Cesto de Cabeças mistura slasher, humor e mistério em uma ótima HQ de Joe Hill

Leonardo Fraga
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Stephen King teve diversas obras adaptadas para o cinema, mas poucas chegaram aos quadrinhos. A mais conhecida delas é, sem dúvida, A Torre Negra. Seu filho, Joe Hill, seguiu um caminho diferente. Em vez de apenas ver seus livros adaptados, tornou-se um dos principais roteiristas da indústria, criando obras diretamente para essa mídia, como Locke & Key e A Capa.

O sucesso chamou a atenção da DC Comics, que convidou o autor para comandar a Hill House Comics, selo de terror criado dentro do DC Black Label. A proposta era oferecer liberdade criativa para que Hill desenvolvesse uma linha de minisséries autorais, reunindo também outros nomes do horror contemporâneo. Cesto de Cabeças (Basketful of Heads) foi a obra escolhida para inaugurar o projeto e deixou claro, logo de cara, que Joe Hill já havia conquistado uma identidade própria como roteirista e longe de ser lembrado apenas como o filho de Stephen King.




Publicada no Brasil pela Panini Comics em 2021, a edição reúne as sete partes da minissérie original em um volume de 192 páginas, apresentando uma história completa que posteriormente ganharia continuação em Refrigerador de Cabeças (Refrigerator Full of Heads). O roteiro é assinado por Hill, enquanto a arte fica a cargo do italiano Massimiliano Leonardo, o Leomacs, conhecido por trabalhos em Tex, Mágico Vento e Universo Sandman: Lúcifer. 

As cores são do premiado Dave Stewart, colaborador frequente em títulos como Hellboy e Batman e a edição conta com tradução de Érico Assis. As belíssimas capas tem arte de Reiko Murakami.




A trama se passa em 1983, na fictícia Brody Island, uma pequena comunidade costeira ligada ao continente por uma única ponte. A escolha do cenário está longe de ser casual. Hill recria com precisão a atmosfera dos filmes de verão dos anos 1970 e 1980, especialmente Tubarão, de Steven Spielberg. O próprio nome da ilha homenageia Martin Brody, o chefe de polícia interpretado por Roy Scheider, enquanto diversas referências ao clássico aparecem espalhadas ao longo da narrativa.



É nessa cidade aparentemente tranquila que conhecemos June Branch e seu namorado, Liam. O casal pretende aproveitar os últimos dias do verão enquanto Liam trabalha temporariamente para a polícia local. Os planos, porém, são interrompidos quando quatro criminosos escapam de uma penitenciária próxima justamente na chegada de uma forte tempestade. A ponte é isolada, ninguém entra nem sai da ilha, e o que parecia apenas um fim de semana tranquilo rapidamente se transforma em um pesadelo.




Joe Hill conduz a narrativa como um thriller de suspense recheado de personagens carismáticos, violência gráfica, humor ácido e uma boa dose de mistério. Cada capítulo revela novos segredos e praticamente todos os moradores escondem alguma informação importante, de autoridades locais a empresários influentes. Logo fica claro que a fuga dos criminosos é apenas a ponta de uma conspiração muito maior, envolvendo corrupção, ganância e velhos interesses da comunidade.




 Mas afinal, onde entra o tal Cesto de Cabeças?

 

No centro da história está um misterioso machado viking cuja origem sobrenatural Hill faz questão de não explicar. Basta saber que, sempre que sua lâmina decepa alguém, a cabeça permanece viva, consciente e perfeitamente capaz de conversar. Elas discutem, mentem, fazem confissões e revelam segredos mesmo separadas do corpo. June leva as cabeças decepadas em uma cesta de piquenique para conseguir extrair mais informações delas. A premissa parece absurda, mas o autor transforma essa ideia em um dos elementos mais criativos e divertidos da HQ.



A história prende tanto que desvendar a origem do machado deixa de ser a principal preocupação do leitor. O verdadeiro interesse passa a ser descobrir por que June e Liam acabam envolvidos em uma conspiração e quem realmente manipula os acontecimentos em Brody Island.

As cabeças falantes introduzem um humor inesperado, mas o terror jamais desaparece. Há sangue de sobra, cenas brutais de violência e, naturalmente, muitas decapitações. O resultado lembra um típico slasher dos anos 1980, temperado com suspense policial e pequenas doses de horror psicológico.




Boa parte dessa força vem dos personagens. Brody Island é um cenário convincente, mas quem realmente sustenta a narrativa é June. Ela poderia facilmente cair no estereótipo da jovem indefesa protegida pelo namorado, tão comum nos filmes do gênero. Felizmente acontece justamente o contrário. Inteligente, determinada e estudante de Psicologia, June inicia a história completamente assustada, mas evolui de forma bastante natural conforme as circunstâncias a obrigam a sobreviver.





Ao longo da trama, ela precisa improvisar constantemente, tomar decisões difíceis e aprender a desconfiar de praticamente todos ao seu redor. O mais interessante é que nunca perde sua humanidade. Mesmo depois de matar diversas pessoas usando o machado, continua demonstrando culpa, medo e insegurança. Joe Hill também brinca o tempo todo com a possibilidade de June estar enlouquecendo. Afinal, quando apenas ela parece conversar com cabeças decepadas, o leitor inevitavelmente começa a questionar até que ponto tudo aquilo realmente está acontecendo.




Ah, as cabeças. Elas conversam entre si, brigam uma com as outras, mentem, manipulam June e revelam segredos. É um recurso narrativo brilhante especialmente porque ao morrer, geralmente um personagem deixa a história. Aqui não, a morte faz com que participem ainda mais da narrativa e a cada nova cabeça adicionada à cesta, uma nova peça do quebra-cabeças é acrescentada.




Liam, auxiliar do xerife durante o verão, desaparece logo no início da trama e acaba motivando praticamente todas as decisões da protagonista. Já o xerife Branigan transmite inicialmente a imagem de uma autoridade íntegra e confiável, mas aos poucos revela conhecer muito mais sobre os acontecimentos da ilha do que deixa transparecer. É o típico representante das pequenas cidades americanas onde décadas de convivência acabam confundindo amizade, poder e corrupção.




Os quatro fugitivos também surpreendem. Em vez de funcionarem apenas como assassinos genéricos, cada um possui personalidade própria, objetivos distintos e maneiras diferentes de reagir aos acontecimentos. Aos poucos, deixam de ser os grandes antagonistas para revelar que existem pessoas muito mais perigosas escondidas entre os moradores da ilha.

Em Cesta de Cabeças, o verdadeiro perigo é a corrupção instalada em Brody Island. As cabeças decepadas acabam funcionando quase como uma metáfora: depois que não se tem nada a perder, todos revelam quem realmente são.




Leomacs entrega uma arte que dialoga perfeitamente com o roteiro. Seu traço não busca o realismo absoluto, preferindo uma estética que remete às pequenas cidades do interior dos Estados Unidos. Conforme o horror cresce, esse ambiente inicialmente acolhedor torna-se cada vez mais inquietante. A narrativa visual é dinâmica, os personagens são extremamente expressivos e as cenas de ação tem excelente ritmo. As cores de Dave Stewart completam o conjunto ao alternar momentos sombrios com sequências quase cartunescas, sem jamais comprometer a atmosfera da história.




Outra preciosidade dessa obra é pescar referências que Hill vai deixando em homenagem ao seu pai. Entre elas estão a prisão de Shawshank (Um Sonho de Liberdade), o condado de Derry (It: A Coisa) e pequenas citações espalhadas ao longo da narrativa que certamente serão percebidas pelos leitores mais atentos.



Joe Hill demonstra que o terror não precisa depender exclusivamente de sustos ou atmosferas sufocantes para funcionar. Ao misturar slasher, suspense policial, humor ácido, fantasia sobrenatural e personagens surpreendentemente humanos, ele constrói uma narrativa que prende o leitor do começo ao fim sem abrir mão da diversão. Mais do que uma sequência de decapitações criativas, Cesto de Cabeças é um thriller inteligente, cheio de reviravoltas e referências à cultura pop, que sabe equilibrar tensão e entretenimento como poucas HQs do gênero.


Joe Hill saiu da DC e encerrou a Hill House Comics em 2022 para se dedicar mais à sua literatura. Foram publicadas seis minisséries pelo selo.



 

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