4 Aventuras de Spirou e Fantasio: Primeiros Passos de um Clássico Europeu

Leonardo Fraga
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Quando se observa a longa trajetória de “Spirou e Fantasio”, é fácil esquecer que grandes séries não nascem prontas. “4 Aventuras de Spirou e Fantasio”, publicado no Brasil pela SESI-SP Editora em 2016 funciona justamente como um registro desse estágio intermediário: um momento em que André Franquin ainda experimenta caminhos narrativos, mas já deixa claro os traços de genialidade que definiriam sua carreira.

"Espirrú"



O álbum reúne quatro histórias curtas originalmente publicadas entre 1948 e 1950 no “Le Journal de Spirou”, revista semanal belga que desempenhou papel fundamental na consolidação dos quadrinhos franco-belgas. Naquele período, Spirou já não era apenas o camareiro criado por Rob-Vel (Robert Velter), em 1938, mas um personagem em processo de transformação e crescimento. A entrada de Fantasio, em 1944, e, principalmente, a chegada de Franquin, marcaram a virada definitiva da série rumo a narrativas mais elaboradas, dinâmicas e visualmente ousadas.



Embora ainda distante das grandes sagas que tornaria a dupla de personagens famosa, essas histórias revelam Franquin,  autor fascinado pelo movimento, pela comédia física e pela narrativa visual cinematográfica. Franquin desenha como quem pensa em animação: perseguições, lutas e quedas são encenadas com fluidez e precisão, explorando ao máximo o espaço da página. O ritmo é rápido, direto, pensado para prender o leitor em poucas páginas, característica essencial para uma história publicada semanalmente.


Quando Franquin deixou a série principal de Spirou e Fantasio em 1969, ele se concentrou em suas próprias criações, especialmente na engraçadíssima Gaston Lagaffe e no personagem Marsupilami. Além de criar a aclamada, porém sombria, série Idées Noires.


“Andrré Frrãn ken”

A série principal de Spirou e Fantasio conta com 59 álbuns e 4 Aventuras de Spirou é o terceiro volume encadernado da longa trajetória do personagem. A SESI-SP trouxe apenas 11 álbuns da série clássica, a maioria escrita e ilustrada por André Franquin. Além desses, a editora trouxe quatro volumes da série “O Spirou de...”, onde os personagens foram reinterpretados por outros artistas como Yann, Emile Bravó e Schwartz. A editora com o tempo encerrou suas atividades no mercado de quadrinhos.

O Le Journal de Spirou era publicado pela Dupuis semanalmente com oito páginas e trazia histórias curtas de humor e histórias seriadas de diversos personagens. Por isso em 4 Aventuras de Spirou temos um padrão nas páginas, com 15 quadros que variam muito pouco.



“Fantá-sio”

Franquin seria um dos principais autores a se afastar do estilo da linha clara de Hergé (Tintim) popularizando a escola de Marcinelle, mais dinâmica e cartunesca. A arte prioriza a clareza da ação e o timing das piadas, algo essencial para histórias curtas que precisam conquistar o leitor rapidamente. Mesmo com soluções gráficas simples, há inventividade suficiente para manter o interesse do começo ao fim.

Mas o roteiro e alguns desenhos ainda são presos a estereótipos colonialistas especialmente em histórias com personagens negros, os desrespeitando aos olhos de hoje.



                                                                                                                        

Spirou e o Projeto do Robô (Les Plans du Robot)

Journal de Spirou - Números 522 à 540, 1948.

Quatre aventures de Spirou et Fantasio, 1950.

A primeira história é centrada em um projeto de robô cobiçado por criminosos e deixa claro que o roteiro ainda serve mais como suporte para a ação, do que como estrutura dramática sólida. Spirou, Fantasio e o esquilo Spip tentam impedir que os planos de um robô criado pelo professor Samovar, caiam nas mãos de criminosos interessados em dominar o mundo. Na trama, os planos são destruídos logo no início, mas várias perseguições de carros movimentam toda a história com muitas cenas de humor e acidentes.



A arte ágil e a narrativa cinematográfica fazem o roteiro se desenvolver muito bem, com uma sucessão de gags físicas e piadas bobas. O enquadramento, movimentação e as piadas lembram muito animações como as de Walt Disney, do qual Franquin era muito fã.

A lógica narrativa é frágil, e o desfecho soa apressado, mas a sucessão de gags visuais e a encenação das perseguições compensam as falhas. Aqui, Franquin parece mais interessado em testar soluções gráficas do que em construir um conflito memorável.

 



Spirou no Ringue (Spirou sur le Ring)

Journal de Spirou -  Números 541 à 566. Agosto de 1948 a Fevereiro de 1949.

Esse desequilíbrio entre forma e conteúdo começa a se ajustar em “Spirou no Ringue”, a melhor história das quatro. Spirou enfrenta o Peloduro, personagem que antecipa o futuro Zantafio, antagonista clássico da série. Após um desafio quase aleatório, Spirou aceita enfrentar o rival em uma luta de boxe, iniciando um período de treinamento acompanhado por Fantasio.



Embora o início ainda carregue certa ingenuidade e aleatoriedade narrativa, a história rapidamente ganha fôlego. O leitor passa a acompanhar atentamente a preparação dos lutadores, se envolvendo emocionalmente com o conflito, especialmente diante da violência de Peloduro contra as crianças da escola.



O segundo ato é puro entretenimento. Franquin demonstra domínio absoluto do ritmo, da passagem do tempo e da organização dos múltiplos núcleos que convergem para os dez assaltos da luta. O humor surge na medida certa, sem excessos, e a linha moral trabalhada pelo texto é clara e eficaz. É impossível não torcer, não se engajar e não esperar ansiosamente pelo desfecho.



Spirou Monta a Cavalo (Spirou fait du Cheval)

Journal de Spirou -  Números 567 à 574. 1949.

Aqui Franquin aposta em uma comicidade mais leve e absurda. Fantasio surge logo cedo vestido como um cavaleiro elegante, adotando um vocabulário afetado que denuncia sua tentativa de ostentar status. O humor nasce desse contraste e se intensifica quando Spirou aluga um cavalo descrito como um híbrido improvável entre camelo e cavalo de pau.

O animal, distraído, guloso e imprevisível, é o verdadeiro motor da narrativa. Suas ações geram situações cômicas e consequências desastrosas, inclusive financeiras, para Spirou. É um exercício de humor puro, rápido e eficaz, que reforça a afinidade de Franquin com personagens e criaturas de comportamento exagerado, algo que mais tarde encontraria plena realização no Marsupilami.



Spirou na Terra dos Pigmeus (Spirou chez les Pygmées)

Journal de Spirou -  Números 589 à 616. 1949.

Esta é a história mais ambiciosa e, ao mesmo tempo, a mais problemática. O pano de fundo colonial e a forma como os habitantes da ilha fictícia são representados revelam estereótipos hoje difíceis de ignorar, escancarando os limites ideológicos de sua época.



Na primeira parte, Spirou adota quase à força, um leopardo fugitivo. Esse trecho é excelente: divertido, inventivo e repleto de boas situações cômicas, como a necessidade de comprar quilos de carne para o animal e as constantes reclamações da dona da pensão, que muda a espécie do bicho a cada frase.



O segundo ato é ambientadado na fictícia ilha de Lilipanga, a cerca de 60 km da costa oeste da África. Spirou e Fantasio são nomeados, respectivamente, ministro e secretário de um imperador branco, retratado como um colonizador paternalista e “bonzinho”. A ilha é dividida entre dois grupos de Pigmeus: os habitantes “marrons” e os “pretos”, duas etnias negras com diferentes tonalidades de pele que disputam território.



O ponto mais delicado é a resolução do conflito: Spirou e Fantasio descobrem que bastaria lavar com sabão os habitantes mais escuros para “retirar” o preto da pele e se tornarem marrons, cor esta dos habitantes bonzinhos da ilha.

Mesmo considerando o contexto histórico da publicação, a metáfora visual e textual causa incômodo. Franquin critica certos aspectos da colonização, como a exploração e a venda de armas, mas acaba reforçando estereótipos ao tratar a população local como crianças grandes que precisam ser conduzidas pelos “mocinhos” brancos. A representação gráfica, com lábios exageradamente grossos e rosados, segue um padrão infelizmente comum para a época nos quadrinhos e animações.



O desconforto que a história provoca não invalida sua leitura, mas exige distanciamento crítico e contextualização histórica. Como o próprio percurso cultural nos ensina: só sabemos para onde vamos quando entendemos de onde viemos.



Um álbum de transição

Mais do que um conjunto de histórias isoladas, “4 Aventuras de Spirou e Fantasio” deve ser lido como um “álbum de transição”. Nele, convivem o improviso juvenil e os primeiros sinais de maturidade artística. O desenho ainda busca identidade, os roteiros oscilam em qualidade, mas o talento de Franquin já se impõe com clareza, especialmente no domínio do ritmo, do humor visual e da expressividade dos personagens.

A publicação da SESI-SP, ao trazer esse material ao público brasileiro, cumpre um papel importante: permite acompanhar o nascimento de uma linguagem que influenciaria gerações de autores. Não é uma obra-prima acabada, mas um documento essencial para entender como Spirou e Fantasio deixaram de ser apenas personagens simpáticos para se tornarem um dos pilares dos quadrinhos europeus.




Abaixo está a sucessão dos principais artistas (argumentistas e/ou desenhistas) que trabalharam nas aventuras de Spirou, em ordem cronológica da série principal:



Rob-Vel (Robert Velter): Criador original do personagem Spirou, desenhou as primeiras tiras a partir de 21 de abril de 1938. Vendeu os direitos à editora Dupuis em 1943.



Jijé (Joseph Gillain): Assumiu a série em 1943, introduzindo o personagem Fantásio. Jijé foi mentor de Franquin.



André Franquin: Um dos artistas mais influentes e aclamados da série, assumiu a responsabilidade em 1946. Franquin expandiu significativamente o universo de Spirou, criando personagens icônicos como o Marsupilami e Zorglub, e definiu o estilo visual da série por muitos anos.



Jean-Claude Fournier: Assumiu a série em 1969, após Franquin se concentrar em outras criações (como Gaston Lagaffe). Fournier deu continuidade à série até 1980.


Nic & Cauvin (Alain de Kuyssche/Raoul Cauvin e Jean-Marc Kéramidas): Uma breve passagem pela série no início dos anos 80, que não teve grande continuidade.



Tome & Janry (Philippe Tome e Jean-Richard Geurts): A dupla revitalizou a série a partir de 1984, trazendo um estilo mais moderno e popular.



Morvan & Munuera (Jean-David Morvan e José Luis Munuera): Assumiram a série em 2004, trazendo uma nova abordagem visual e narrativa.



Yoann & Vehlmann (Yoann Chivard e Fabien Vehlmann): Sucederam Morvan e Munuera, assumindo a série principal em 2009 e continuando a produzir álbuns.



Sophie Guerrive & Benjamin Abitan: A equipa criativa mais recente, assumiu a série em 2022.

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