Tex #636 – Flechas Mortais marcou uma mudança importante para o ranger no Brasil. Foi a partir desta edição que a Editora Mythos passou a publicar a série no tradicional formato italiano (16 x 21cm) e papel offset, abandonando aos poucos o velho formatinho (13,5 x 17,5cm) em papel jornal. A HQ também iniciou uma nova numeração, transformando esta edição na “Primeira” dessa nova fase de Tex.
Com o tempo, tanto a editora quanto os leitores acabaram abraçando a mudança. O formato italiano se consolidou e até as edições anteriores começaram a ser republicadas nesse novo padrão, a partir da edição #586. Mais do que uma simples troca de formato, era também uma oportunidade perfeita para novos leitores finalmente começarem a acompanhar Tex sem a resistência que muitos tinham ao antigo formatinho. E, felizmente, a história inaugural foi bem adequada.
“Flechas Mortais” e sua continuação, “Vingança Vermelha”, originalmente publicadas na Itália Tex #736 e #737, formam uma aventura clássica de western escrita por Pasquale Ruju e desenhada por Giuseppe Prisco. É uma história que aposta no básico da série: conflitos indígenas, perseguições, vingança, grandes paisagens e muitos tiroteios. E justamente por isso funciona tão bem.
A trama acompanha Carvalho
Vermelho, um velho chefe comanche que, após a morte da esposa, decide se
afastar de sua tribo para esperar serenamente o fim da própria vida. Durante
sua ausência, porém, sua aldeia é atacada, destruída e sua família acaba
massacrada. Consumido pela dor e pela raiva, o velho guerreiro encontra um novo
motivo para continuar vivendo: vingança.
Em uma das imagens mais simbólicas da história, Carvalho Vermelho recolhe as flechas usadas no massacre e decide seguir o rastro do homem responsável pela tragédia. Esse homem é Chogan.
Tex e Kit Carson já estão em seu
encalço quando a história começa. Chogan é um guerreiro extremamente violento,
responsável por ataques contra aldeias comanches, sequestro de mulheres e
formação de um pequeno exército pessoal composto por bandidos e jovens guerreiros
manipulados por sua liderança brutal.
O roteiro de Pasquale Ruju trabalha muito bem as motivações do vilão. Chogan nasceu cheyenne, mas foi arrancado de sua tribo ainda criança e criado entre os comanches. Cresceu sem pertencimento, desprezado pelos jovens da aldeia e marcado por um ressentimento profundo contra o próprio povo que o acolheu. Esse trauma se transforma em ódio e violência, fazendo com que ele volte sua fúria justamente contra os comanches.
Existe também um elemento interessante na forma como o personagem recruta jovens guerreiros. Chogan manipula adolescentes vulneráveis, oferecendo sensação de pertencimento, poder e propósito. Entre eles está Kimy, um garoto dividido entre o fascínio pela figura forte de Chogan e a condição de prisioneiro dentro daquele grupo.
Ruju utiliza esse conflito para
construir um paralelo bastante atual. A história questiona como jovens podem
admirar figuras claramente violentas e repugnantes apenas porque elas aparentam
força, carisma ou se apresentam como vítimas do sistema, ignorando
completamente as atrocidades que cometem.
Apesar desse subtexto mais
contemporâneo, a estrutura da aventura permanece totalmente clássica. Os vários
núcleos da trama vão se aproximando gradualmente até culminarem em um confronto
final bem interessante. O roteiro mantém um ritmo rápido e evita excesso
de explicações, deixando que os personagens conduzam boa parte da narrativa.
A arte de Giuseppe Prisco contribui muito para o resultado. Seu traço é expressivo e atmosférico, especialmente nas cenas envolvendo os personagens indígenas. Carvalho Vermelho ganha enorme presença visual através dos desenhos. Mesmo sendo um homem idoso, ele transmite imponência o tempo inteiro, e Prisco consegue mostrar perfeitamente o peso da idade em seus movimentos sem jamais diminuir sua força.
Os cenários também merecem destaque. As cenas noturnas utilizam sombras e hachuras, criando uma ambientação quase melancólica e sombria. Em outras páginas, o desenhista aposta em quadros mais abertos e contemplativos, valorizando a paisagem e reforçando o clima típico dos grandes westerns.
Curiosamente, Tex e Carson acabam
funcionando quase como personagens coadjuvantes dentro da trama. Embora estejam
presentes o tempo inteiro, o foco emocional da narrativa está claramente em
Carvalho Vermelho e em sua jornada de vingança.
Ainda assim, Ruju entende perfeitamente a essência da dupla. Tex continua sendo o ranger durão, sarcástico e explosivo de sempre. As famosas tiradas irônicas aparecem em praticamente todas as sequências de ação, resgatando aquele espírito clássico do personagem que resolve problemas no soco, na bala e na provocação verbal. “Sem tempo irmão“, para se preocupar em parecer moderno ou sofisticado, apenas querendo resolver a situação.
Carson, por sua vez, segue
roubando cenas graças à personalidade extremamente carismática. Sua relação com
Carvalho Vermelho rende alguns dos melhores momentos da história, especialmente
quando o velho chefe insiste em agir sozinho, colocando todos em perigo e
testando a paciência do eterno “Cabelo de Prata”.
O principal problema da aventura
continua sendo algo recorrente em Tex: a quase completa invencibilidade do
protagonista. Em diversos momentos, Tex atravessa tiroteios praticamente sem
sofrer consequências, reduzindo bastante a tensão dos confrontos. O personagem
chega a enfrentar inimigos de peito aberto em algumas cenas, eliminando
adversários sem grande dificuldade.
Mesmo assim, Ruju consegue
construir um clímax eficiente no desfecho da história. Encurralados por Chogan
e seus homens no alto de um monte, Tex, Carson, Carvalho Vermelho e os jovens
sequestrados precisam sobreviver com pouca munição, sob uma chuva torrencial e
praticamente sem rota de fuga. A solução encontrada através de uma caverna
subterrânea cria um dos momentos mais tensos da trama, cena que acabou
sintetizada na capa de Claudio Villa para a edição #637.
No fim das contas, a sensação é mesmo de uma “aventura de transição”. Uma história menor em escala, confortável e segura, especialmente porque serve de preparação para a gigantesca saga envolvendo Mefisto, que ocupará as sete edições seguintes da revista até Tex #644. Mas isso está longe de ser um defeito.
“Flechas Mortais” e “Vingança Vermelha” funcionam justamente porque entendem aquilo que Tex faz melhor: um western direto e eficiente, baseado em vingança, conflitos indígenas, perseguições e personagens fortes. É uma excelente porta de entrada para novos leitores que chegam pelo novo formato da edição e encontram uma trama dinâmica e bem construída. E também uma leitura extremamente agradável para veteranos, pois a história traz o espírito clássico da série.
E, às vezes, o básico bem feito
ainda é tudo que um grande western precisa.




















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