Gonzo: a vida caótica de Hunter S. Thompson em quadrinhos

Leonardo Fraga
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Poucos jornalistas foram tão difíceis de explicar e ao mesmo tempo tão impossíveis de ignorar quanto Hunter S. Thompson. Criador do chamado Jornalismo Gonzo, ele transformou a reportagem em algo visceral, subjetivo e perigoso, onde o repórter não apenas observa a história, mas se joga dentro dela como um personagem principal.

Em 2010, essa trajetória turbulenta ganhou uma versão em quadrinhos: Gonzo: A Graphic Biography of Hunter S. Thompson. Publicada pela Abrams ComicArts, a HQ foi escrita por Will Bingley e ilustrada por Anthony Hope-Smith. Com cerca de 180 páginas, a obra continua inédita no Brasil, mas para quem ama jornalismo e a obra de Thompson, não resisti e fui atrás dela.



Mas é preciso deixar algo claro sobre esta HQ: não há espaço para uma biografia minuciosa. Em vez disso, Bingley constrói algo mais próximo de uma narrativa febril, como se o próprio Thompson estivesse contando sua história, com o mesmo ritmo frenético e as mesmas distorções de perspectiva que marcaram seu estilo.

O resultado é o retrato de um gênio apaixonado e rebelde que arrancou rápido demais no início de uma corrida de longa distância. Um homem que explodiu criativamente muito cedo e passou as décadas seguintes convivendo com o peso do próprio comportamento autodestrutivo.




O jornalismo que virou um estilo de vida


O chamado Jornalismo Gonzo surgiu nos anos 1970 como uma ruptura radical com a ideia de neutralidade jornalística. No gonzo, o repórter abandona a distância profissional e mergulha de cabeça na história, escrevendo em primeira pessoa e misturando observação, exagero, humor ácido e experiências pessoais.



A origem do termo gonzo tem diversas versões, uma delas é de que a palavra é uma gíria da Irlanda usada para designar o último homem que acaba em pé em uma bebedeira. O jornalista que batizou este estilo foi Bill Cardoso, que utilizou “gonzo” em referência a um texto de Hunter Thompson.


Hunter S. Thompson e Oscar Zeta Acosta. A passagem deles por Las Vegas (1971) rendeu a história do livro Medo e Delírio em Las Vegas

Há uma discussão acadêmica em torno do gonzo que coloca em discussão o seu valor para o jornalismo. Para muitos, o estilo não é objetivo, é parcial demais e ignora todas as regras sérias do jornalismo. Apesar disso, o estilo tem seguidores até hoje e entre outros aspectos, o gonzo é a porta de entrada de jovens estudantes para o jornalismo investigativo.



Gonzo +  Thompson: Feitos um para o outro


Hunter vivia ultrapassando limites. Trapaceava, mentia, bebia, se drogava e ainda assim produzia textos que pareciam mais literatura do que reportagem. Uma mistura explosiva de observação social, crítica política e caos narrativo. Seus textos conquistaram leitores em todo os Estados Unidos, mas também criaram uma legião de inimigos.



A HQ reflete esse espírito. A biografia é tão áspera e direta quanto o próprio trabalho do jornalista. Não poupa ninguém, principalmente o próprio biografado. A narrativa utiliza diálogos reais e trechos retirados dos textos de Thompson. Na maior parte do tempo, busca reconstruir os fatos com certo realismo, especialmente quando apresenta seus pensamentos rápidos, criativos e suas opiniões afiadas sobre a política e a sociedade americana.

Em alguns momentos, no entanto, a obra também parece beber diretamente da estética da adaptação cinematográfica de “Medo e Delírio em Las Vegas (1998), dirigida por Terry Gilliam e estrelada por Johnny Depp, amigo pessoal de Thompson.

 

Benício Del Toro e Johnny Depp no filme Medo e Delírio em Las Vegas.


Uma vida em velocidade máxima


A leitura flui rapidamente, alternando entre humor e o terror existencial que acompanhou a vida de Thompson. A história começa em Louisville, onde ele passou a juventude e chegou a ser preso ainda nos anos 1950. A partir daí, o quadrinho acompanha suas aventuras que o levariam a se tornar uma figura central no jornalismo americano.



Mostra o período em que viveu em Porto Rico, onde escreveu seu primeiro romance, “Rum: Diários de um jornalista bêbado”. Quando escreveu o artigo esportivo: "O Kentucky Derby é Decadente e Depravado" sobre uma famosa corrida de cavalos realizada desde 1875 em sua cidade natal, Louisville. O artigo, que mistura crítica social e grotesco humano marcou o nascimento do "jornalismo gonzo".



Após trabalhar em vários veículos de comunicação e ser demitido, Thompson foi contratado pela revista Rolling Stone, a maior porta-voz da contracultura nos Estados Unidos. Seu artigo de estreia foi sobre sua campanha para se eleger xerife da cidade de Aspen, no Colorado, famosa pelas pistas de esqui e frequentada pelos ricos e famosos. Ele concorreu pelo partido “Freak Party” e entre suas propostas estava a descriminalização do uso de drogas na cidade e a transformação de todas as ruas da cidade em ciclovias. Ele perdeu a eleição por poucos votos.



Na Rolling Stone, em 1971 ele publica uma série de artigos que viria a se tornar seu livro mais famoso: “Medo e Delírio em Las Vegas: Uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano.” Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa de seu alter ego, Raoul Duke, que viaja até a famosa “Cidade do Pecado” para cobrir uma corrida de motocross e uma convenção de promotores públicos sobre drogas, em companhia do bizarro advogado samoano Dr. Gonzo (inspirado no advogado mexicano Oscar Zeta Acosta). O resultado foi uma jornada de autonhecimento e conexão espiritual em busca do Sonho Americano.



A HQ também não foge das passagens mais sombrias. Um dos episódios retratados é a convivência de Thompson com o grupo de motociclistas Hells Angels, experiência que resultou no livro Hell's Angels e também em ameaças e inimizades duradouras.

Hunter escreveu suas matérias em um dos períodos mais turbulentos da história recente dos Estados Unidos: a Guerra do Vietnã, o Assassinato de John F. Kennedy e o Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos. Nesse contexto, Thompson se transforma em um correspondente político radical. Seus ataques constantes ao governo de Richard Nixon ajudam a consolidar sua reputação de jornalista perigoso e absolutamente imprevisível.



Durante o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, Thompson mergulhou completamente na cultura de festas, drogas e excessos, vivendo quase como uma estrela do rock. Para muitos marginalizados, ele se tornou um herói. Para quem estava próximo, tornou-se uma pessoa cada vez mais difícil de conviver.


Um retrato sem glamour




Uma das maiores qualidades da HQ está na arte de Anthony Hope-Smith. Seus desenhos em preto e branco são crus e angulosos, evitando qualquer tentativa de glamourizar a vida caótica do jornalista. Busca ser realista mas ao mesmo tempo não abandona a ideia de que se trata de um quadrinho, com um traço mais econômico e simples, especialmente em alguns cenários. Hope-Smith consegue evidenciar através de seus desenhos o desgaste emocional e físico de Thompson ao longo dos anos.





Ao usar o próprio Thompson como guia narrativo, a HQ cria momentos de inesperado calor humano ao mostrar acontecimentos íntimos do jornalista. O livro se concentra principalmente nos anos 1970 e vai até seu suicídio em 2005, que na HQ é apenas sugerido, e felizmente não mostrado. 

O restante de sua vida, as décadas de 1980, 1990 e 2000 é tratado em apenas algumas páginas, mostrando o declínio do escritor sob o domínio das drogas e do álcool, bem como sua incapacidade de recuperar a energia e o entusiasmo que marcaram seus livros mais famosos. Infelizmente Thompson perdera a relevância em um mundo onde valores mudavam rapidamente e ele próprio se recusava a mudar.



Como norte-americano, Thompson tornou-se ao mesmo tempo um fora da lei, um fanático por mudanças radicais e um arauto de um futuro pouco ortodoxo para o país. Sempre mergulhava suas palavras em veneno e apontava diretamente para aqueles que desprezava. Ninguém escapava da fúria de seu texto, especialmente aqueles que oprimiam os que defendiam suas próprias liberdades, valores e objetivos pessoais. O jornalista mantinha uma atitude de “não dou a mínima para quem se importa” e isso fazia parte do rolo compressor que era Hunter S. Thompson.




Gonzo é uma HQ que tenta humanizar um homem que passou a vida tentando transcender o que um ser humano pode fazer consigo mesmo, tanto em sua arte e ofício quanto em sua personalidade, ao mesmo tempo generosa e egoísta. É um bom resumo de um dos escritores mais interessantes do século XX, mas está longe de ser abrangente e tampouco dá ao leitor uma verdadeira noção do gênio presente nas palavras de Hunter Thompson. 



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