Assassinato no Expresso Oriente: Mistério de Agatha Christie é leitura perfeita para o inverno

Leonardo Fraga
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Poucos romances policiais alcançaram o status de clássico absoluto como ”Assassinato no Expresso Oriente”, de Agatha Christie. Publicado originalmente em 1934, o livro permanece como uma das obras mais famosas da escritora britânica, conhecida mundialmente como a Rainha do Crime.




Quase um século depois, a história continua conquistando novos leitores, inclusive por meio de adaptações como a versão em quadrinhos produzida pelo roteirista alemão Benjamin von Eckartsberg e pelo desenhista chinês Tsai Chaiko, publicada no Brasil pela L&PM com tradução de Alexandre Boide.




A trama acompanha o lendário detetive belga Hercule Poirot, dono de um raciocínio brilhante e de um dos bigodes mais famosos da literatura. Em viagem por Istambul, ele precisa retornar à Europa Ocidental e consegue, graças à ajuda de seu amigo Monsieur Bouc, diretor da Companhia Internacional de Wagons-Lits, uma vaga de última hora no luxuoso Expresso Oriente, que segue rumo a Calais, no norte da França.




A viagem, porém, toma um rumo inesperado. Durante uma noite marcada por uma forte nevasca que interrompe o trajeto do trem, um dos passageiros é encontrado morto dentro de sua cabine. Diante da situação delicada, Bouc pede a Poirot que assuma a investigação. Resolver o caso antes da chegada ao destino evitaria não apenas transtornos para os passageiros, mas também uma enorme exposição negativa para um dos trens mais famosos do mundo.





O cenário é parte fundamental do encanto da obra. A neve que cobre a paisagem, o frio intenso do lado de fora e o isolamento provocado pela tempestade transformam o Expresso Oriente em um mundo à parte. Enquanto o inverno domina o exterior, os passageiros permanecem protegidos nos vagões aquecidos, desfrutando de refeições quentes e do conforto proporcionado por uma das viagens ferroviárias mais luxuosas da época. Não por acaso, “Assassinato no Expresso Oriente” é uma leitura que combina perfeitamente com os meses mais frios do ano.





Christie constrói uma investigação exemplar. Cada depoimento, cada detalhe aparentemente banal e cada pista apresentada ao leitor desempenham um papel importante na resolução do mistério. É um dos grandes trunfos da narrativa de Agatha ao fazer com que o próprio leitor investigue junto ao detetive e chegue às suas próprias conclusões, antes do veredito final. Não é exagero dizer que dá vontade de manter um bloco de anotações ao lado para tentar solucionar o crime antes de Poirot.





Boa parte da força da história está justamente em sua estrutura. Diferentemente de muitos romances policiais modernos, que apostam em reviravoltas constantes ou violência explícita, “Assassinato no Expresso Oriente” conquista pela lógica. O prazer está em observar Poirot reunir informações, confrontar versões contraditórias e montar, peça por peça, um quebra-cabeça que parece impossível de resolver.




A adaptação de Benjamin von Eckartsberg demonstra grande respeito pelo material original. O roteiro preserva os momentos fundamentais da investigação e consegue condensar a narrativa sem sacrificar a complexidade do mistério. Já a arte de Tsai Chaiko é um dos grandes destaques da edição. Seus personagens possuem fisionomias marcantes e facilmente identificáveis, algo essencial em uma história com tantos personagens. Isso facilita o acompanhamento dos interrogatórios e ajuda o leitor a não se perder entre os diversos passageiros do trem.




O quadrinho, publicado pela LP&M em 2022 peca apenas pelo tamanho, pouco maior que um formatinho. Embora o tamanho reduzido funcione bem graças aos balões legíveis e à boa reprodução gráfica, a riqueza dos desenhos de Chaiko talvez fosse ainda mais valorizada em um formato europeu maior. Ainda assim, trata-se de um detalhe que não compromete a experiência de leitura".




Mais de noventa anos após sua publicação original, “Assassinato no Expresso Oriente” continua sendo uma referência para o gênero policial. E esta adaptação em quadrinhos prova que o mistério criado por Agatha Christie permanece tão envolvente quanto na primeira vez em que os passageiros daquele trem ficaram presos na neve diante de um crime aparentemente impossível de solucionar.

Talvez seja justamente essa mistura de suspense e conforto que mantém a obra tão atual: um quebra-cabeça brilhante cercado por paisagens geladas, refeições quentes e a sensação de estar seguro dentro de um vagão enquanto o inverno avança lá fora.




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