Insones: O mangá que transforma noites sem dormir em poesia cotidiana

Leonardo Fraga
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Insones – Caçando estrelas depois da aula, publicado no Brasil pela Panini é um mangá que não canso de indicar e comentar. Entre tantos mangás românticos cheios de exageros, triângulos amorosos e conflitos dramáticos, poucos conseguem encontrar beleza justamente nas pequenas coisas do cotidiano. É exatamente isso que torna esta uma obra tão especial. 




Com o título original Kimi wa Houkago Insomnia, a obra da mangaká Makoto Ojiro aposta em uma premissa interessante, uma narrativa calma, divertida e acolhedora, que fala sobre conexões humanas e conta a história de dois adolescentes unidos pela dificuldade de dormir.





Acompanhamos Ganta Nakami, um estudante colegial dedicado, porém socialmente deslocado, um efeito direto de sua constante insônia. Incapaz de dormir à noite, ele vive exausto e isolado, até que encontra um refúgio inusitado: o antigo local do clube de astronomia de sua escola, uma sala abandonada com um telescópio.





Lá, surpreende-se ao encontrar Isaki Magari, uma colega popular e energética que também sofre de insônia e encontrou nesse mesmo lugar um porto-seguro para descansar. A partir desse encontro casual, os dois começam a compartilhar o espaço, e suas noites insones passam a ter significado, não mais solitárias, mas preenchidas por conversas, companheirismo e descobertas.




O espaço acaba se transformando em um refúgio particular e, eventualmente, no ponto de partida para um pequeno clube de astronomia e fotografia. O mangá consegue transformar momentos cotidianos em cenas carregadas de emoção. A história não tenta acelerar acontecimentos ou criar grandes reviravoltas, pelo contrário, ela abraça um ritmo mais lento, típico das obras slice of life, permitindo que os personagens se conheçam aos poucos e desenvolvam uma relação natural e extremamente sincera.






O romance também foge bastante dos clichês mais comuns do gênero. Em vez de rivalidades artificiais ou personagens exageradamente idealizados, a relação entre Isaki e Nakami cresce através da convivência, das conversas noturnas e da sensação compartilhada de vulnerabilidade. Existe um toque de timidez e falta de jeito em praticamente todas as interações entre eles, mas é justamente isso que faz tudo parecer tão genuíno.




Outro ponto que chama atenção em Insones é a forma como os personagens são desenhados. Diferente de muitos mangás românticos tradicionais, aqui os adolescentes parecem adolescentes de verdade. Os traços não tentam transformar os protagonistas em figuras perfeitas ou excessivamente “bonitas”. Há sobrancelhas desalinhadas, expressões engraçadas, olheiras e corpos mais naturais, algo que reforça ainda mais a sensação de realismo presente na obra.






Essa preocupação com o real também aparece nos cenários, especialmente pala ambientação se passar na cidade de Noto (Oeste do Japão) adicionando um charme especial. O trabalho visual de Makoto Ojiro impressiona especialmente nas paisagens urbanas e nas cenas noturnas. Ruas vazias, céu estrelado, chuva, postes iluminando a madrugada e ambientes silenciosos criam uma atmosfera que quase dá pra sentir. Em vários momentos, os cenários lembram fotografias reais adaptadas para o traço do mangá, o que combina perfeitamente com a temática da fotografia presente na narrativa.




Existe um sentimento constante de melancolia em Insones, mas nunca de uma forma pesada ou desesperadora. A obra entende que crescer envolve ansiedade, insegurança e medo do futuro, mas também encontra beleza nesses momentos de fragilidade. O resultado é uma história extremamente acolhedora, capaz de transmitir conforto mesmo quando aborda temas mais sensíveis.




Além do romance, o mangá também fala sobre juventude, saúde emocional, solidão e a importância de encontrar alguém que compreenda nossas dificuldades sem precisar de muitas explicações. Tudo isso é tratado de maneira muito delicada, sem discursos exagerados ou dramatizações forçadas.



A narrativa ainda se destaca pelo uso de “cenas silenciosas”, momentos em que praticamente não há diálogos e o leitor apenas observa os personagens, os ambientes e as emoções transmitidas pelos olhares ou pela composição visual. São sequências que reforçam o clima contemplativo de Insones e ajudam a criar uma conexão emocional muito forte com os protagonistas.




Mesmo sendo uma história tranquila, o mangá nunca se torna parado e sempre existe algo interessante acontecendo, seja um novo passeio noturno, uma sessão de fotos, uma conversa íntima ou apenas um instante simples compartilhado entre os personagens. 




Outro mérito da obra é não transformar tudo em um conto perfeito. Problemas aparecem, inseguranças permanecem e algumas situações machucam bastante emocionalmente. Ainda assim, essas dificuldades fazem parte da experiência e ajudam a dar profundidade à história. Insones entende que a juventude pode ser bonita e dolorosa ao mesmo tempo.




No primeiro volume a trama se aprofunda bastante em apresentar Ganta e Isaki, e também a formação do clube de astronomia. Nas edições seguintes mais e mais personagens vão entrar no clube e a trama vai evoluindo naturalmente, sem ser monótona, mas uma leitura muito gostosa onde a cada capítulo vamos nos apegando mais e mais na história de todos. A astrologia e a fotografia também são levadas em conta, onde acabamos aprendendo junto aos personagens sobre estes dois assuntos.




O mangá já foi concluído no Brasil em 14 volumes. A obra também ganhou uma adaptação em anime, que ajudou a ampliar ainda mais sua popularidade e manteve boa parte da atmosfera calma e emocional do mangá original. Em 2023 foi lançado um live-action (filme) baseado no mangá com Daiken Okudaira como Ganta e Nana Mori como Isaki.


Insomniacs After School - Anime


Live action lançado em 2023.


Insones é uma leitura perfeita para quem gosta de slice-of-life com toques de reflexão existencial, relacionamentos sinceros e uma atmosfera noturna envolvente. Para quem já passou noites em claro perdido em pensamentos, a obra transforma essa sensação de isolamento em algo profundamente humano, entre memórias, inseguranças e sonhos sobre o futuro.



 

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