Aprendendo a Cair: HQ emocionante que retrata luto, deficiência e empatia

Leonardo Fraga
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Nem toda história precisa apostar em reviravoltas mirabolantes ou cenas de impacto para chocar o leitor. Algumas encontram sua força justamente nos pequenos gestos, no silêncio e nas dores cotidianas. “Aprendendo a Cair” do autor alemão Mikaël Ross tem uma narrativa profundamente humana sobre solidão, medo e necessidade de pertencimento.

A HQ, lançada no Brasil pela Nemo em 2020, tem 128 páginas coloridas e formato europeu com tradução de Renata Silveira.




Acompanhamos Noel, um jovem de 22 anos com deficiência intelectual. Ele vive com sua mãe em Berlim a qual ele chama carinhosamente de “Mamãezinha”. Os dois sempre estão grudados e o leitor é apresentado a uma relação marcada por carinho, rotina e afeto. Noel está comemorando seu aniversário, cercado pelas pequenas coisas que ama: marshmallows queimados, bem torrados, quase carbonizados, música e a companhia da mãe.




Somos apresentados à deficiência de Noel aos poucos e muito natural, na maneira como ele observa o mundo, organiza pensamentos e se comunica. Isso é fruto de uma vivência que Mikaël fez em Neuerkerode, uma vila alemã totalmente inclusiva, onde vivem cerca de 800 pessoas com deficiência intelectual, cuidadas por uma equipe de mil profissionais. Mikaël visitou a vila ao longo de dois anos para absorver as histórias e o cotidiano dos moradores. A vila foi fundada em 1868 pelo pastor evangélico Gustav Stutzer, pelo médico Oswald Berkhan e pela filha de um banqueiro, Luise Löbbecke.




Para comemorar os 150 anos do lugar, a comunidade encomendou uma história em quadrinhos para celebrar a data e Ross aproveitou a oportunidade para realizar sua primeira HQ autoral. Foi durante o convívio de Ross na vila que nasceu o protagonista, Noel, que condensa a história de mais de 70 moradores do lugar.

 

Back in Black

 



A noite do aniversário de Noel com sua mãe parece perfeita. Como presente, ele ganha uma guitarra elétrica e ingressos para ver sua banda favorita, AC/DC. Tudo transmite conforto e felicidade. Até que, no silêncio da madrugada, Noel escuta um som seco, de queda vindo do banheiro. Ela sofre um derrame e cai de cabeça. "Em um segundo, a vida de Noel muda completamente. Ele, que nunca precisou tomar decisões sozinho, se vê forçado a descobrir como chamar uma ambulância", comenta Mikaël.




A sequência que Noel encontra sua mãe é angustiante. Acompanhamos com aflição a confusão mental do protagonista, sua dificuldade para entender a situação e o desespero de tentar pedir ajuda enquanto luta para lembrar o próprio endereço. É um momento desesperador que Ross nos mostra sem recorrer a exageros. O horror surge da vulnerabilidade de Noel ao não conseguir compreender totalmente o que está acontecendo com a pessoa mais importante de sua vida.




O plot principal da história surgiu de um desabafo real, que Ross ouviu de um jovem em uma discoteca na vila: o pai do rapaz havia caído da escada, ido para o hospital e nunca mais se recuperou. "Essa é a premissa do livro: a sua vida está perfeitamente bem e, no segundo seguinte, você está por sua conta", reflete o autor.



O título original alemão da HQ é “Der Umfall”, algo como “A Queda”. E nos EUA, a edição publicada pela Fantagraphics tem o título “The Thud”, referenciando à onomatopeia da queda, da batida do corpo da mãe no piso do banheiro. Na edição brasileira, a queda da mãe de Noel ganhou a onomatopeia “Carplaf”, que remete à onomatopeia clássica brasileira para queda de uma pessoa, “Plaft!”.




Mas... o título da edição brasileira, ao chegar ao final da história vai fazer um enorme sentido e emocionar muito ao leitor que acompanhou toda a jornada de Noel.


Capa da edição americana publicada pela Fantagraphics em 2021.

 E agora?

 

Depois que a ambulância leva sua mãe embora, ele simplesmente vaga pela cidade até adormecer em um banco de praça. É nesse ponto que “Aprendendo a Cair” começa a revelar sua verdadeira força narrativa.




Ross faz o leitor acompanhar a tentativa de Noel em compreender a mudança brusca em sua vida. Sem ter para onde ir, ele acaba sob a tutela do Estado sendo encaminhado para Neuerkerode. O impacto da mudança é sentido em cada página, porque a narrativa permanece quase sempre presa à perspectiva de Noel. O leitor não recebe explicações externas ou análises psicológicas detalhadas. Tudo é vivido da maneira como ele próprio interpreta as situações.




A estrutura da HQ ajuda bastante nessa imersão. Ross divide a história em pequenos capítulos centrados nos personagens que Noel conhece na vila. Cada um deles possui uma forma muito particular de compreender o mundo. Valentin, por exemplo, transforma praticamente tudo em números e cálculos. Penelope demonstra gentileza logo no primeiro encontro, e isso basta para que Noel a enxergue como uma princesa.




Irma, uma das moradoras mais antigas da comunidade, carrega memórias traumáticas do período nazista, lembrando uma época em que pessoas com transtornos mentais eram perseguidas e desumanizadas. Irma é inspirada em Hana, uma senhora de 90 anos que Ross conheceu em Neuerkerode. Inicialmente, recusava-se a falar com ele por trauma e medo de homens. Com o tempo, Ross descobriu que Hana havia sobrevivido ao nazismo escondendo-se na floresta ao redor da vila.



Por falar em nazismo, Ross comenta que o Holocausto começou com o extermínio de pessoas com deficiência, onde o próprio conceito das câmaras de gás foi testado. Crianças e adultos de Neuerkerode eram levados em ônibus com janelas pintadas para que ninguém visse o interior, sendo assassinados em outros centros por meio de superdosagem de medicamentos. Os dois irmãos de Hana foram levados por esses ônibus.

 

Não é tarde para aprender




“Aprendendo a Cair” nunca abandona seu tom acolhedor e humano, mas também não ignora o peso histórico e social que envolve o tratamento dado a pessoas neurodivergentes ao longo das décadas. Ainda assim, Ross evita transformar a obra em um estudo histórico ou sociológico. Seu interesse está nas pessoas. Nos pequenos gestos, nos medos cotidianos, nas amizades improváveis e nas diferentes formas de interpretar a realidade, cada um do seu jeito.




Entre os personagens mais marcantes está Valentin, colega de Noel na casa comunitária. Obcecado por ordem e rotina, ele anda sempre com um graveto que chama de “Varana”, um objeto de conforto que carrega para todos os lados. Quando o perde após um ataque de raiva durante uma noite de jogos, Noel decide ajudá-lo a encontrar outro no meio da floresta.

É durante essa busca que surge mais uma cena muito emocionante da HQ. Os dois encontram um pássaro morto caído no chão. Noel, ainda incapaz de aceitar completamente a situação da mãe, olha para o animal e diz que ele “está dormindo”, assim como sua “Mamãezinha”. Para ele, a mãe não morreu nem está próxima disso: ela apenas está em coma e logo voltará para casa.



A cena funciona como um retrato delicado do luto e da negação. Sem discursos explicativos, a HQ mostra como Noel tenta organizar emocionalmente um trauma que ainda não consegue processar.

 

O tom da arte

 

Visualmente, Mikaël aposta em um estilo cartunesco bastante expressivo, que lembra em alguns momentos o trabalho de Joann Sfar e Christopher Blain (O gato do Rabino, Blueberry e Gus). Os personagens possuem traços simples, quase caricaturais, mas carregam enorme personalidade. As expressões faciais e corporais dizem muito sobre seus estados emocionais e Ross usa exageros visuais de maneira inteligente para enfatizar ansiedades, medos e peculiaridades de cada um.




A própria cor também funciona como ferramenta narrativa. Em boa parte da HQ, a paleta é propositalmente limitada e chapada, mas em determinados momentos Ross introduz cores mais vivas e intensas para transmitir desorientação emocional ou sobrecarga sensorial. É um recurso discreto, mas bastante eficiente.

Ross comenta que a HQ trouxe um desafio físico, pois inspirado por artistas de um ateliê, o autor decidiu não usar tintas e coloriu a HQ usando apenas lápis de cor. O processo levou um ano de trabalho intenso e doloroso. Ao contrário do pincel, o lápis de cor exige pressão constante, o que castigou as mãos do autor e o forçou a usar áreas em branco estrategicamente, contando com a ajuda de um colorista digital no Photoshop para os fundos.




Outro detalhe curioso é a presença recorrente de músicas e referências da banda AC/DC ao longo da história. Em teoria, isso poderia soar deslocado diante de um tema tão delicado, mas Ross incorpora esses elementos de forma natural, usando-os como parte da personalidade e das referências afetivas dos personagens.




 Let there be rock




A HQ trata sobre deficiência intelectual e neurodivergência e prima em não tratar os personagens com pena ou infantilização. "Aprendendo a cair" fala sobre pessoas tentando encontrar estabilidade em meio ao caos emocional, seja através de um graveto chamado “Varana”, de uma manta usada como capa de conforto ou da esperança de que alguém amado ainda possa voltar para casa. É uma leitura dolorosa em vários momentos, mas também extremamente gentil. Daquelas histórias que não precisam de muito para deixar uma marca profunda no leitor.




Mikael Ross constrói uma narrativa humana, sensível e acessível, capaz de ir muito além do público tradicional dos quadrinhos. É uma obra que merece ser lida também por pais, educadores e por qualquer pessoa interessada em compreender melhor uma realidade cada vez mais presente e necessária de ser discutida com empatia.

 

Ross e a busca pela sua própria voz

 



Ross consolidou seu talento ilustrando os roteiros do escritor belga Nicolas Wouters. Dessa parceria nasceram duas obras marcantes: “Les Larmes”, uma narrativa pintada em aquarela que acompanha dois amigos com personalidades opostas enfrentando diferentes encruzilhadas na vida, enquanto um ascende, o outro entra em declínio. E “Totem”, baseado nas memórias reais de Wouters, a HQ explora o universo dos escoteiros na Bélgica.


Totem (2016)


"Totem" entrelaça a dura experiência dos acampamentos com o luto real do roteirista, que perdeu o irmão na mesma época. Após “Totem”, Ross se viu sem rumo. Não queria mais ilustrar histórias de outros autores, precisava descobrir sua própria voz e a busca por um projeto autoral o levou a Neuerkerode. “Aprendendo a Cair” foi um estrondoso sucesso, sendo lançada em mais de 11 países.



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