Eu nunca imaginei que aprenderia tanto sobre vinho, vida no campo e quadrinhos quanto com esses “ignorantes”. Na HQ "Os Ignorantes: Relato de duas iniciações", lançado no Brasil pela WMF Martins Fontes em 2014, o quadrinista Étienne Davodeau propõe uma troca de saberes com Richard Leroy, viticultor do Vale do Layon, na França, uma experiência que revela, com sensibilidade, como dois universos aparentemente distantes podem se enriquecer mutuamente.
Unidos pela curiosidade e pela disposição de aprender o desconhecido, os dois firmam um pacto: mergulhar no universo um do outro. A experiência se desenvolve como um verdadeiro laboratório humano e criativo. Leroy recebe Davodeau em seu vinhedo, enquanto o quadrinista conduz o enólogo pelo universo das HQs, uma arte até então inexplorada por ele.
Ainda que a proposta seja de uma troca equilibrada, a narrativa acaba sendo mais dominada pelo universo do vinho, algo compreensível diante da própria natureza do trabalho de Davodeau, que exige repetição e longas horas para a produção das 272 páginas desta HQ.
Esse protagonismo do vinho, no entanto, está longe de ser um problema. Pelo contrário: transforma a obra em um guia acessível e profundamente envolvente sobre o processo de produção vinícola ao longo de um ano inteiro. Da poda das videiras em janeiro até a colheita e fermentação, cada etapa é detalhada com clareza e sensibilidade.
Leroy revela-se um personagem fascinante. Altamente exigente em seu trabalho, surge como uma figura não apenas técnica, mas com uma grandiosa filosofia que sustenta seu trabalho. Considerado um produtor atípico dentro do setor, ele enxerga o vinho como algo que vai além de uma simples bebida alcoólica. Sua abordagem valoriza o processo, o território e a autenticidade, inserindo-se em um movimento mais amplo de renovação da viticultura, especialmente no Vale do Loire, região conhecida como “Jardim da França”.
Davodeau acaba construindo, com a ajuda de Leroy, uma introdução abrangente ao mundo do vinho, desmistificando sua linguagem frequentemente associada à elitização. Um exemplo marcante dessa abordagem surge na participação do produtor Jean-François Ganevat, que relativiza a obsessão por vinhos de longa guarda (vinhos que evoluem na garrafa por mais de 20 anos) ao afirmar preferir aqueles que proporcionam prazer imediato, ainda que por um período mais curto.
A honestidade é um dos pilares da obra que ao invés de apresentar o universo do vinho de forma idealizada, como frequentemente ocorre em produções sobre o tema, Os Ignorantes aposta na experiência real, com suas imperfeições e nuances. Davodeau bota a mão na massa, na terra pra falar a verdade e aprendemos tudo através de sua experiência real. Leroy, inclusive, destaca que foi justamente essa abordagem direta e despojada do quadrinho que permitiu capturar a essência humana do trabalho no campo.
Se o vinho ocupa o centro da narrativa, a incursão de Leroy pelo universo das histórias em quadrinhos também reserva momentos valiosos. Davodeau apresenta ao amigo alguns dos grandes nomes da nona arte europeia, como Jean-Pierre Gibrat (Matteo), Emmanuel Guibert (O Fotógrafo) e Marc-Antoine Mathieu (Prisioneiro dos Sonhos), além de contar com uma colaboração especial de Lewis Trondheim (Lapinot) na HQ.
As reações de Leroy às obras são particularmente interessantes por sua espontaneidade: ele não se conecta com as HQs de Lorenzo Mattotti (O Rumor da Geada), por exemplo, mas passa a apreciá-lo ao conhecer suas pinturas, uma mudança de perspectiva que revela a força do contato direto com diferentes formas de arte. Já com Moebius (Incal), essa conexão simplesmente não acontece.
Essa troca de impressões, sem filtros ou pretensões, reforça um dos maiores méritos de Os Ignorantes: seu tom acolhedor e genuinamente curioso. A obra não busca impor conhecimento, mas compartilhá-lo de forma orgânica, convidando o leitor a participar dessa jornada de descobertas. A arte de Davodeau, com seus traços elegantes e uso refinado de tons de cinza, contribui para essa imersão, oferecendo uma leitura visual fluida e agradável.
Outro aspecto central da narrativa é a valorização do tempo. Seja no amadurecimento de um vinho ou na formação de um olhar crítico, tudo exige paciência. Ao provar um vinho produzido durante sua própria experiência nas vinhas, um Anjou branco biodinâmico de 2010, Davodeau percebe que sua relação com a bebida mudou. Ainda que não possua o repertório de um especialista, ele se sente diretamente conectado ao resultado final, compreendendo, na prática, o caminho percorrido até chegar à taça.
Como toque final, a HQ apresenta uma lista dos quadrinhos lidos e dos vinhos degustados ao longo da experiência, ampliando o convite para que o leitor também explore esses universos. Entre eles está o Les Noëls de Montbenault 2010, vinho produzido durante o período retratado na obra e que, atualmente, alcança preços superiores a 200 libras (cerca de R$ 1.349) no mercado internacional.
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Os Ignorantes reafirma seu próprio título: trata-se de uma obra sobre ignorância no melhor sentido possível, aquela que impulsiona a curiosidade e abre espaço para o aprendizado. Ao registrar essa jornada com franqueza e sensibilidade, Davodeau não apenas documenta o universo do vinho, mas também oferece uma reflexão sobre o ato de aprender, errar e, sobretudo, experimentar.
O leitor acaba fazendo parte desse grupo de Ignorantes e sai da HQ com muito conhecimento. Os Ignorantes não é apenas uma HQ sobre vinho ou quadrinhos, mas sobre o prazer de aprender, compartilhar e descobrir novos mundos. Uma experiência que transforma um gole de leitura em algo memorável.
| Richard Leroy e Étienne Davodeau. Foto de Éditions Futuropolis |



















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