Os Túnicas Azuis – Os Cavaleiros do Céu

Leonardo Fraga
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Os Cavaleiros do Céu é a primeira edição da coletânea Os Túnicas Azuis, lançada em Portugal pela editora ASA, com apoio do jornal Público. A obra apresenta os soldados do Exército da União Blutch e Chesterfield em meio às suas habituais aventuras, trapalhadas e sobrevivências improváveis durante a Guerra de Secessão Americana (1861–1865).



Os Túnicas Azuis é uma das séries mais importantes e longevas dos quadrinhos franco-belgas, reconhecida por seu raro equilíbrio entre humor afiado e rigor histórico. Em Os Cavaleiros do Céu, esse equilíbrio ganha novos ares, literalmente, ao conduzir seus protagonistas aos primeiros experimentos da aviação militar, com balões de observação e pilotos improvisados.




A história começa com o 22º Regimento de Cavalaria, ao qual Blutch e Chesterfield pertencem, praticamente dizimado em combate. Além de serem os únicos sobreviventes, os dois ainda veem o Capitão Stark cair prisioneiro do inimigo. Sem a cavalaria, o Exército da União torna-se vulnerável diante das tropas confederadas e passa a buscar uma forma de antecipar os movimentos do adversário.




É nesse contexto que surge o aeróstato, uma invenção experimental que mais tarde daria origem ao balão como o conhecemos. A partir dele, o Exército decide enviar observadores aos céus para espionar o inimigo. Os “voluntários”, claro, são Blutch e Chesterfield. O resultado é uma sucessão de gags, situações absurdas e manobras militares improvisadas, em uma narrativa ágil que combina espionagem, tentativa de resgate e comédia em 45 páginas muito bem aproveitadas, capazes de arrancar boas risadas do leitor.




 Os Azuis

Cornelius Chesterfield é sargento do Exército da União. Patriota, disciplinado e profundamente fiel aos valores militares, ele enxerga a guerra como um espaço de honra, heroísmo e glória. Vive em constante frustração tanto pela incompetência de seus superiores quanto pela covardia ao, menos segundo seu ponto de vista, de Blutch.




Blutch, por sua vez, é cabo do Exército e representa o completo oposto: cínico, preguiçoso e abertamente contra a guerra. Seu maior objetivo é simples e pragmático: sobreviver e, se possível, desertar. Algo que tenta fazer o tempo todo, gerando algumas das cenas mais hilárias da história. Logo no início, ele está convenientemente instalado na enfermaria, fingindo ter a perna quebrada, até ser desmascarado por Chesterfield e arrastado de volta ao campo de batalha.




Mais inteligente e realista, Blutch funciona como o contraponto irônico ao idealismo cego de Chesterfield. A relação entre os dois se constrói sobre o choque constante entre heroísmo e instinto de sobrevivência, funcionando como um comentário permanente e extremamente atual sobre as contradições da guerra.

Em Os Cavaleiros do Céu, essa dinâmica é explorada ao máximo. Enquanto os oficiais se deixam levar pelo entusiasmo quase ingênuo diante da nova tecnologia, Chesterfield vê no aeróstato a chance de alcançar a glória militar, enquanto Blutch enxerga apenas mais uma forma engenhosa e criativa de morrer inutilmente.




Apesar das diferenças, a dupla acaba desenvolvendo uma relação de forte cumplicidade. Um sempre acaba salvando o outro nos momentos mais críticos, e é justamente as falhas humanas que aproximam o leitor dos personagens, tornando-os universais, mesmo presos a um contexto histórico tão específico.


 Os Túnicas

A série Os Túnicas Azuis foi criada em 1968, com roteiro de Raoul Cauvin e desenhos de Louis Salvérius, com o objetivo de ocupar o espaço de sátira ao faroeste deixado pela saída de Lucky Luke da revista Spirou e da editora Dupuis. Posteriormente, Lucky Luke passaria a ser publicado por outras casas editoriais, como a Dargaud e a Lucky Productions.




Com a morte prematura de Salvérius, em 1972, Willy Lambil assumiu definitivamente os desenhos da série, papel que manteria por décadas. É sua arte que encontramos em Os Cavaleiros do Céu, marcada por uma atenção meticulosa aos detalhes históricos: uniformes, acampamentos, paisagens abertas e campos de batalha são recriados com precisão e dinamismo.




Embora seja um quadrinho de guerra, Os Túnicas Azuis nunca perde seu caráter humorístico. As sequências aéreas envolvendo o balão são particularmente eficazes ao transmitir tanto o fascínio quanto o perigo de estar suspenso no ar por uma máquina instável e arriscada. Lambil se destaca especialmente na expressividade dos personagens:  medo, fúria, confusão e pânico são retratados de forma exagerada e extremamente cômica, potencializando o humor físico da narrativa.




O roteiro de Cauvin dá personalidade a todo o elenco, respeitando as características individuais de cada personagem e reforçando a proposta central da série: contar histórias de guerra a partir do ponto de vista do soldado comum, com humor ácido, situações absurdas e uma crítica constante ao militarismo.




Publicada originalmente pela Dupuis, a série chegou a 69 álbuns, com a edição mais recente lançada em 2025. No Brasil, infelizmente, Os Túnicas Azuis teve vida curta: a editora Martins Fontes publicou apenas dez volumes entre 1983 e 1986, e desde então os personagens não apareceram mais por aqui. Já em Portugal, a coleção da ASA/Público, lançada entre 2016 e 2017, reuniu 15 das melhores histórias da série, permitindo que novos leitores redescobrissem esse clássico dos quadrinhos europeus.





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