Capitão Tsubasa chega ao Brasil pela Panini com histórias que vão além do futebol

Leonardo Fraga
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É difícil acreditar, mas um dos mangás mais influentes da história dos quadrinhos japoneses só chegará oficialmente ao Brasil em 2026. Enquanto séries como Dragon Ball, Naruto e One Piece acumulam décadas de publicações no país, Captain Tsubasa, obra de Yoichi Takahashi que ajudou a popularizar o futebol no Japão, permaneceu ausente no país do futebol por mais de quarenta anos.


Capa da edição brasileira de Capitão Tsubasa #1


A espera termina agora com a edição que será lançada pela Panini Comics no final do mês de Julho. Com cerca de 300 páginas por volume, a coleção com 21 edições trazendo a fase inicial da série permitirá aos leitores brasileiros acompanhar a trajetória de Oliver Tsubasa, Benji Wakabayashi e Roberto Maravilha. Na verdade... Ozora Tsubasa, Genzo Wakabayashi e Roberto Hongo, como no orginal. Melhor já se acostumar.




A nostalgia vem forte ao lembrar das partidas que pareciam intermináveis, os campos com proporções quase míticas e os chutes que desafiavam as leis da física. Ainda assim, por trás de toda a exagerada dramatização esportiva, existia algo que ajudou a transformar a série em um fenômeno mundial: suas histórias humanas.


Foi aos 18 anos, assistindo a Copa do Mundo de 1980 da Argentina, que Yoichi Takahashi percebeu que o futebol era muito mais famoso em todo o resto do mundo, do que Baseball.


Mais de quarenta anos após sua estreia nas páginas da revista Weekly Shonen Jump, Captain Tsubasa continua sendo lembrado não apenas pelos gols de Tsubasa ou pelos chutes devastadores de Kojiro Hyuga, mas pela maneira como abordou temas como amizade, sacrifício, superação e persistência. É justamente essa combinação que ajuda a explicar por que a obra se tornou uma das mais importantes da história dos mangás de esporte.



 

O mangá que ajudou a mudar o futebol japonês

 

Lançado em 1981, Captain Tsubasa surgiu em uma época em que o futebol ainda estava longe de ocupar o espaço que possui atualmente no Japão. Zico só iria jogar no Kashima Antles em 1991, quando o esporte se popularizou a ponto de um ano depois ser criado o principal campeonato de futebol do país, a J-League. O esporte mais popular do país na época de Captain Tsubasa era o baseball, enquanto o futebol permanecia em segundo plano.


Zico deu credibilidade e ajudou na construção do futebol profissional japonês


Mas quem levantou a bola do esporte foi o mangá. Quando se tornou um sucesso editorial, milhares de crianças passaram a praticar futebol inspiradas pelas aventuras de Tsubasa e seus companheiros. Não por acaso, muitos jogadores profissionais da seleção japonesa cresceram lendo a série e citam a obra como uma das razões que os levaram a seguir carreira, como o meio campista Hidetoshi Nakata (jogou no Roma, Parma e 3 Copas do Mundo) e o Goleiro Yoshikatsu Kawaguchi (Portsmouth, Jubilo Iwata e 4 Copas do Mundo).


Musashi Mizushima


Curiosamente, Tsubasa foi inspirado na trajetória real de um jogador japonês chamado Musashi Mizushima, que jogou nas categorias de base do São Paulo FC na década de 1980.

Poucos quadrinhos podem afirmar que influenciaram diretamente uma modalidade esportiva nacional. Captain Tsubasa e Slam Dunk de Takehiko Inoue são alguns deles.




 O fenômeno chamado Super Campeões

 

No Brasil, a trajetória da série seguiu um caminho diferente. O anime conquistou enorme popularidade através da Rede Manchete batizado de Super Campeões, o desenho rapidamente encontrou espaço entre crianças e adolescentes apaixonados por futebol. Por isso ainda hoje é difícil desvincular os nomes dados nas dublagens, como Oliver Tsubasa, ou do goleiro Benji.

Em um país que respirava o esporte, era fácil se identificar com aqueles personagens que sonhavam em disputar Copas do Mundo, representar seu país e se tornar os melhores jogadores do planeta. Mas o anime cativava até mesmo jovens que nem gostavam tanto assim de futebol.




A série apresentava ao público brasileiro uma forma diferente de contar histórias esportivas. Cada partida era construída como um drama de superação, onde o resultado dependia tanto da força emocional dos personagens quanto de sua habilidade com a bola. Hoje o remake do anime está disponível na Netflix.

 

Histórias que vão muito além do futebol




Apesar da fama construída sobre partidas eletrizantes e jogadas espetaculares, os momentos mais memoráveis de Captain Tsubasa frequentemente acontecem dos diálogos e situações que os jogadores enfrentam, geralmente dentro das quatro linhas (por isso os jogos dão a impressão de terem mais de 90 minutos).

Um dos melhores exemplos foi quando o Nankatsu SC, equipe de Tsubasa, enfrentou o Musashi FC, na semifinal do Campeonato Nacional do Ensino Fundamental. O Musashi é a equipe de Jun Misugi, conhecido como o "Príncipe dos Campos".




Considerado um dos jogadores mais talentosos de sua geração, ele convive com uma grave doença cardíaca que coloca sua própria vida em risco. Misugi pode perder a vida se jogar uma partida inteira de futebol. Na semifinal contra o Nankatsu, entretanto, ele toma uma decisão radical: jogar o tempo todo, mesmo sabendo que isso pode matá-lo (um drama para uma criança de apenas 11 anos).




Pouco antes do jogo, Misugi descobre que Tsubasa partirá para o Brasil após o torneio para seguir seu sonho ao lado de Roberto Hongo. Para ele, aquela poderia ser a única oportunidade de enfrentar Tsubasa em igualdade de condições. Por isso, a partida ganha um significado especial.

Sua técnica e inteligência desmontam o Nankatsu. Em determinado momento, o Musashi abre vantagem e Tsubasa começa a sentir que talvez não consiga vencer. O próprio Takahashi criou Misugi como um jogador tecnicamente superior ao protagonista e a doença cardíaca foi a forma encontrada para equilibrar o confronto.

Mas conforme os minutos passam, o desgaste físico começa a cobrar seu preço. O leitor percebe que Misugi não está lutando apenas contra Tsubasa, mas sim contra o próprio coração. Cada corrida, cada dividida e cada jogada podem ser as últimas.

É de tirar o fôlego! Seguindo a edição italiana, acompanharemos esse momento no volume 5 do mangá.




Outro personagem marcante é Roberto Hongo, o ex-jogador brasileiro que se torna mentor de Tsubasa. Sua carreira é interrompida por um descolamento de retina que destrói o sonho de continuar atuando profissionalmente. Em vez de desistir, porém, Roberto encontra uma nova forma de permanecer ligado ao futebol ao transmitir sua experiência para a próxima geração. Sua relação com Tsubasa é uma das bases emocionais da série e passa uma mensagem durante toda a série: nem sempre os sonhos terminam quando um caminho se fecha.




Outro personagem fundamental é Genzo Wakabayashi, o lendário goleiro que, durante boa parte da infância, parece praticamente imbatível. Sua história, porém, também é marcada pela necessidade de abrir mão de privilégios em nome de um sonho maior. Filho de uma família rica e acostumado a ter tudo ao seu alcance, Wakabayashi escolhe deixar o conforto para buscar desafios cada vez maiores no futebol.




Ao longo da série, ele enfrenta lesões, derrotas e a pressão constante de ser visto como o melhor goleiro de sua geração. Diferentemente de Tsubasa, que sonha em marcar gols, Wakabayashi constrói sua identidade defendendo o sonho dos outros. Sua rivalidade amistosa com Tsubasa e sua busca incessante pela perfeição fazem dele um dos personagens mais admirados da obra, mostrando que o talento só se transforma em excelência quando acompanhado de disciplina e dedicação.




Também merece destaque Taro Misaki, parceiro inseparável de Tsubasa durante boa parte da história. Por causa do trabalho de seu pai, ele passa a infância mudando constantemente de cidade. A cada mudança precisa abandonar amigos, escola e equipe para começar tudo novamente. Seu drama é muito próximo da realidade de muitos leitores.




Kojiro Hyuga representa o grande adversário de Tsubasa e é muito importante para a narrativa da obra. Diferente de Tsubasa, que cresce cercado por apoio e incentivo, Hyuga enfrenta dificuldades financeiras e precisa ajudar a sustentar a família. Sua determinação feroz nasce da necessidade de construir um futuro melhor. Por trás do rival agressivo existe um garoto que aprendeu cedo que a vida raramente oferece segundas chances.




Até mesmo a trajetória do Nankatsu, por exemplo, mostra como um grupo desacreditado pode superar equipes consideradas superiores quando seus integrantes aprendem a confiar uns nos outros. Mais do que uma história sobre vencer campeonatos, trata-se de uma celebração da força coletiva.





 Um clássico que continua relevante


Se fosse apenas um mangá sobre futebol, Capitão Tsubasa dificilmente teria permanecido relevante por mais de quatro décadas. O que mantém a obra viva é sua capacidade de falar sobre sonhos, amizades, perdas, sacrifícios e recomeços. São temas universais, capazes de atingir tanto quem acompanha futebol quanto quem jamais assistiu a uma partida.

A chegada do mangá pela Panini oferece uma oportunidade para que os fãs revisitem uma das obras mais importantes dos quadrinhos japoneses e para que novos leitores conheçam os personagens e histórias que fizeram o mangá se tornar um fenômeno mundial.



Capitão Tsubasa com Ozora, Genzo, Hyuga, Hongo... nunca foi apenas sobre quem decide as partidas. Sempre foi sobre a jornada de pessoas que se recusam a abandonar seus sonhos, independentemente dos obstáculos que encontrem pelo caminho. E talvez seja justamente por isso que a série irá emocionar o público brasileiro, com histórias que vão além do futebol.


Fonte imagens: As imagens deste post foram extraídas das edições italianas de Captain Tsubasa da Edizioni Star Comics.

Outras imagens foram retiradas da Internet e da Weekly Shonen Jump.

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