Estamos na semana do Super Bowl
LX (60ª edição), marcado para 08 de fevereiro, a grande final da NFL entre New
England Patriots e Seattle Seahawks. Mas, desta vez, o maior evento esportivo
dos Estados Unidos está longe de ser apenas sobre futebol americano. O jogo chega
cercado por tensões políticas, disputas culturais e um clima de divisão que vai
muito além do gramado.
Parte disso passa pelo show do intervalo, que terá Bad Bunny como atração principal. O artista porto-riquenho virou alvo de críticas de setores conservadores e do próprio presidente Donald Trump, reacendendo debates sobre identidade cultural, imigração e o uso do espanhol em um evento considerado “símbolo nacional”. Soma-se a isso o temor da presença do I.C.E. (polícia imigratória) nos arredores do estádio, algo que o governo nega oficialmente, mas que ainda gera apreensão entre a população.
NFL, artistas, políticos e público transformaram o Super Bowl em um verdadeiro campo de batalha simbólico, onde se discutem valores nacionais, pertencimento, língua e poder. É nesse contexto que “Esporte é de Matar” (Sports Is Hell), HQ de Ben Passmore, publicada no Brasil pela Editora Veneta, ganha ainda mais força e atualidade.
Na obra, Passmore parte de uma final fictícia do Super Bowl para fazer uma análise direta, incômoda e brutal sobre política, violência, identidade e o estado atual da sociedade americana. A história se passa em uma cidade claramente inspirada na Filadélfia, onde o autor vive e essa escolha não é por acaso. Em 2018, após a vitória do Philadelphia Eagles no Super Bowl LII, a cidade mergulhou em uma noite de caos, com vandalismo, confrontos e repressão policial. O quadrinho pega esse episódio real e leva a situação ao limite, imaginando um cenário em que a euforia esportiva descamba para uma verdadeira guerra civil urbana.
O SuperBowl criado por Passmore é entre os The Birds, equipe inspirada nos Eagles com uma torcida que representa uma identidade mais ligada à classe trabalhadora e lutas sociais, contra os The Big Whites. Chamados apenas de Whites, a equipe representa o New England Patriots, cuja torcida simboliza o poder tradicional e o conservadorismo
A trama acompanha Ash, uma jovem que, incentivada pelo amigo Kweku, decide ir às ruas depois do jogo, movida pela curiosidade e pela promessa de confusão. Um apagão durante a partida gera dúvidas sobre o resultado final, e a paixão pelo esporte rapidamente se transforma em fúria coletiva. Um motim se forma, Ash se perde do amigo e acaba se juntando a um pequeno grupo que tenta sobreviver em meio a gangues armadas de fanáticos por futebol.
O grupo tem como objetivo encontrar Marshall Quandary Collins, astro do esporte que se ajoelha durante o hino nacional, uma referência direta a Colin Kaepernick, ex-quarterback do San Francisco 49ers que se tornou símbolo de um dos maiores conflitos ideológicos do esporte moderno. No quadrinho, Collins é idolatrado por uns e odiado por outros, visto ora como salvador, ora como inimigo a ser eliminado.
Aqui, o futebol aparece como o grande elemento unificador e, ao mesmo tempo, explosivo. Quase cem milhões de americanos assistem ao Super Bowl todos os anos. É um ritual coletivo que atravessa classe, raça e status social. Um pico emocional em uma sociedade profundamente fragmentada. Passmore se apropria desse “Grande Jogo” para expor o choque entre raça, economia, política e identidade, mostrando como aquilo que une também pode incendiar conflitos violentos.
“Esporte é de Matar” é uma obra
profundamente política, mas nunca panfletária. O quadrinho parte da constatação
de que atletas são figuras públicas e, gostem ou não, tornam-se símbolos
carregados de significados e posicionamentos. Declaradamente anarquista, Ben
Passmore não poupa ninguém: brancos “aliados”, militantes de redes sociais,
grupos radicalizados e até as soluções fáceis e confortáveis desmoronam diante
do caos que ele apresenta. Os personagens negros, por sua vez, buscam caminhos
de conciliação, enquanto outros enxergam no confronto direto a única resposta
possível a um sistema estruturalmente violento.
Anarquistas, liberais,
extremistas de direita, movimentos identitários e o progressismo performático
entram todos na mira do autor. Um exemplo contundente é o casal branco que
tenta “ajudar” personagens negros mais em busca de validação moral do que por
compromisso real. Seus gestos são vazios, simbólicos, incapazes de compreender
a profundidade da violência estrutural que atravessa a comunidade negra.
Mais adiante, após a mulher
testemunhar o assassinato brutal do namorado por supremacistas brancos, que
ainda forçam sobreviventes a encenar uma partida de futebol sob ameaça, ela
passa a questionar a reação violenta de seus aliados negros durante a fuga. A
contradição é exposta de forma cruel e direta: a violência só parece aceitável
quando é “civilizada”, distante, quase estética. Quando surge como resposta
legítima à opressão, ela imediatamente se torna incômoda e condenável.
O quadrinho levanta uma pergunta incômoda, mas inevitável:
Por que as pessoas se mobilizam com mais intensidade por um time do que por decisões
políticas que afetam
diretamente suas vidas?
Visualmente, Esporte é de Matar
também impressiona. Passmore trabalha com apenas três cores, preto, branco e
amarelo mostarda, criando uma identidade agressiva e marcante. Os personagens
são extremamente expressivos, alternando entre sutileza e exagero. Algumas
páginas chamam atenção pela densidade de detalhes, especialmente as splash pages
das multidões em torno do estádio. O letreiramento acompanha o ritmo caótico da
narrativa, reforçando o impacto emocional de cada cena.
A capa e o título fazem uma paródia direta à Sports Illustrated, ironizando a ideia de espetáculo, heroísmo e idolatria esportiva. A edição brasileira merece elogios: a tradução de Mateus Potumati adapta bem as referências culturais, com notas de rodapé e escolhas que facilitam a leitura sem diluir o impacto da obra para o público brasileiro.
O final, longe de oferecer
respostas fáceis, sugere que nem mesmo a anarquia, defendida pelo próprio autor,
é uma solução definitiva. A HQ questiona a ideia de esperar por salvadores e
aponta para a necessidade de organização coletiva e responsabilidade social.
“Esporte é de Matar” dialoga diretamente com feridas ainda abertas da história recente dos Estados Unidos, como os protestos em Minneapolis após o assassinato de George Floyd, quando a revolta contra o racismo estrutural e a violência policial foi respondida com repressão e criminalização.
O mesmo se aplica às questões de
imigração, com o I.C.E. funcionando como símbolo do medo e do controle sobre
quem tem ou não o direito de pertencer. Ao aproximar esporte, espetáculo e
colapso social, o quadrinho deixa claro que estádio, rua, protesto e fronteira
fazem parte do mesmo sistema de tensões. Quando a catarse é permitida no jogo,
mas negada na luta por justiça, o resultado não é união, mas explosão.
Curta, mas poderosa, "Esporte é de Matar" é uma obra incômoda, provocadora e necessária. Com 62 páginas, formato grande, capa cartão e preço acessível, o quadrinho foi publicado originalmente em 2020 e o mais assustador é perceber que ele não envelheceu nada. Continua atual demais.






















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