Omarginal!: quando a cultura local vira resistência e notícia

Leonardo Fraga
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Um jornal independente tem como principal compromisso o leitor e a realidade ao seu redor. Isso significa liberdade para investigar, questionar e publicar, mesmo quando os temas esbarram em interesses econômicos ou políticos da própria região.

À margem do que o grande público consome, muitas vezes por veículos com viés político, maior alcance e financiamento, inclusive público, o jornal independente ocupa um espaço essencial: o da autonomia. É nele que a sociedade encontra espaço para debater o que realmente importa, sem filtros, sem suavizações e sem a necessidade de atender conveniências externas.



É nesse contexto que surge Omarginal!. Um jornal independente que atua na região de Tubarão e Laguna, em Santa Catarina, com a proposta de dar visibilidade à cultura em suas mais diversas formas. Mais do que informar, o veículo se dedica a valorizar a arte, a literatura e a pluralidade de expressões, fortalecendo a identidade local. Temas que, com frequência, são relegados a notas de rodapé na grande mídia.



Entre essas expressões, os quadrinhos também encontram espaço. E é aí que entra o Tem Preguiça Não, convidado a integrar o jornal com uma coluna dedicada à nona arte. A estreia aconteceu na quinta edição, que trouxe como tema central “Sustentabilidade como expressão cultural”. Nela, o TPN destaca a HQ “Boca de Siri”, de Paulo Moreira, uma narrativa que mistura humor e fantasia para tratar do impacto ambiental causado pela expansão da orla de uma praia na Paraíba.



A matéria foi publicada no caderno “Margem Crônica”, que também reúne tiras de Luiz Simonetti e Idézio Jr., ampliando o diálogo entre crítica, narrativa e experimentação gráfica.


Fernando Faísca, editor do Omarginal! e Leonardo Fraga do Tem Preguiça Não.

Mas o alcance do Omarginal! vai além, principalmente pelo esforço do editor Fernando Faísca que faz, mantém e divulga o jornal nas mais diversas frentes. Assim, o jornal se aprofunda em temas que atravessam o tecido social das comunidades que cobre. Isso ganha evidência na capa e contracapa, com gravuras de Daniela Rinaldi, artista cuja trajetória é contada por Nathaly Julian no texto “O chamado das aves: arte, ciência e sustentabilidade”. Médica veterinária, Rinaldi transforma seu vínculo com as aves em arte por meio da xilogravura, gravura em relevo e linoleogravura.



A edição também traz reportagens e artigos que dialogam diretamente com desafios contemporâneos. Rai Berti discute o desperdício de alimentos como uma das grandes questões atuais, enquanto Silvana Silva, em “Cultura em sintonia com o mundo”, reflete sobre a importância de alinhar projetos culturais aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.



A Associação Comunitária Rural de Imbituba (ACORDI) ganha destaque em reportagem de João Pacheco de Souza, que aborda a valorização dos saberes tradicionais em um momento crucial para o município, às vésperas da definição de um novo Plano Diretor e sob forte pressão imobiliária.



Eduardo dos Santos Henrique revisita os 10 anos do Parque Linear de Tubarão, discutindo tanto sua importância para o bem-estar da população quanto o descaso do poder público e a baixa valorização por parte da iniciativa privada. A urbanização também entra em pauta no artigo “Para além da beleza”, de Bárbara V. Delgado e Georgios E. G. Anastasiadis, que propõem uma reflexão sobre a verticalização das cidades e a necessidade de espaços públicos de qualidade.



O meio ambiente aparece como eixo central em diversas matérias. A APA da Baleia Franca é abordada por Eduardo Delgado e Helder Remor de Souza como um território de resistência e convivência entre ecossistemas e comunidades. E o boto de Laguna é tema dos textos de Samira Effting e Arnaldo Russo, que analisam a relação histórica entre pescadores artesanais e o boto-pescador e questionam sua sustentabilidade nos dias atuais.



A edição ainda destaca o Festival Ocupa Arte Urbana, realizado em Laguna, e traz a tira “Exclamações Sociais de uma sociedade não tão sociável”, de Idézio Jr., em que capivaras refletem, com ironia, sobre o mundo ao seu redor.

Ativo também nas redes sociais e com site próprio, o Omarginal! reforça sua vocação colaborativa e independente. Livre de amarras corporativas ou de grandes anunciantes, o jornal abre espaço para uma diversidade de vozes e perspectivas, enriquecendo o debate público e fortalecendo a democracia em nível local.



Como todo veículo independente, sua existência depende do apoio direto dos leitores. E é justamente essa relação, mais próxima, mais transparente, que sustenta não apenas o jornal, mas a própria ideia de uma comunicação verdadeiramente livre.

Com distribuição gratuita, o jornal pode ser encontrado em diversos locais como na Casa Aurora em Laguna, ou na Biblioteca Pública de Imbituba.

Os leitores podem contribuir através do pix: redacao@omarginal.com.br




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