 com o conto “O Mundo em Meus Olhos”. A arte fica por conta do sempre competente Giorgio Pontrelli, que aproveita a atmosfera clássica da investigação para criar uma narrativa visual elegante, dinâmica e repleta de referências aos personagens e ao universo criado por Christie.




A trama começa com a morte da bilionária Maribel. A família é convocada para a isolada mansão Sorrow com o objetivo de participar da leitura do testamento e dividir a herança. No entanto, quem recebe os herdeiros é justamente Dylan Dog, contratado pela própria Maribel para descobrir quem a matou. A partir daí, a história assume todos os elementos clássicos dos romances de mistério: um grupo de suspeitos confinados em uma única propriedade, segredos familiares, mortes sucessivas e um assassino escondido entre eles.



Pontrelli aproveita esse clima de homenagem para brincar com a aparência de diversos personagens. O tio Archibald, por exemplo, possui os traços de Hercule Poirot, mas com o rosto de Kenneth Branagh, intérprete do famoso detetive nas adaptações cinematográficas mais recentes. 

O desenhista ainda espalha outras referências visuais ao longo da HQ, inspirando as feições de alguns personagens em atores reais como Judi Dench, eternizada como "M" na franquia 007. Bill Nighy, o Davy Jones de “Piratas do Caribe”.  Cobie Smulders, conhecida por viver Robin Scherbatsky em “How I Met Your Mother” e até Arnold Vosloo, o inesquecível Imhotep de “A Múmia”.

Pontrelli até mesmo faz a personagem Maribel lembrar a própria Agatha Christie em alguns momentos, como em um quadro, onde a personagem está de chapéu. Acessório inseparável da escritora.





Agatha Christie



Outro detalhe curioso é a decisão de desenhar Dylan Dog durante toda a aventura usando um elegante terno. Pode parecer uma mudança pequena, mas causa um inevitável estranhamento para quem está acostumado a vê-lo sempre com sua tradicional combinação de jaqueta preta, camisa vermelha e calça jeans.




O clássico "E não sobrou nenhum", de Agatha Christie, foi publicado originalmente no Reino Unido em 1939 .Naquele ano, a obra estreou nas livrarias britânicas com o título original de Ten Little Niggers ("O Caso dos Dez Negrinhos"). Posteriormente, ao ser lançado nos Estados Unidos em 1940, o título foi alterado por razões éticas para And Then There Were None (E não sobrou nenhum). No Brasil, após edições iniciais sob o nome original, a obra passou a ser conhecida amplamente pelo título atual.





A história se passa em uma ilha isolada na costa de Devon. Dez indivíduos são acusados ​​de crimes passados ​​e são mortos um a um, de acordo com os versos de uma rima popular. Christie descreveu o livro como o mais difícil de seus romances para escrever devido à complexidade do enredo e sua resolução, e o considerou uma obra de maior maestria do que qualquer outra que ela havia escrito.




Recorrer à estrutura narrativa de Agatha Christie não é uma novidade dentro da série Dylan Dog. Ainda nos primeiros anos, Tiziano Sclavi já demonstrava essa influência em histórias como ”Jack, o Estripador”, a segunda aventura do personagem, além da clássica dupla formada por “O Castelo do Medo” e “A Dama de Negro”, publicadas nas edições #16 e #17. A homenagem mais explícita, porém, talvez tenha ocorrido em “Dylan Dog Speciale” #6, na história “Sete Almas Condenadas”.




Vanzella segue com bastante fidelidade a escrita de Christie. A primeira parte é dedicada à apresentação dos personagens, da mansão e das relações entre os integrantes da família. Em seguida, os assassinatos começam a acontecer, aumentando a tensão e multiplicando as suspeitas. A revelação final entrega todas as respostas esperadas pelo gênero, mas adiciona um elemento sobrenatural, com toque de terror poltergeist que aproxima a história do universo tradicional de Dylan Dog.




Sua narrativa é deliberadamente lenta e bastante didática, algo que faz parte da própria mecânica dos romances de investigação, nos quais o autor precisa organizar cuidadosamente as pistas antes da grande revelação. Como o leitor reconhece desde o início a estrutura inspirada em Christie, torna-se naturalmente mais difícil surpreender apenas pelo mistério. É justamente nesse ponto que o trabalho de Giorgio Pontrelli faz diferença. Sua narrativa visual é dinâmica, criativa e repleta de soluções de enquadramento que tornam a leitura muito mais envolvente, compensando o ritmo mais cadenciado do roteiro.



Vanzella consegue fazer mais do que simplesmente reproduzir uma fórmula conhecida ao reorganizar os elementos clássicos de Agatha Christie com inteligência e respeito. Felizmente, o desfecho melancólico, amargo e carregado de elementos sobrenaturais devolve a identidade do Investigador do Pesadelo e lembra ao leitor que, por trás da homenagem, continua existindo tudo aquilo que faz de Dylan Dog uma das melhores séries de horror dos quadrinhos.




 

 

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