Initial D vol 1: Quando um mangá influenciou o automobilismo

Leonardo Fraga
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Quando Initial D surgiu no Japão, em 1995, poucos imaginavam que aquela história aparentemente simples, sobre um garoto que entrega tofu de madrugada, se tornaria uma das obras mais influentes da cultura automotiva mundial. Com o lançamento da série no Brasil, que já chega à 14ª edição pela Panini Comics, o leitor finalmente tem acesso ao nascimento de uma lenda que extrapolou o mangá, o anime e os jogos para moldar uma geração inteira de entusiastas do automobilismo.

O mangá é publicado no Brasil em formato dois-em-um, que condensará toda a série em 24 volumes de 448 páginas.




Criado por Shuichi Shigeno, Initial D foge do lugar-comum das histórias esportivas focadas apenas em força bruta ou rivalidades exageradas. Desde suas primeiras páginas, o mangá deixa claro que o conflito central não é “quem tem o carro mais rápido”, mas quem entende melhor de pilotagem. Mais do que uma obra sobre corridas, Initial D é um estudo sobre técnica, disciplina, humildade e intimidade com a estrada.




O primeiro volume apresenta o leitor ao universo das corridas ilegais em estradas de montanhas japonesas, conhecidas como Touge. Diferente dos circuitos profissionais, o Touge exige muito do Drift, técnica de condução em que o carro desliza nas curvas, se tornando algo imprevisível: curvas cegas, desníveis, guard rails estreitos e a constante necessidade de leitura do terreno. Aqui, errar uma linha não significa perder tempo, significa perder tudo.




Do tofu às pistas de montanha

Initial D acompanha Takumi Fujiwara, um jovem que está no último ano do ensino médio e que leva uma vida simples ajudando o pai na loja de tofu da família. O que ninguém imagina é que, todas as madrugadas, Takumi percorre as estradas sinuosas do Monte Akina entregando encomendas com precisão quase sobrenatural. Sem perceber, ele desenvolve uma habilidade excepcional ao volante, herdada do treinamento silencioso imposto pelo pai, um ex-piloto lendário conhecido como o “Fantasma de Akina”.




Esse mito volta à tona quando equipes rivais de corredores de montanha passam a disputar território e prestígio nas estradas da região. Entre eles estão os Akagi RedSuns, liderados pelos irmãos Takahashi, considerados os melhores pilotos da província. O encontro inesperado entre Keisuke Takahashi e o misterioso Trueno AE86 reacende a lenda e revela que o novo “fantasma” não é um veterano experiente, mas sim um garoto que nunca teve interesse real em corridas.




É a partir desse ponto que Initial D se revela muito mais do que um mangá sobre carros velozes. A obra é, em essência, a jornada de Takumi para descobrir sua própria paixão, lidar com expectativas externas e encontrar um senso de pertencimento em um mundo movido por orgulho, rivalidade e adrenalina. As corridas ganham peso emocional à medida que o protagonista passa a entender o que significa querer algo de verdade.




Visualmente, o mangá pode dividir opiniões. Os personagens humanos têm traços simples e, por vezes, caricatos, enquanto os carros, as estradas e as cidades recebem um nível de detalhamento impressionante. É uma escolha clara de Shigeno: sacrificar a expressividade facial em favor da precisão mecânica e da clareza da ação. Nas cenas de corrida, essa decisão se prova acertada, pois a leitura é dinâmica e fácil de acompanhar, mesmo em momentos de alta velocidade.




Initial D permanece relevante por sua capacidade de conectar técnica, emoção e identidade. É uma obra que tanto introduz o leitor ao universo das corridas de montanha quanto aprofunda esse universo com paixão e conhecimento, sem perder de vista o desenvolvimento humano de seus personagens.




Tradução e adaptação em equilíbrio

A edição da Panini se destaca pelo trabalho de tradução e adaptação, que consegue equilibrar dois universos muito distintos. De um lado, há o vocabulário técnico do automobilismo: tração, suspensão, mecânica, técnicas de pilotagem e conceitos avançados de corrida. Do outro, a linguagem coloquial de adolescentes japoneses dos anos 1990.




O texto flui com naturalidade mesmo nos momentos mais técnicos, mantendo clareza sem simplificações excessivas. Notas explicativas ajudam a contextualizar preços, costumes, marcas e referências culturais, tornando a leitura acessível para iniciantes e, ao mesmo tempo, satisfatória para leitores mais experientes e entusiastas do automobilismo.

É uma tradução que respeita o rigor técnico de Shigeno sem perder proximidade com o leitor. Com produção Editorial da Mythos Editora, a tradução ficou a cargo de Mateus Britto.


O AE86 como manifesto narrativo




O Toyota AE86 Trueno não é apenas o carro de Takumi, ele é um manifesto. Em um universo onde muitos pilotos valorizam potência, tração integral e números de catálogo, o AE86 representa o oposto: leveza, equilíbrio e comunicação direta com o motorista.

No volume 1, o mangá mostra, em vez de explicar. O leitor percebe que o carro responde como uma extensão do corpo de Takumi, antecipando reações e permitindo correções mínimas. Essa escolha estética e narrativa foi decisiva para transformar o AE86 em um ícone cultural, revalorizando carros japoneses considerados “ultrapassados” e inaugurando uma nova forma de olhar para o automobilismo: menos espetáculo, mais essência.


Pequena história sobre a criação de Initial D


Shigeno com seu Subaru Impreza e seu Toyota Trueno AE86 

Em 1983, Shuichi Shigeno quando recebeu seu primeiro pagamento de royalties significativo pelo anime da série Bari Bari Densetsu, usou parte do valor para comprar seu primeiro carro. Um Toyota Trueno AE86. Comprou em uma concessionária do bairro somente pelo visual estiloso e pelo preço acessível. E por não parecer um sedã “de velho”.

Ele declarou mais tarde que foi uma coincidência a compra do AE86 e se qualquer outro carro estivesse ali, teria comprado outro.




Anos depois, em 1995, quando precisava criar uma nova série, seu editor sugeriu que falasse de automobilismo, já que era um universo que ele adorava. Assimm, baseou-se em suas próprias experiências com o AE86 e suas viagens às montanhas da província de Gunma, quando participava de pequenos encontros de entusiastas de carros, para criar Initial D. 


Shigeno em seu AE86 em fevereiro de 1987.

Impacto de Initial D servindo como vitrine para o mundo do Drift




Até meados dos anos 1990 o Drift era uma prática underground, popular entre os jovens entusiastas de carros nas áreas montanhosas do Japão. Se encontravam à noite, em estradas longe dos olhos da polícia e da sociedade.

Até que surgiu Keiichi Tsuchiya, o lendário Drift King, piloto profissional que ficou famoso por aplicar técnicas de drift em corridas reais. Ele lançou alguns vídeos, sendo o mais famoso deles “Plupsy” (1987), onde demonstrava suas técnicas de Drift em uma montanha, o que acabou influenciando toda uma geração. Mas ainda era um nicho dentro de outro nicho, já que a polícia reprimia os encontros e a mídia quase não cobria o assunto.


Plupsy” (1987)



Até que surgiu Initial D e houve uma explosão de popularidade, servindo como vitrine para o mundo do Drift. Shuichi Shigeno se inspirou em suas próprias experiências, mas também na carreira de Tsuchiya como base estética e filosófica para a série. É possível perceber que algumas cenas dos vídeos de Tsuchiya foram usadas dentro do mangá, além do mais óbvio: Tsuchiya pilotava um AE86.


Keiichi Tsuchiya, o Drift King


Um dos grandes méritos de Initial D é sua abordagem responsável do drift. Derrapar não é o objetivo, mas uma ferramenta. O drift surge quando necessário para manter velocidade e estabilidade, nunca como espetáculo gratuito. Em muitas curvas, o traçado limpo é mais eficiente, em outras, a derrapagem é inevitável.

Essa visão técnica educou gerações de leitores e diferenciou o mangá de representações mais caricatas da cultura automotiva que viriam depois. Em Initial D, cada derrapagem tem custo, risco e propósito.




Assim, o drift passou a ser visto como algo heróico e técnico e não apenas rebeldia. A série transformou os pilotos de rua em símbolos de dedicação e talento nato. Em 2000, foi fundado o D1 Grand Prix, primeiro campeonato profissional de Drift. Evento que ajudou a legitimar o esporte. Keiichi Tsuchiya foi um dos fundadores, consolidando a ponte entre o passado underground e o futuro profissional.




A obra de Shuichi Shigeno foi serializada na revista Weekly Young Magazine da Editora Kodansha entre 1995 e 2013, totalizando 48 volumes. A série também deu origem a seis temporadas de anime (com Keiichi Tsuchiya como supervisor técnico), filmes animados e live-action, games e uma avalanche de produtos licenciados. Em 2021, o mangá já havia ultrapassado a marca de 55 milhões de cópias vendidas. Um fenômeno global.


Trailer do Live-Action de Initial D lançado em 2005.



 E já que você leu até aqui... um Bônus:

 

O catapultamento do Eurobeat para o mundo através de Initial D 

O Eurobeat era um nicho bem específico difundido especialmente na Itália e Alemanha nos anos 80 e 90. Até que este estilo musical foi usado à exaustão no Anime de Initial D a partir de 1998. Isso fez com que o gênero fosse gravado no imaginário pop de todo o mundo.

O eurobeat praticamente faz parte da identidade do Anime. A trilha sonora usa quase ininterruptamente a música nas cenas de corrida. As disputas vinham embaladas por:

Batidas altas, aceleradas, refrões explosivos, letras exageradas, emocionais e principalmente: a repetição que gruda no cérebro. O que combinava perfeitamente com a sensação de velocidade extrema, tensão e o ritmo frenético da edição resultando em cenas icônicas.


Initial D - Deja Vu (Music Video)



“Deja Vu”, “Running in the 90’s” ou “Gas Gas Gas” são músicas que remetem imediatamente ao Trueno AE86 descendo o Monte Akina. Assim, o Eurobeat chegou a milhões de jovens dentro e fora do Japão e desvinculou o gênero das pistas de dança o associando à cultura automotiva.

As coletâneas Super Eurobeat venderam como nunca e artistas como Dave Rodgers, Manuel, Niko, Mauro Farina e Ace ganharam status cult. Com o Youtube nos anos 2000 e 2010, memes com Initial D transformaram o “Eurobeat Intensifies” em linguagem universal. Mesmo quem nunca tinha visto o anime estava virando fã.



Falar de Initial D e não falar de Eurobeat é quase indissociável. Assim como falar de Drift e não falar de Initial D. Um mangá que impactou várias frentes levando a cultura do Drift muito além do imaginável.



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