Os Cavaleiros do Céu é a primeira edição da coletânea Os Túnicas Azuis, lançada em Portugal pela editora ASA, com apoio do jornal Público. A obra apresenta os soldados do Exército da União Blutch e Chesterfield em meio às suas habituais aventuras, trapalhadas e sobrevivências improváveis durante a Guerra de Secessão Americana (1861–1865).
Os Túnicas Azuis é uma das séries mais importantes e longevas dos quadrinhos franco-belgas, reconhecida por seu raro equilíbrio entre humor afiado e rigor histórico. Em Os Cavaleiros do Céu, esse equilíbrio ganha novos ares, literalmente, ao conduzir seus protagonistas aos primeiros experimentos da aviação militar, com balões de observação e pilotos improvisados.
A história começa com o 22º Regimento
de Cavalaria, ao qual Blutch e Chesterfield pertencem, praticamente dizimado em
combate. Além de serem os únicos sobreviventes, os dois ainda veem o Capitão
Stark cair prisioneiro do inimigo. Sem a cavalaria, o Exército da União
torna-se vulnerável diante das tropas confederadas e passa a buscar uma forma
de antecipar os movimentos do adversário.
É nesse contexto que surge o
aeróstato, uma invenção experimental que mais tarde daria origem ao balão como
o conhecemos. A partir dele, o Exército decide enviar observadores aos céus
para espionar o inimigo. Os “voluntários”, claro, são Blutch e Chesterfield. O
resultado é uma sucessão de gags, situações absurdas e manobras militares improvisadas,
em uma narrativa ágil que combina espionagem, tentativa de resgate e comédia em
45 páginas muito bem aproveitadas, capazes de arrancar boas risadas do leitor.
Cornelius Chesterfield é sargento do
Exército da União. Patriota, disciplinado e profundamente fiel aos valores
militares, ele enxerga a guerra como um espaço de honra, heroísmo e glória.
Vive em constante frustração tanto pela incompetência de seus superiores quanto
pela covardia ao, menos segundo seu ponto de vista, de Blutch.
Blutch, por sua vez, é cabo do
Exército e representa o completo oposto: cínico, preguiçoso e abertamente
contra a guerra. Seu maior objetivo é simples e pragmático: sobreviver e, se
possível, desertar. Algo que tenta fazer o tempo todo, gerando algumas das
cenas mais hilárias da história. Logo no início, ele está convenientemente
instalado na enfermaria, fingindo ter a perna quebrada, até ser desmascarado
por Chesterfield e arrastado de volta ao campo de batalha.
Mais inteligente e realista, Blutch
funciona como o contraponto irônico ao idealismo cego de Chesterfield. A
relação entre os dois se constrói sobre o choque constante entre heroísmo e
instinto de sobrevivência, funcionando como um comentário permanente e
extremamente atual sobre as contradições da guerra.
Em Os Cavaleiros do Céu, essa dinâmica
é explorada ao máximo. Enquanto os oficiais se deixam levar pelo entusiasmo
quase ingênuo diante da nova tecnologia, Chesterfield vê no aeróstato a chance
de alcançar a glória militar, enquanto Blutch enxerga apenas mais uma forma
engenhosa e criativa de morrer inutilmente.
Apesar das diferenças, a dupla acaba
desenvolvendo uma relação de forte cumplicidade. Um sempre acaba salvando o
outro nos momentos mais críticos, e é justamente as falhas humanas que
aproximam o leitor dos personagens, tornando-os universais, mesmo presos a um
contexto histórico tão específico.
A série Os Túnicas Azuis foi criada em
1968, com roteiro de Raoul Cauvin e desenhos de Louis Salvérius, com o objetivo
de ocupar o espaço de sátira ao faroeste deixado pela saída de Lucky Luke da revista
Spirou e da editora Dupuis. Posteriormente, Lucky Luke passaria a ser publicado
por outras casas editoriais, como a Dargaud e a Lucky Productions.
Com a morte prematura de Salvérius, em
1972, Willy Lambil assumiu definitivamente os desenhos da série, papel que
manteria por décadas. É sua arte que encontramos em Os Cavaleiros do Céu,
marcada por uma atenção meticulosa aos detalhes históricos: uniformes,
acampamentos, paisagens abertas e campos de batalha são recriados com precisão
e dinamismo.
Embora seja um quadrinho de guerra, Os
Túnicas Azuis nunca perde seu caráter humorístico. As sequências aéreas
envolvendo o balão são particularmente eficazes ao transmitir tanto o fascínio
quanto o perigo de estar suspenso no ar por uma máquina instável e arriscada.
Lambil se destaca especialmente na expressividade dos personagens: medo, fúria, confusão e pânico são retratados
de forma exagerada e extremamente cômica, potencializando o humor físico da
narrativa.
O roteiro de Cauvin dá personalidade a
todo o elenco, respeitando as características individuais de cada personagem e
reforçando a proposta central da série: contar histórias de guerra a partir do
ponto de vista do soldado comum, com humor ácido, situações absurdas e uma
crítica constante ao militarismo.
Publicada originalmente pela Dupuis, a
série chegou a 69 álbuns, com a edição mais recente lançada em 2025. No Brasil,
infelizmente, Os Túnicas Azuis teve vida curta: a editora Martins Fontes
publicou apenas dez volumes entre 1983 e 1986, e desde então os personagens não
apareceram mais por aqui. Já em Portugal, a coleção da ASA/Público, lançada
entre 2016 e 2017, reuniu 15 das melhores histórias da série, permitindo que
novos leitores redescobrissem esse clássico dos quadrinhos europeus.















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