Ainda estou vivo: a ferida aberta do jornalista autor de Gomorra

Leonardo Fraga
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“Ainda estou vivo” é uma HQ desenhada por Asaf Hanuka (O Divino, Geektopia) e escrita a partir do roteiro autobiográfico do jornalista Roberto Saviano. A obra revisita os quinze anos que se seguiram à publicação de Gomorra (2006), livro-reportagem que expôs a violência e a engrenagem da Camorra, a máfia de Nápoles, uma das mais antigas e poderosas organizações criminosas da Itália.

Condenado a viver sob ameaça constante de morte, Saviano transforma o quadrinho em um relato íntimo de uma existência vigiada: escolta permanente, isolamento, mudanças contínuas de endereço e a impossibilidade de levar uma vida comum. “Ainda estou vivo” funciona como um grito de desafio e afirmação. A declaração de que, apesar das ameaças e de viver “à sombra”, ele segue resistindo.



Logo na abertura, o próprio autor estabelece o tom da narrativa ao refletir:

“Não é certo que na batalha você volte vivo ou não volte, no caso de que você volte, voltará ferido. O que você está prestes a ler é minha ferida.

A frase se torna o fio condutor da obra: mais do que o registro de uma sobrevivência literal, ela opera como metáfora da condição humana submetida a pressões extremas, físicas, psicológicas e sociais.



“Sono ancora vivo” (título original) foi publicado em 2021 na Itália pela Bao Publishing e, em 2022, nos Estados Unidos pela Archaia, selo da Boom! Studios, sob o título I’m Still Alive. A edição resenhada aqui é a versão espanhola, lançada em 2022 pela Reservoir Books, com 144 páginas coloridas.


Quadrinho como narrativa emocional




Os desenhos de Asaf Hanuka não são um mero suporte visual da narrativa, eles amplificam o impacto emocional das palavras de Saviano. A paleta de cores atua como uma metáfora afetiva: tons escuros e claustrofóbicos dominam o presente marcado pela vigilância, enquanto cores mais suaves emergem nas recordações da infância e nos raros momentos de liberdade.



O traço dialoga constantemente com o estado psicológico do narrador, fundindo realismo e simbolismo. Dessa forma, o quadrinho constrói metáforas visuais que conectam sensações internas a imagens externas. Estados de confusão, medo ou paranoia são traduzidos em distorções gráficas, enquadramentos opressivos e composições de página carregadas de tensão.



Essa abordagem transforma a obra simultaneamente em relato documental e experiência estética intensa. Hanuka retrata com precisão sufocante as primeiras ameaças recebidas por Saviano e o modo como elas o lançam em uma espécie de exílio permanente.

Algumas cenas relatam a paranoia de Saviano em imaginar como será morto pela máfia, dando exemplos como um panetone explosivo ou seu corpo consumido pelas chamas após a explosão de seu carro.



Ao mesmo tempo, o quadrinho expõe a depressão e a solidão do autor, incluindo pensamentos suicidas, sem jamais recorrer ao sensacionalismo. Em contraste, revela também os frágeis pontos de ancoragem que o mantêm de pé: tentativas de preservar uma vida minimamente normal, vínculos afetivos e, sobretudo, a força encontrada na memória familiar.



GOMORRA

A HQ “Ainda estou vivo” acompanha a vida de Roberto Saviano sobretudo a partir de 2006, ano da publicação de Gomorra, livro-reportagem que expôs com precisão cirúrgica o funcionamento da Camorra, a máfia napolitana. Longe do folclore criminal, Saviano revelou a organização como um sistema econômico global, enraizado tanto na violência cotidiana quanto em negócios internacionais como tráfico de drogas, contrabando, controle de portos e o descarte ilegal de resíduos tóxicos.



Ao detalhar essas engrenagens, Gomorra atingiu diretamente clãs poderosos, especialmente os Casalesi, responsáveis por grande parte das ameaças dirigidas ao autor. O impacto do livro foi imediato e extrapolou a Itália: Saviano mostrou como a Camorra se infiltra na economia formal e em cadeias internacionais do crime, com o Brasil ocupando um papel estratégico nas rotas do narcotráfico e na definição do preço da cocaína no mercado europeu.



O sucesso editorial transformou Gomorra em um fenômeno global, com mais de 10 milhões de exemplares vendidos, mas também selou o destino de seu autor. Desde então, Saviano passou a viver sob escolta armada permanente, em um regime de proteção que se estende por mais de quinze anos e que redefiniu completamente sua existência.



Em 2008, o livro ganhou adaptação cinematográfica dirigida por Matteo Garrone, recusando qualquer glamourização do crime e retratando a Camorra como uma força brutal, banal e sem heroísmo. A obra também deu origem à série Gomorra (Sky Italia, 2014–2021), criada por Roberto Saviano, Stefano Bises e Leonardo Fasoli, que expandiu esse universo ao retratar um ecossistema criminoso complexo, sem protagonistas fixos.


Gomorrah (2008) - Matteo Garrone


Gomorra - A Série (Sky Itália)



Assim como o livro, a série reforçou o alcance das denúncias e, paradoxalmente, as ameaças contra seu criador. A exposição midiática consolidou Saviano como uma figura pública global, mas também como um alvo permanente, forçado a viver entre deslocamentos constantes, julgamentos inconclusos e críticas que questionam o custo de sua proteção.

É desse ponto que “Ainda estou vivo” parte: não como um apêndice de Gomorra, mas como o relato íntimo do preço humano de ter dito a verdade.



Uma voz na linha de frente

“Ainda estou vivo” combina memórias pessoais, documentos históricos e ensaios visuais para ir além do relato autobiográfico. Saviano não apenas narra fatos, mas busca transmitir a experiência de viver sob vigilância permanente, marcado pelo medo, pelo isolamento e pela perda de uma vida cotidiana comum.

A narrativa é atravessada por solidão e frustração, mas também pela recusa em se render ao apagamento. Sua voz direta alterna relato e reflexão, articulando temas como sobrevivência, perda de liberdade e a violência estrutural que sustenta o crime organizado. O quadrinho torna-se um território de reconciliação entre memória, trauma e identidade.



O trabalho de Roberto Saviano recoloca o jornalismo em seu ponto mais extremo: não como mediação neutra dos fatos, mas como ato de enfrentamento direto ao poder. Gomorra não foi apenas uma investigação bem-sucedida, mas um gesto radical de exposição de estruturas criminosas que sobrevivem justamente do silêncio, da normalização e da cumplicidade institucional.



O preço desse gesto revela algo essencial sobre a função do jornalismo. Quando a informação deixa de ser abstrata e passa a atingir interesses concretos, ela se torna perigosa, não por exagero retórico, mas porque ameaça diretamente mecanismos de poder. Em Ainda estou vivo, essa dimensão ética do jornalismo ganha corpo. A HQ não celebra a figura do repórter como herói, mas expõe a fragilidade humana por trás da denúncia.



Ao fazer isso, Saviano desmonta a ideia romântica da imprensa como missão abstrata e a reinscreve no terreno do sacrifício pessoal, da dúvida e do medo. Seu testemunho reafirma que o jornalismo não existe apenas para informar, mas para confrontar estruturas que dependem da invisibilidade para continuar operando, mesmo quando o custo dessa confrontação é a própria liberdade.




Concisa, direta e profundamente humana, “Ainda estou vivo” reafirma o potencial dos quadrinhos como ferramenta de memória, denúncia e reflexão. É uma leitura poderosa sobre resistência, dignidade e o preço de se recusar a ficar em silêncio.


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