The Spirit por Darwyn Cooke: uma releitura à altura do clássico de Will Eisner

Leonardo Fraga
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Criado por Will Eisner em 1940 para os suplementos dominicais dos jornais americanos, The Spirit nasceu em um momento em que os super-heróis dominavam a cultura popular. Enquanto personagens como Superman e Batman consolidavam o gênero, Eisner optou por seguir um caminho diferente. Seu herói, Denny Colt, usa máscara, chapéu e gravata, e não possui superpoderes, equipamentos extraordinários ou qualquer habilidade sobre-humana. É, acima de tudo, um homem comum que depende da inteligência, da coragem e, muitas vezes, da sorte para sobreviver.


The Spirit, por Will Eisner.


Essa proposta singular transformou rapidamente The Spirit em um dos personagens mais importantes da história dos quadrinhos. Entre 1940 e 1952, Eisner utilizou suas aventuras como um verdadeiro laboratório criativo, experimentando enquadramentos ousados, soluções gráficas inovadoras e uma narrativa visual que influenciaria gerações de artistas. Em poucas páginas, mistério, humor, aventura, romance e drama conviviam de forma natural, criando histórias que ainda hoje impressionam pela modernidade.


Will Eisner em 1942 fazendo uma tira do Spirit. Foto: Will Eisner Studio, Inc.

Embora o nome de Eisner esteja inseparavelmente ligado ao personagem, The Spirit também contou com a colaboração de talentos extraordinários como Jules Feiffer, Jack Kirby, Lou Fine, Jack Cole e Wally Wood, artistas que ajudaram a enriquecer o universo do mascarado, muitas vezes sem receber o devido reconhecimento na época.


Darwyn Cooke.
Foto: DC Comics

Décadas depois, um outro artista conseguiu algo que parecia impossível: revisitar o personagem sem perder sua essência e produzir uma fase que muitos leitores consideram tão brilhante quanto a original. Este artista foi o saudoso Darwyn Cooke.

Após a morte de Will Eisner, em 2005, a DC Comics assumiu a licença de publicação de The Spirit e decidiu apresentar o herói a uma nova geração. O primeiro passo foi o especial Batman/The Spirit, escrito por Jeph Loeb e desenhado por Darwyn Cooke.







Pouco depois, veio a série regular, com roteiro e arte de Cooke, arte-final de J. Bone e cores de Dave Stewart. A série foi lançada no Brasil em 2008 pela Panini, que compilou em cinco revistas de 52 páginas (a última com 100 páginas), as 12 edições que Cooke fez para a DC.




Falecido em 2016, Darwyn era um admirador declarado de Eisner, mas teve a sabedoria de não tentar transformar Spirit em um super-herói moderno. Em vez disso, preservou a essência policial, pulp e noir que sempre definiu o personagem. Denny Colt continua sendo o mesmo investigador mascarado que patrulha Central City, cercado por figuras clássicas como o Comissário Dolan, Ellen Dolan, Ébano e uma galeria de mulheres fatais e criminosos excêntricos.





A experiência de Cooke na animação ajudou muito nesse resultado. Antes de se tornar um dos grandes nomes dos quadrinhos americanos, ele trabalhou na Warner Bros. Animation, participando de séries como Batman: The Animated Series, Superman: The Animated Series e Batman do Futuro. Nos quadrinhos, já havia conquistado prestígio com obras como DC: Nova Fronteira, Batman: Ego e Mulher-Gato. Seu traço elegante, cartunesco e cinematográfico parecia ter sido feito sob medida para o universo de The Spirit.





Splash page de abertura, por Will Eisner.


A cada edição, Darwyn Cooke presta uma série de homenagens diretas ao trabalho de Will Eisner. Por exemplo as splash pages de abertura. Assim como nas histórias clássicas, o título surge integrado aos cenários e aos elementos da narrativa, transformando a própria página em parte da composição visual. Na aventura inaugural, Cooke deixa claro que pretende respeitar a tradição, mas sem abrir mão da modernização. 







A trama acompanha o sequestro da apresentadora de televisão Ginger Coffee pelo Sr. Weinstock, conhecido pelos leitores brasileiros como Pílula. Ela consegue narrar secretamente seu drama por meio de uma ligação de celular que é transmitida ao vivo em um programa de televisão.

A partir daí, Cooke apresenta todos os elementos centrais da série: a criatividade de Spirit diante do perigo, a relação complicada com a polícia, o humor constante e a participação de Ébano, parceiro inseparável que assume o volante do icônico táxi amarelo usado nas fugas do herói.




Uma das qualidades mais evidentes dessa fase está justamente na forma como Cooke atualiza elementos que envelheceram mal ao longo das décadas. 

O melhor exemplo é Ébano Branco. Quando surgiu em 1940, o personagem seguia estereótipos raciais extremamente comuns na cultura americana da época. Sua aparência caricatural e seu modo de falar refletiam representações hoje reconhecidas como preconceituosas. Curiosamente, apesar desses problemas, Ébano nunca foi tratado como um personagem irrelevante por Eisner. Ele é corajoso, inteligente e decisivo para a resolução dos casos.




O próprio Eisner reconheceria décadas depois que o personagem era fruto de seu tempo e admitiria que faria mudanças caso o criasse novamente. Cooke levou essa reflexão adiante. Em sua versão, Ébano deixa de ser uma caricatura para se tornar um jovem afro-americano retratado com naturalidade, dignidade e personalidade própria. Sua importância para a narrativa permanece intacta, mas agora sem os elementos que tornavam a caracterização original problemática. É um exemplo de como atualizar um clássico sem apagar sua história.






O mesmo cuidado aparece na abordagem das personagens femininas. As mulheres sempre tiveram papel central em The Spirit, mas Cooke entende que elas precisavam ocupar um espaço maior do que simplesmente servir como interesses amorosos ou objetos de desejo.

P'Gell, por exemplo, mantém todo o charme e a sedução que a tornaram uma das personagens mais famosas da série, mas ganha novos contornos. Continua manipuladora, elegante e perigosa, porém também é apresentada como alguém capaz de controlar os acontecimentos ao seu redor. Mais do que uma femme fatale, torna-se uma personagem movida por objetivos próprios, como justiça.






Silk Satin segue caminho semelhante. Introduzida como agente secreta internacional, ela rivaliza com Spirit em competência e protagonismo. Em uma das histórias mais divertidas da série, os dois precisam sobreviver juntos enquanto atravessam um deserto algemados. Eles são vítimas de uma tramoia de Hussein Hussein, um personagem que tem ligações com o grande vilão de Spirit, o Octopus. Um gênio do crime com um detalhe curioso. Eisner nunca mostrou seu rosto, apenas suas luvas roxas, e Cooke mantém esse detalhe genial enquanto o vilão comanda seu império criminoso nas sombras. Mas guarda uma surpresa para o leitor na trama final...





Ellen Dolan talvez seja a personagem que mais ganha profundidade nas mãos de Cooke. O relacionamento com Denny Colt deixa de seguir a dinâmica tradicional do herói que salva a mocinha. Ellen é independente, inteligente e perfeitamente capaz de cuidar de si mesma. Em vários momentos, é ela quem salva outras pessoas, inclusive o próprio Spirit. Os diálogos entre os dois estão entre os melhores da série, equilibrando romance, humor e constantes provocações.







Na quinta edição, surgem mais dois vilões clássicos, o Cossaco e o Carniça, que sempre está acompanhado de seu abutre, Julia. O Carniça tem uma produção de feijão e usa a imagem de Spirit no rótulo sem permissão. Cooke mais uma vez traz a série para o presente fazendo a arte do rótulo em estilo mangá. Na sexta história Cooke nos traz uma história tocante sobre uma banda que acha um meteorito azul e começa a usá-lo como droga. Eles ficam azuis, se sentem bem, mas se tornam cada vez mais dependentes. É uma história ao melhor estilo Spirit onde o personagem surge poucas vezes e se envolve apenas em pontos chaves da trama.












Darwyn descansa na sétima edição que traz três histórias curtas. “Diamante de Amante” com roteiro de Walter Simonson com arte de Chris Sprouse. “Sincronicidade” com roteiro de Jimmy Palmiotti e desenhos de Jordi Bernet. E “Celebridades”, com roteiro e arte de Kyle Baker. As três não trazem o mesmo ritmo ou brilho da série de Darwyn Cooke, mas valem a curiosidade ao mostrar mais artistas interpretando o personagem.






Enquanto revisita os personagens clássicos, Cooke também constrói sua própria narrativa a longo prazo. O principal exemplo é Alvarro Mortez, personagem introduzido na releitura da origem de Spirit. O heróico detetive Denny Colt é dado como morto em uma ação policial, mas um tempo depois volta à vida em seu mausoléu. Colt conta ao Comissário Dolan que se manteve em animação suspensa devido ao contato com um produto químico. Revela que pretende se manter no anonimato e começa uma vida de combate ao crime. Assim como Spirit, Mortez, que estava junto à Colt durante o acidente químico, retorna da morte. A diferença é que ele volta como uma criatura sobrenatural capaz de comandar os mortos.









Ao longo das doze edições, Cooke desenvolve essa trama paralelamente às aventuras independentes, construindo um conflito que culmina nos capítulos finais da série. Mais do que uma simples história de zumbis, trata-se de uma narrativa sobre perda, ressentimento e relações familiares, especialmente na forma como Mortez se relaciona com sua mãe.






Mas, se existe uma história que resume tudo o que torna essa fase especial, ela está no encerramento da série. A última edição é dedicada a Sand Saref, personagem fundamental na mitologia de Spirit. Amiga de infância e primeiro amor de Denny Colt, Sand sempre representou o caminho que ele não seguiu. Enquanto ele escolheu a justiça, ela mergulhou no mundo do crime.






Cooke preserva toda a carga emocional dessa relação, mas amplia a complexidade da personagem. Sand continua sedutora e perigosa, porém nunca é reduzida ao papel de interesse romântico. Ela possui seus próprios objetivos, sua própria trajetória e sua própria força. Cooke reproduz nas cenas de flashback o estilo que Eisner trouxe para sua carreira anos após encerrar Spirit, em obras como O Edifício e Um Contrato com Deus. Com a trama se desenrolando em quadros que fogem do habitual. O resultado é uma homenagem elegante, respeitosa e profundamente emocionante.


Histórias de Cortiço - Cookalein
Avenida Dropsie

Um Contrato com Deus




Ao final da série, fica evidente por que essa fase é tão celebrada. Darwyn Cooke compreendeu que a melhor maneira de atualizar The Spirit não era reinventá-lo completamente, mas entender o que tornava o personagem especial desde o início.




Seu Spirit continua sarcástico, carismático, impulsivo e incrivelmente humano. Continua resolvendo problemas com inteligência, improviso e alguns bons socos quando necessário. Nas capas da série, um pequeno bullet define perfeitamente o que o leitor encontra aqui: "Ação, mistério e aventura". A descrição é correta, mas incompleta. A fase de Darwyn Cooke também entrega humor, emoção, personagens memoráveis e uma profunda admiração pela história dos quadrinhos.


Arte de uma edição publicada pela Image Comics em fevereiro de 2026 que reúne todas as edições de The Spirit com arte de Darwyn Cooke. Com exceção apenas da edição #7 da série regular que contém arte de outros artistas.

Homenagem a Will Eisner e Darwyn Cooke por Francesco Francavilla, na edição Will Eisner’s The Spirit: The Corpse-Makers (2018)

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