Poucas séries de faroeste conseguiram alcançar o equilíbrio raro entre aventura popular, densidade literária e consciência histórica como Ken Parker. Criada por Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, a HQ até pode ter nascido com cara de western clássico, mas desde o começo deixou claro que estava interessada em algo muito maior do que tiroteios e paisagens do Velho Oeste. Ken Parker sempre enxergou a fronteira americana não como um mito heroico e limpo, mas como um lugar cheio de contradições humanas e sociais, onde cada viagem do protagonista acaba virando uma reflexão sobre justiça, violência, sobrevivência e, principalmente, sobre gente comum tentando viver em tempos brutais.
A edição número #58, publicada originalmente em 1977 como “Sciopero” (“Greve”), chegou recentemente ao Brasil pela Editora Mythos em Ken Parker n. 29, com o título “Estado de Greve”. A edição é dupla e conta também com a edição #57 O Sicário. "Greve" já foi publicada em 2006 pela Editora Tapejara.
Para muitos leitores, esse é simplesmente o ponto mais alto de toda a série: uma história que ultrapassa o gênero western e se firma como uma das grandes joias do quadrinho europeu. Mais do que isso, é a narrativa que muda tudo na trajetória de Ken, porque é a partir daqui que ele deixa de ser alguém que colabora com a justiça e passa a ser um homem perseguido por ela.
Berardi e Milazzo praticamente abandonam os códigos tradicionais do faroeste para mergulhar num drama urbano, político e social. E essa ambição já está estampada logo na capa: Milazzo se inspira diretamente em “O Quarto Estado” (Il Quarto Stato), do pintor italiano Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868–1907), uma das imagens mais famosas da marcha operária. É como se o álbum avisasse desde o início que não estamos mais no Oeste dos cowboys, mas no coração da luta de classes.
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| “O Quarto Estado” (Il Quarto Stato), de Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868–1907) |
Parker e a claustrofobia fabril
Ken está em Boston, tentando
ficar mais próximo do filho, Ted Parker, e acaba se empregando como operário na
tecelagem J. Troust & Co. Textile Mill, buscando algum tipo de
estabilidade. Só que, mais adiante, descobrimos que esse emprego tem outro
propósito: Ken está atuando como agente infiltrado de uma agência de detetives,
contratado para identificar e denunciar líderes sindicais ao dono da fábrica, o
senhor J. Troust. Praticamente um Ebenezer Scrooge (de Um Conto de Natal, de
Charles Dickens) industrial. Um burguês frio, implacável, capaz de esmagar movimentos
trabalhistas e dramas pessoais com a mesma indiferença.
A narrativa expõe com dureza o cotidiano exaustivo dos trabalhadores, o desamparo social e a engrenagem brutal do capitalismo industrial do século XIX. Ken simplesmente não consegue permanecer neutro diante do que testemunha e Berardi e Milazzo constroem esse retrato com um realismo impressionante, mostrando como a miséria aparece nos detalhes: sapatos destruídos, mãos feridas pelo frio, filas intermináveis de gente buscando emprego, rostos marcados pela fome e pelo cansaço.
Milazzo transforma tudo isso em imagens de impacto extraordinário. Ele usa enquadramentos fragmentados e quase “sonoros”, porque o leitor sente o ruído constante da fábrica atravessando as páginas, aquele “TUM-TUM-TUM” das máquinas que parece uma presença opressiva e claustrofóbica, como se a própria indústria fosse um monstro respirando.
Entre os momentos mais duros e emblemáticos do álbum está a sequência em que uma operária, exausta, se afasta por instantes durante o trabalho e é atacada por um capataz que tenta violentá-la. Milazzo constrói a cena sem qualquer exploração gratuita: ele foca no terror do olhar da vítima e na maneira como aquela violência é apenas uma extensão “natural” daquele sistema de opressão. É um dos ápices artísticos do desenhista e também da escrita de Berardi, que consegue gerar emoção intensa sem nunca perder a dignidade do drama humano.
Personagens com almas boas e ruins
Ao longo da história, surgem
personagens secundários que enriquecem ainda mais o retrato social. Temos o
jornalista Winton, socialista ligado ao jornal The Worker, além da paranoia
repressiva constante que aparece na xenofobia contra imigrantes alemães
acusados de “agitadores comunistas” e nas tentativas de incriminar
trabalhadores com explosivos plantados como desculpa para justificar a
violência policial.
Outro personagem importante é o padre O’Hara, religioso abnegado que inspira e colabora com a comunidade, mas acaba sendo transferido para o interior justamente para não atrapalhar a máquina corrupta de Troust, grande doador de recursos para o bispo de Boston. Paralelamente, surge também o drama familiar do industrial: sem aprovação do pai, o filho de Troust, Christopher, se envolve com Elizabeth Donell, que morre atropelada na Market Street ou melhor, é assassinada para encerrar o romance inconveniente.
A dimensão política do álbum se explicita ainda mais quando Ken aparece lendo O Capital, de Marx, e comenta com pragmatismo que um livro sobre trabalhadores deveria ser compreensível aos próprios trabalhadores. Seu companheiro responde que a luta existe justamente para que, no futuro, os filhos dos operários possam estudar e entender qualquer conceito sem barreiras. Nesse ponto, Ken conecta essa ideia de união coletiva à sua experiência no Oeste, lembrando que, se as tribos indígenas tivessem se unido contra os brancos em vez de guerrearem entre si, talvez não tivessem sido condenadas às reservas e à servidão.
O “fantasma do comunismo” é evocado por Alec Brown, da agência de detetives com a qual Parker colabora, inimigo que, segundo ele, precisa ser combatido. Com meses de investigação nas costas, longe do filho e cada vez mais desconfortável diante de tanta injustiça, Ken pede para abandonar o caso, mas é convencido a continuar. Mas quando a direção da fábrica decide reduzir os salários em 25%, sob a desculpa de evitar demissões, o estopim da greve finalmente explode.
Quando tudo muda
A grande virada da história é
devastadora. Ken Parker, tradicionalmente um herói humanista e defensor dos
oprimidos, é descoberto no papel do “rato” infiltrado entre os trabalhadores. O
conflito ético alcança seu clímax, mas Ken ainda tenta impedir o confronto
entre polícia e grevistas antes da grande manifestação operária.
O desfecho é inevitavelmente trágico. A polícia ataca com intenção de matar, a greve vira carnificina e, ao tentar salvar uma criança, Ken acaba matando um policial. Esse ato o condena à fuga e, mais tarde, à prisão, inaugurando uma das fases mais dolorosas de sua trajetória.
O álbum termina com um adeus profundamente comovente a Belle, a amiga que cuida do filho de Parker, em um momento de ruptura que reforça a dimensão humana do protagonista. Após se despedir, Ken retorna ao Oeste selvagem de onde veio, depois de fracassar na tentativa de encontrar paz dentro dos limites da civilização industrial.
Sob a imagem final, lê-se a única
dedicatória de toda a série:
“Ao Davide Morando, em memória do pai Giancarlo e do seu irmão Andrea, perdidos no incêndio do Cinema Statuto de Torino.”
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| Infelizmente a dedicatória foi suprimida na edição da Mythos (abaixo). Na Edição da Tapejara foi mantida (acima). |
Berardi e Milazzo deixam claro que os conflitos de classe retratados em "Greve" não pertencem apenas ao passado. Em entrevista a Michele Ginevra, em 1992, Berardi contou que escreveu “Greve” num momento em que fábricas da Ligúria estavam fechando e os trabalhadores pareciam perder sua identidade histórica. Ele queria uma história que lembrasse o significado das lutas do início do século, e afirmou ter recebido muitas cartas e telefonemas de leitores impactados.
Estilo, referências e inovação
Embora profundamente realista, o
desenho de Milazzo nunca busca apenas reproduzir a realidade. O objetivo é
sempre emocional: sugerir atmosfera, peso, sufocamento. A tecelagem, com seu
emaranhado de máquinas e engrenagens, vira quase um labirinto opressor. As
onomatopeias crescem conforme a tensão social aumenta, até culminarem no
confronto final.
A caracterização dos personagens é exemplar e simbólica. O funcionário que seleciona operários parece um burocrata cruel. O guarda da fábrica tem feições quase animalescas. Troust surge impecável, austero, sempre acima dos outros. Já os trabalhadores aparecem envelhecidos, malvestidos, marcados pela miséria.
Milazzo vai ainda mais longe ao associar hábitos e objetos à posição social: Troust fuma charutos caros, o chefe da agência usa cachimbo, operários fumam cigarros comuns, enquanto um capataz violento ostenta uma elegante piteira. Cada detalhe visual reforça a hierarquia de classes.
Graficamente, “Greve” marca também um momento de transição no traço de Milazzo: o preto pesado dá lugar a linhas mais soltas e delicadas, aproximando-se da poesia visual de Hugo Pratt. Há páginas inteiras sem texto que comunicam o conflito interno de Ken de maneira devastadora apenas com enquadramento e silêncio.
Uma obra única nos quadrinhos
“Greve” não é apenas um dos
melhores episódios de Ken Parker. É uma das grandes obras do quadrinho social
europeu, mostrando como uma série popular pode alcançar estatuto literário ao
confrontar diretamente exploração, violência e desigualdade.
O álbum continua indispensável, especialmente para quem quer entender por que Ken Parker é, acima de tudo, um personagem que atravessa a aventura para encontrar a História.
Outra informação suprimida na edição da Mythos está na própria capa. Na versão original, a assinatura de Ivo Milazzo trazia a indicação de que a arte havia sido realizada “após Pellizza da Volpedo”, uma forma tradicional de o artista explicitar que se trata de uma releitura assumida, e não de uma simples inspiração vaga ou não creditada da obra de Giuseppe Pellizza da Volpedo.
Na edição da Tapejara, a
assinatura foi preservada integralmente, respeitando a concepção original. Já
na edição da Mondadori, o crédito também foi mantido conforme publicado na
Itália, embora deslocado para a altura do joelho de Ken Parker. É justamente
essa edição da Mondadori que serve de base para as publicações da Mythos, o que
torna a supressão ainda mais perceptível.
Com informações do Ken Parker Blog.
































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