Dylan Dog #23 - Depois de um longo silêncio

Leonardo Fraga
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Dylan Dog - Nova Série nº 23: Depois de um Longo Silêncio (publicado no Brasil pela Mythos Editora, correspondente ao nº 352 na Itália) marca um retorno histórico e emocionalmente poderoso. Após cerca de dez anos afastado da série Dylan Dog, Tiziano Sclavi volta ao personagem que criou para entregar uma história que soa, ao mesmo tempo, íntima, perturbadora e profundamente coerente com a essência do Investigador do Pesadelo.

Sclavi demonstra, desde as primeiras páginas, que não perdeu sua mão para o horror, pelo contrário. Aqui, o terror não se apoia apenas no sobrenatural, mas sobretudo na fragilidade emocional e nos abismos da mente.

Nesta história, o autor alcança um de seus momentos mais interessantes ao unir dois temas aparentemente distantes: fantasmas e alcoolismo. Eles se manifestam por meio de dois personagens cujas trajetórias acabam se cruzando de forma dolorosa e profundamente humana.


Owen Travers e a rotina da ausência



O primeiro deles é Owen Travers, um funcionário de baixo escalão preso a uma vida monótona e, de certa forma, confortável. Todos os dias ele chega em casa, conversa com a esposa Edith, relata o trabalho, serve uma dose de bebida… depois outra… e outra. Até esvaziar a garrafa.

O detalhe devastador é que Edith está morta há dois anos, vítima de um aneurisma cerebral. Owen fala sozinho, encara a poltrona vazia onde ela costumava sentar e, entre lágrimas, pede que ela responda. O álcool e o “fantasma” da esposa tornam-se dois lados do mesmo abismo: a tentativa desesperada de preencher um vazio irreparável.


Dylan Dog e o retorno de seu pior demônio



Paralelamente, acompanhamos Dylan Dog, que janta com sua namorada Crystal. Quando ela lhe oferece uma taça de vinho, o investigador do pesadelo reage como sempre: recusa. Mas, desta vez, hesita… e aceita.

Para leitores antigos, o peso desse gesto é imediato. Dylan é um alcoólatra em recuperação, e sua relação traumática com a bebida já foi explorada de forma marcante na série, especialmente na edição #200, inédita no Brasil. Durante centenas de histórias, ele sempre resistiu ao álcool. Aqui, porém, essa resistência cede e com isso se inicia uma nova e assustadoramente realista queda.

Como diz Groucho: “Uma dose é demais… e cem são poucas.”


Fantasmas visíveis e invisíveis



Os caminhos de Owen e Dylan se cruzam quando o primeiro procura o investigador. Mas, diferentemente do habitual, Owen não quer expulsar um espírito: ele quer conversar com o fantasma da esposa. Quer quebrar o silêncio.

É nesse ponto que Sclavi constrói o elo perfeito entre fantasmas e alcoolismo. Para Owen, ambos são problemas do presente. Para Dylan, o álcool era um fantasma do passado, algo que ele acreditava ter superado. Mas, assim como acontece com qualquer vício, basta um deslize para que o demônio retorne com força redobrada.

Os dois personagens, tão diferentes, tornam-se espelhos um do outro: homens incapazes de lidar com a ausência, presos entre culpa, silêncio e autodestruição.


O horror mais cotidiano de todos




Embora Dylan Dog seja uma série associada ao sobrenatural, esta história deixa claro que o verdadeiro horror aqui é humano. O alcoolismo não aparece como um elemento secundário, mas como o eixo central da narrativa. Acompanhamos Dylan se entregando página após página para a recaída, enquanto Owen já se entregou ao vício, inclusive perdendo o emprego por causa dele.

O choque não está em ver Owen beber, mas em ver Dylan cair. É perturbador justamente por ser plausível. Basta muito pouco para alguém “curado” voltar ao inferno que acreditava ter deixado para trás e essa constatação é um dos terrores mais genuínos da vida real.


A força do silêncio



Curiosamente, os fantasmas desta história quase não aparecem de forma tradicional. E é aí que reside sua maior força. Para Sclavi, fantasmas não são apenas presenças: são ausências. São o silêncio deixado por quem partiu. A cadeira vazia. A falta de resposta. O silêncio que atravessa a narrativa. O de Edith diante de Owen. O de Dylan em relação às preocupações de Groucho; e o silêncio que se instala após a perda de alguém amado.

O alcoolismo, um problema que o próprio Sclavi enfrentou ao longo da vida, emerge nesta edição como um desabafo sincero sobre uma condição que marcou e comprometeu sua trajetória profissional.




Paralelamente, a investigação conduz Dylan a um terreno ambíguo, onde espiritismo, aparições e manifestações fantasmagóricas se misturam à dúvida racional. Sclavi brinca com a percepção do leitor, mantendo sempre a incerteza: há algo realmente sobrenatural em curso ou estamos diante de mais um retrato da mente humana em colapso? A tensão cresce página a página, conduzindo a história a um clima de terror absoluto, sustentado mais pela atmosfera e pela angústia do que por sustos fáceis.




Os desenhos de Giampiero Casertano elevam ainda mais o impacto da obra. Seu traço é expressivo, carregado de emoção, com rostos que traduzem dor, culpa, medo e desespero de maneira quase palpável. As cenas fantasmagóricas são inquietantes e memoráveis, construídas com sombras densas e enquadramentos que reforçam a sensação de assombro constante.





Sclavi confia no poder do desenho de Casertano, no ritmo das páginas, nas pausas. É um tipo de narrativa que muitos roteiristas contemporâneos evitam, mas que aqui se transforma em um dos grandes trunfos da história. E Casertano entende perfeitamente o ritmo emocional do roteiro e o traduz visualmente com maestria. E pra completar o terror, algumas páginas mostram fotos reais de supostas aparições fantasmagóricas.




Depois do Longo Silêncio de Sclavi

Muita coisa pode mudar em apenas um ano. Imagine, então, em uma década. Foi praticamente esse o intervalo entre Dylan Dog #352 – Depois de um Longo Silêncio (2016) e o último trabalho de Tiziano Sclavi na série antes de seu afastamento, a edição nº 250, “Elevador para o Inferno”, lançada em 2007.

Visto hoje, até mesmo a chamada “pausa” de cinco anos entre seu suposto adeus anterior ao personagem, do nº 175, “O Projeto” (maio de 2001), ao nº 240, “Ucronia” (agosto de 2006), soa como um breve intervalo criativo. Quando “Depois de um longo silêncio” chegou, a nova história soou como um reencontro: o criador do personagem dialogando com um Dylan Dog renovado, mas sem perder sua essência.

“Depois de um Longo Silêncio” reafirma aquilo que sempre tornou Dylan Dog único: o verdadeiro terror não está nos monstros, mas nas fraquezas humanas, na dependência, na perda e na incapacidade de lidar com o sofrimento. Sclavi retorna em grande forma para nos lembrar que o horror mais profundo é aquele que nasce dentro de nós e que Dylan Dog continua sendo seu espelho mais cruel e honesto.



O autor conhecido por sua depressão escreve histórias mais humanas e, em certo sentido, mais esperançosas do que muitos de seus colegas. Mesmo em suas histórias mais sombrias, sempre existiu uma fresta de humanidade, uma possibilidade, ainda que mínima, de redenção.






Aqui minha participação no Universo HQ em Resenha onde comentei "Depois de um longo Silêncio":



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