Primavera de 68 retrata a geração que acreditou poder mudar a Itália

Leonardo Fraga
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Durante décadas, a Sergio Bonelli Editore preferiu ambientar suas histórias longe da Itália. O Velho Oeste de Tex, a Londres de Dylan Dog ou a Amazônia de Mister No tornaram-se cenários muito mais frequentes do que a própria "Velha Bota". Quando a editora finalmente voltou seu olhar para o passado do país, surgiram obras como Mercurio Loi, Face Oculta e, principalmente, Cani Sciolti. Uma das séries mais pessoais já escritas por Gianfranco Manfredi, autor de Mágico Vento e Face Oculta.




Publicado no Brasil pela Editoras 85 e pelo selo editorial Lorobuono Fumetti sob o título Primavera de 68, o primeiro volume reúne quatro edições italianas em 276 páginas. Acompanha Lina, Margherita, Deb, Turi, Milo e Pablo, jovens universitários que participam dos protestos estudantis na Milão de 1968. Diferentemente de muitas narrativas sobre o período, Manfredi não se interessa pelos líderes políticos ou pelas grandes organizações. Seu foco está nas pessoas comuns que viveram aqueles acontecimentos.



O final da década de 1960 foi marcado por profundas transformações sociais. O movimento hippie, a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, a segunda onda do feminismo e as revoltas estudantis que sacudiram países como França, Alemanha, México e Itália alimentavam a sensação de que uma nova sociedade estava prestes a nascer. É justamente esse clima de entusiasmo, contestação e incerteza que Manfredi procura capturar.





A revolta estudantil italiana conhecida como Sessantotto, foi um movimento de contestação liderado por universitários que questionavam o sistema educacional, as estruturas de poder, os valores conservadores e as desigualdades da sociedade italiana. Milhares de estudantes ocuparam universidades, organizaram assembleias e entraram em confronto com a polícia.





Mais do que uma simples série de protestos, o Sessantotto representou uma ruptura geracional que ajudou a transformar a Itália nas décadas seguintes. O movimento aproximou estudantes e operários, influenciou reformas educacionais, fortaleceu os direitos civis e alterou costumes sociais profundamente enraizados. Ao mesmo tempo, parte da radicalização política daquele período contribuiu para o surgimento dos chamados Anos de Chumbo, marcados pela violência de grupos extremistas. Ainda hoje, o legado de 1968 continua sendo debatido na Itália, visto por muitos como um momento decisivo na construção da sociedade italiana contemporânea.


Foto: Fondazione Luigi Einaudi


A primeira história de Primavera de 68 acompanha os protagonistas durante as ocupações universitárias, assembleias e confrontos com a polícia. Já as demais narrativas alternam entre os anos 1960 e a década de 1980, mostrando como o tempo transformou aqueles jovens idealistas. Alguns abandonaram antigos sonhos, outros seguiram caminhos inesperados e poucos permaneceram fiéis aos projetos que defendiam na juventude. A grande força da série está justamente nessa passagem do tempo. Os personagens não são definidos por suas ideologias, mas pelas escolhas que fazem ao longo da vida.





Os seis protagonistas possuem personalidades muito distintas. O barbudo Pablo, descontraído e idealista, dono de um carisma natural e a reservada e independente Lina formam o casal de namorados inseparáveis. O aparentemente pacato, mas na verdade irredutível Deb, é estudante de História e apaixonado pela rica Margherite, a mais jovem do grupo. O loiro Milo, que ama a música quase tanto quanto a revolução, é um artista homossexual e Turi, motociclista de estilo malandro e jaqueta à la Steve McQueen, é o futuro profissional pragmático e cínico.




Com o passar dos volumes, o leitor se apega cada vez mais às suas trajetórias, seja durante as manifestações após o atentado da Piazza Fontana, seja nos cursos noturnos organizados para trabalhadores, ou em como suas vidas se desenrolam ao longo dos anos.

A reconstrução da Milão da época é outro dos pontos altos da obra. Luca Casalanguida retrata com precisão locais como a Piazza Duomo, o Bar Magenta e a Universidade Católica do Sagrado Coração, transformando a cidade em uma personagem tão importante quanto os próprios protagonistas. O resultado é uma narrativa que combina memória afetiva, documentação histórica e drama humano.





A série também conta com a participação do brasileiro Pedro Mauro, que já havia trabalhado com Manfredi em Mugiko (Le Storie) e Adam Wild. Responsável por desenhar duas edições desse primeiro volume de Primavera de 68, o artista ajuda a manter a identidade visual da série enquanto amplia o retrato de diferentes períodos da história italiana.





Manfredi viveu diretamente o chamado Sessantotto italiano, participando do ambiente cultural e político da época. Frequentador da revista contracultural Re Nudo e ativo na cena da esquerda italiana, o autor transportou para a série parte de suas próprias experiências e inquietações. Por isso, Primavera de 68 funciona não apenas como ficção histórica, mas também como uma reflexão geracional sobre os sonhos, as derrotas e as contradições de quem acreditou que poderia mudar o mundo.


Gianfranco Manfredi.
Foto: La Repubblica

Infelizmente, a série nunca encontrou o mesmo público das produções mais tradicionais da Bonelli. Planejada para vinte edições, foi interrompida após o número 14, embora ainda existam roteiros inéditos deixados prontos por Manfredi antes de sua morte, em 2025 para concluir a série.






A 85 e a Lorobuono já anunciaram que irão publicar a série completa, assim que a Bonelli publicar os volumes que faltam na Itália. Ainda assim, Primavera de 68 permanece como uma das obras mais ambiciosas da Sergio Bonelli Editore ao retratar a história da Itália através dos olhos de cidadãos comuns, transformando acontecimentos históricos em experiências profundamente humanas.



 

A segunda edição de Primavera de 68 está à venda no site da Editora 85 AQUI.




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