É Solitário no Centro da Terra: Zoe Thorogood lida com depressão e síndrome do impostor

Leonardo Fraga
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Poucos quadrinhos recentes conseguiram expor a saúde mental com tanta honestidade quanto É Solitário no Centro da Terra, de Zoe Thorogood. A graphic novel autobiográfica de 192 páginas consolidou a autora britânica como uma das vozes mais originais dos quadrinhos contemporâneos, ao lado de sua obra de estreia, “A Cegueira Iminente de Billie Scott”, também publicada no Brasil pela Conrad.




Thorogood estreou em 2020 com “Billie Scott”, trabalho que recebeu uma recepção extremamente positiva para uma autora iniciante e rapidamente a transformou em um dos nomes mais promissores da indústria. Nos anos seguintes, ilustrou títulos como “Rain”, de Joe Hill, na Image Comics. “É Solitário no Centro da Terra” lhe rendeu seis indicações ao Prêmio Eisner, ao Russ Manning Award de Melhor Revelação e o Prêmio Ringo de Melhor Graphic Novel Original.






A HQ acompanha aproximadamente seis meses da vida da autora, período em que Thorogood trabalhava justamente na concepção da HQ “A Cegueira Iminente de Billie Scott”. Durante este tempo, Zoe lida com depressão, ansiedade, síndrome do impostor e pensamentos suicidas. Mais do que um relato autobiográfico convencional, a obra funciona como um mergulho profundo em uma mente em constante conflito, registrando com brutal sinceridade momentos de autossabotagem, desespero e insegurança dentro e fora de sua carreira artística.





Um dos recursos mais marcantes da narrativa é a multiplicação de versões da própria Zoe. Ao longo da HQ, diferentes "Zoes" aparecem conversando, discutindo e até brigando entre si. Essas representações funcionam como a materialização de pensamentos contraditórios: a Zoe insegura, a Zoe racional, a Zoe autocrítica, a Zoe que deseja desistir e a Zoe que tenta seguir em frente. O leitor passa a testemunhar conflitos internos como se fossem diálogos entre personagens.





Thorogood também transforma emoções em figuras concretas. Entre elas está uma criatura escura, gigantesca e amorfa que remete às entidades melancólicas presentes nas animações de Hayao Miyazaki, do Studio Ghibli, especialmente o Sem-Face de “A Viagem de Chihiro” (2001). A figura não é apresentada literalmente como "a depressão", mas funciona como uma personificação do vazio emocional, da autossabotagem e dos pensamentos intrusivos que acompanham a autora ao longo da história.





A linguagem visual é abordada com muita criatividade quando Thorogood altera seu estilo gráfico para refletir seu estado emocional. Há páginas com traços realistas, caricaturais, esboços ou extremamente detalhadas. Tem até uso de fotografia. Quando a ansiedade se intensifica, os quadros tornam-se caóticos e sufocantes. Nos raros momentos de tranquilidade, a narrativa respira e ganha maior clareza visual. Assim, as mudanças estéticas deixam de ser mero exercício artístico e passam a representar diretamente as oscilações psicológicas da protagonista.






A estrutura da HQ também foge dos padrões tradicionais. Em vez de seguir uma trajetória linear, a narrativa avança e retrocede entre passado e presente, acompanhando associações de ideias, memórias e crises emocionais. O resultado é uma leitura por vezes desconfortável, mas extremamente autêntica, capaz de colocar o leitor dentro da mente da autora.





Outro aspecto que chama atenção é a forma como Thorogood retrata a síndrome do impostor. Mesmo após conquistar reconhecimento internacional, ela demonstra uma sensação constante de inadequação. O sucesso profissional não surge como fonte de felicidade, mas como um peso adicional que aumenta o medo de fracassar. A HQ mostra como elogios, prêmios e reconhecimento nem sempre conseguem silenciar a autocrítica.





A criação artística surge não como uma cura para seus problemas, mas como uma ferramenta de sobrevivência. Ao transformar suas vulnerabilidades em quadrinhos, a autora encontra uma forma de compreender a si mesma e de estabelecer uma conexão genuína com seus leitores.

Ao longo da narrativa, Thorogood frequentemente questiona suas decisões, conversa consigo mesma e desmonta a própria imagem pública. Esse exercício de exposição radical faz com que a HQ ultrapasse o caráter autobiográfico e alcance algo mais universal. Mesmo tratando de experiências extremamente pessoais, a obra aborda sentimentos familiares para muitas pessoas: medo de fracassar, sensação de inadequação, solidão e dificuldade de reconhecer o próprio valor.






O resultado é uma leitura intensa e emocionalmente exaustiva em alguns momentos, mas também profundamente humana. “É Solitário no Centro da Terra” não é uma HQ sobre superar a depressão. É uma HQ sobre conviver com ela, compreendê-la e continuar seguindo em frente apesar dela.






Talvez seja justamente essa honestidade que torna a obra tão poderosa. Ao expor seus próprios demônios sem filtros, Zoe Thorogood oferece aos leitores algo raro: a sensação de que, mesmo nos momentos mais difíceis, ninguém está completamente sozinho no centro da Terra.




Zoe Thorogood


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