O Martírio de Joana Dark Side: Da fogueira ao feminicídio

Leonardo Fraga
por -
0

O mês de março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher, vai muito além de homenagem: é um momento de lembrar, refletir e encarar de frente histórias de mulheres que desafiaram o mundo ao seu redor, muitas vezes pagando caro por isso. Entre elas, se destaca a figura forte e simbólica de Joana d'Arc, uma personagem real cuja vida mistura fé, coragem e uma tragédia que ainda ecoa nos dias de hoje.

Realizada pelo quadrinista Wagner Willian (de Silvestre e Bulldogma), a HQ “Martírio de Joana Dark Side”, lançada em 2018 pela Editora Texugo, parte justamente dessa inquietação. A obra revisita os últimos dias de Joana com base no filme A Paixão de Joana d'Arc, dirigido por Carl Theodor Dreyer, mas não se limita a adaptar: ela provoca, distorce e questiona. Em vez de contar toda a trajetória da santa, Wagner recorta o julgamento, um dos episódios mais documentados da história e reconstrói esse momento sob outra perspectiva, mexendo principalmente no desfecho.




O autor não aceita passivamente o final trágico de Joana. Em entrevistas, ele deixa claro que a motivação de fazer este quadrinho veio também do presente. Em um cenário em que os casos de feminicídio continuam crescendo e se tornando parte assustadoramente comum das notícias, a história de Joana deixa de ser apenas um episódio medieval e passa a soar como algo muito atual. A execução dela, no século XV, não foi só política ou religiosa, foi também a punição de uma mulher que ousou sair do lugar que lhe foi imposto.




Para Wagner, Joana não é só mártir: é símbolo. E mais do que isso, é uma mulher que, na HQ, ganha a chance de reagir. A ideia de reescrever o final não é gratuita, é quase um grito contra a repetição histórica da violência. Se lá atrás ela foi silenciada pelo fogo, hoje outras tantas mulheres continuam sendo silenciadas de formas diferentes, mas igualmente brutais.

 



O martírio das Joanas


A HQ amplia o olhar ao estabelecer um paralelo entre o martírio de Joana e o da atriz Renée Jeanne Falconetti (creditada também como Maria Falconetti), protagonista do filme de 1928. Falconetti ficou marcada por uma atuação intensa e visceral que marcou a história do cinema. Resultado de um processo de filmagem extenuante conduzido por Dreyer, que buscava extrair o máximo de realismo emocional. O quadrinho incorpora essa dimensão ao retratar também os bastidores dessa entrega artística, incluindo o próprio diretor como uma figura simbólica entre os algozes. A atuação de Falconetti resultou em um trabalho revolucionário, porém com sérios danos psicológicos à atriz, que nunca mais voltou a atuar em um filme.




Renée Jeanne Falconetti tinha 32 anos quando atuou como Joana D'arc.

Para entender o peso disso tudo, vale lembrar quem foi Joana d’Arc. Nascida na França do século XV, em plena Guerra dos Cem Anos, ela era uma jovem camponesa que dizia ouvir vozes divinas. Em uma época em que mulheres não tinham espaço nem na política nem na guerra, ela simplesmente atravessou todas essas barreiras. Vestiu armadura, liderou tropas francesas e foi peça-chave na libertação de Orléans. Virou símbolo de esperança. Mas também virou alvo.




O problema nunca foi só a guerra, foi o fato de ser uma mulher ocupando um espaço proibido. Capturada, Joana foi julgada por um tribunal eclesiástico formado por homens, membros da Igreja Católica. Seu processo foi cheio de interesses políticos, manipulações e, principalmente, medo. Medo do que ela representava. Em 1431, aos 19 anos, foi condenada à fogueira. Um martírio que, olhando hoje, carrega todos os sinais de uma punição exemplar contra uma mulher que ousou demais.


Entrada de Jeanne d'Arc à Orléans, de Jean-Jacques Scherrer (1887)

A força do Dark Side




A HQ de Wagner, visualmente, recria quase quadro a quadro o filme de 1928: os rostos, os closes intensos, o olhar desesperado e ao mesmo tempo desafiador da atuação de Falconetti. Mas o autor também insere novos diálogos, novas situações e assume um papel crítico: ele não está apenas reproduzindo a história, está questionando quem a contou e como ela foi construída.




O quadrinho, com suas 76 páginas, ainda dialoga com outras obras, como O Processo de Joana d'Arc, de Robert Bresson, além dos próprios registros do julgamento. Mas o diferencial está na liberdade que o formato permite: Wagner expande, recria e dá novas camadas a algo que parecia já definido pela história. E talvez o ponto mais incômodo e necessário esteja justamente nessa conexão com o presente.



Da fogueira à estatística





Joana d’Arc foi julgada por suas roupas, por seu cabelo, por sua postura, por não se comportar como esperavam de uma mulher. Foi chamada de herege e bruxa. Séculos depois, o discurso muda de forma, mas não de essência. Mulheres continuam sendo julgadas, controladas e, em muitos casos, mortas por romperem expectativas impostas. O feminicídio, hoje, é a face mais brutal dessa mesma lógica.




Nesse sentido, o martírio de Joana deixa de ser apenas um fato histórico e passa a ser um espelho desconfortável. A fogueira virou estatística, mas a raiz do problema continua ali: a violência contra mulheres que ousam existir fora do lugar que lhes foi designado.



Ao subverter o final, (ressaltando aqui, um final espetacular!) Wagner Willian faz mais do que uma releitura, ele propõe uma ruptura. Questiona a ideia de que certas histórias precisam terminar em tragédia (para o lado da mulher). E, principalmente, sugere que talvez já tenha passado da hora de mudar o roteiro.




Relembrar Joana d’Arc não é só revisitar o passado. É olhar para o presente com mais atenção. É perceber que a história dela não acabou, ela só mudou de cenário. E talvez o mais importante seja isso: entender que ainda existem muitas Joanas por aí. Algumas resistindo. Outras sendo silenciadas. E todas merecendo, no mínimo, não ter o mesmo destino.

 


O autor está relançando a HQ com o nome "Ode à Joana Dark Side", que está em pré-venda exclusiva na loja Comic Boom. A edição agora conta com 128 páginas, nova capa, novos diálogos e novas artes. A edição está sendo publicada pela Gengibre Editora, antiga editora Texugo de Wagner.



Postar um comentário

0Comentários

Vamos lá pessoal. Sua opinião é muito importante. Tem Preguiça Não de comentar.

Postar um comentário (0)