Mangás para ler na praia

Leonardo Fraga
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Ler mangá na praia é uma experiência particular. O som constante do mar, a maresia no ar, o calor do sol, a sombra fresca do guarda-sol e o tempo que parece desacelerar pedem histórias que saibam respirar, narrativas que aceitem pausas, silêncios e contemplação.

Nem todo “mangá de praia” precisa, necessariamente, se passar à beira-mar. E nem toda leitura dessas precisa acontecer de fato na areia. Basta que a obra nos conduza até lá, nem que seja pela memória, pela atmosfera ou pela sensação que provoca.

Esta é uma seleção de mangás que dialogam perfeitamente com esse clima. Leituras que evocam verão, juventude, introspecção, transformação e lembranças que fazem sentir a água salgada do mar. Histórias que funcionam porque fazem pensar, sentir, relaxar ou simplesmente observar, como quem olha o horizonte sem pressa.

Ah, e por que mangá, e não HQ? Ora… você vai mesmo querer levar um “Verões Felizes” pra praia? Mangá é mais confortável, leve, resistente e cabe fácil na bolsa de praia junto com o protetor solar, a água gelada e o lanche. 


Children of the Sea (Crianças do Mar)



Se existe um mangá que traduz a sensação de mar em páginas, esse é “Children of the Sea”. A obra de Daisuke Igarashi mistura ciência, misticismo e ecologia para falar do oceano como origem e mistério da vida. É uma leitura contemplativa, que exige atenção e entrega.

A história segue Ruka, uma menina que está passando as férias de verão e acaba conhecendo dois jovens misteriosos: Umi e Sora. Fascinada pelas crianças que nadam como se voassem pelas águas do mar, Ruka e outras pessoas estabelecem uma complexa relação com as crianças. Enquanto isso, um fenômeno inexplicável começa a acontecer em vários locais do mundo, como o desaparecimento de peixes.





É um mangá de mistério, que mistura um pouco de fantasia, mas principalmente traz a introspecção do fundo do mar. O mangaká Daisuke Igarashi desenha perfeitamente o detalhe das águas, das ondas. O clima, o brilho do sol e os personagens nos passam muito a sensação durante a leitura de estarmos em uma praia.

Foi publicado pela Panini Comics de 2018 a 2019 em cinco edições com, em média, 300 páginas cada. Ideal para quem prefere sombra, brisa e mergulho filosófico entre um banho de mar e outro.


Children of The Sea tem uma animação lançada em 2019, belíssima.


O Longo Verão de 31 de Agosto


Este mangá é o “Feitiço do Tempo” (1993), com Bill Murray, desta lista, só que ao invés de neve temos praia. Dois adolescentes, Suzuki e Takagi revivem indefinidamente o fim do verão, exatamente o dia 31 de agosto, que marca o fim da estação no Japão. Quando dá meia-noite, tudo volta ao dia anterior, com exceção da consciência deles. Acompanhamos assim os dois se encontrando e aproveitando os dias de maneira diversa, ao mesmo tempo em que buscam uma saída para esse loop temporal e curtimos uma história de amor.

O mangá captura com precisão a sensação de verão eterno, de tempo suspenso e de tudo aquilo que gostaríamos de não deixar acabar, exatamente o espírito de um verão que nunca esquecemos.





A obra de Ikkado Itoh tem desenhos fascinantes que destacam especialmente a cidade, que não é um lugar definido, a não ser que é uma cidade litorânea do Japão. Ele foca em aspectos mais dramáticos dos personagens, diálogos, expressões e nos traz um mangá de vida cotidiana, com romance e humor.




O Longo Verão de 31 de Agosto começou a ser publicado no Brasil pela Panini Comics em abril de 2025 e já possui quatro edições lançadas aqui. No Japão ainda está em produção.

 

Kaikisen – Retorno ao Mar



Kaikisen – Retorno ao Mar é um mangá singular que marca a estreia nos quadrinhos de Satoshi Kon, o aclamado criador por trás de filmes como Perfect Blue, Paprika e o meu preferido Tokyo Godfathers. Publicado originalmente em 1990 na revista Young Magazine e compilado em volume único, o título ganhou uma edição nacional pela NewPOP em 2025, trazendo ao público brasileiro essa obra pouco conhecida, mas repleta de sensibilidade e simbolismo.

Kaikisen conta a história de Yousuke, um jovem cuja família carrega uma tradição mística: a cada sessenta anos, um “ovo” enviado por seres marinhos mitológicos amadurece em suas mãos. Sua missão é devolvê-lo ao mar. Em troca dessa devoção ancestral, o povo marinho abençoa a comunidade com mares calmos e fartura na pesca. Um pacto entre homem e natureza.



Mas... um resort turístico ameaça a harmonia do lugar e o pai de Yousuke é seduzido pela promessa de prosperidade moderna e decide transformar o “ovo” em atração comercial. Esse conflito entre tradição e modernidade que move a trama de Kaikisen: honrar um legado de respeito à natureza e das tradições ou ceder às oportunidades de crescimento, à sedução ao capitalismo.


Kon nos traz uma obra com um ritmo cinematográfico com uma leitura fluida e envolvente. Traz a beleza tranquila de uma vila costeira e a inquietação dos personagens. Além de seu traço lembrar muito o de Katsuhiro Otomo(Akira). Ideal para leitores que apreciam mangás introspectivos com toque de misticismo e crítica social. Com 256 páginas, o mangá é simbólico e profundamente melancólico, leitura perfeita para a praia justamente por provocar reflexão sobre o próprio ambiente ao redor.


 Diário de uma Cidade Litorânea


Diário de uma Cidade Litorânea é uma série completa publicada pela Panini em nove volumes, o último lançado em maio de 2023. As edições tem 194 páginas cada.

Criado por Akimi Yoshida, consagrada mangaká de Banana Fish, a história gira em torno das irmãs Sachi, Yoshino e Chika. O pai delas morreu, mas elas não tiveram mais contato com ele desde que seus pais se divorciaram. As três viajam até Yamagata, para o funeral e lá encontram Suzu, a meia-irmã mais nova que nunca conheceram.

É uma obra sobre laços familiares, sobre como a vida continua mesmo após traumas, e sobre como um simples dia pode esconder significados profundos.


O encontro delas não é marcado por sentimentalismos, mas sim por uma indiferença pela morte do pai, mas ao longo da narrativa, o vínculo entre as quatro cresce com naturalidade e delicadeza. Esta é uma obra sobre laços familiares, sobre como a vida continua mesmo após traumas e como um simples dia pode esconder significados profundos.

Ao invés de grandes acontecimentos, Diário de Uma Cidade Litorânea foca no cotidiano, nas pequenas conversas, nas caminhadas pela cidade costeira de Kamakura, nas refeições compartilhadas e nas mudanças interiores que ocorrem lentamente.

A graça da vida e também sua dor emergindo nos momentos aparentemente banais: um olhar, um silêncio, uma tarde ensolarada à beira-mar. É ou não é um mangá gostosinho de praia?



Yoshida faz uma construção de personagens impecável, com profundidade e explorando seus conflitos internos e as formas como cada irmã lida com a perda e as lembranças familiares.


Tem um Live-Action lançado em 2015:


Estranho à Beira-Mar


Estranho à Beira-Mar é um mangá publicado em volume único pela NewPOP. É um mangá BL (Boy’s Love) criado por Kii Kanna. Foi lançado em 2022 e conta com 200 páginas. É um romance delicado ambientado na ilha de Okinawa. A narrativa gira em torno de Shun Hashimoto, um jovem escritor iniciante que se mudou para a ilha após assumir sua homossexualidade e romper um noivado arranjado por sua família. Lá, ele vive uma vida cotidiana tranquila, ajudando em pequenas tarefas e tentando se conectar com sua escrita.




Shun observa repetidamente um estudante do ensino médio, Mio Chibana, sentado à beira da praia olhando o mar, um comportamento que reflete sua profunda melancolia e a sensação de estar deslocado no mundo. Aos poucos, Shun o convida para se aproximar, e entre os dois surge uma conexão.




A praia não é só o cenário, é o espaço de aceitação, espera e transformação. Uma leitura leve, sensível e perfeita para tardes tranquilas.


Tem uma Animação disponível na CrunchyRoll:


Escamas Azuis: O Segredo da Cidade de Areia


Escamas Azuis: O Segredo da Cidade de Areia, mangá completo em dois volumes e lançado pela Editora JBC em 2023. A história acompanha a jovem Tokiko, uma menina de 11 anos que se muda de Tóquio para uma pequena cidade litorânea, juntamente com seu pai, após um certo acontecimento trágico envolvendo sua mãe.


Quando pequena, Tokiko já esteve na cidade, mas não se lembra de muita coisa, apenas que um dia estava se afogando e foi salva por uma sereia. Ela então começa a interagir com pessoas da cidade desejando rever a sereia que a salvou. Mas a cidade trata isso como uma lenda, ou algo que querem esconder de todos, ou pelo menos das crianças.


O mangá criado por Yoko Komori tem traços delicados e linhas suaves criando um ambiente poético e onírico. Cada edição tem cerca de 200 páginas.


 Garota à Beira-Mar



A lista não podia deixar de citar Garota à Beira-Mar, de Inio Asano. Apesar de não ser uma leitura leve (é dedicado ao público adulto), Asano usa a praia como contraste brutal entre paisagem ensolarada e conflitos internos intensos. A obra com 416 páginas foi lançada pela Editora JBC em 2025 em volume único.



Este mangá mergulha fundo na complexidade emocional de Koume Sato e Keisuke Isobe, dois adolescentes vivendo em uma pequena cidade litorânea. Depois de uma decepção amorosa traumática, Koume começa um relacionamento sexual com Isobe, que sempre teve sentimentos por ela desde a escola. A proposta inicial é que o sexo fosse algo “sem emoções”, um escape ou anestésico para as dores internas. No entanto, o que parecia um vínculo físico sem profundidade logo se torna profundamente mais complicado emocionalmente, tanto para eles quanto para as pessoas ao redor.



O traço de Asano é característico: super detalhado, emocionalmente expressivo e carregado de nuances visuais que reforçam o realismo psicológico dos personagens. Ele captura olhares, silêncios e espaços vazios com o mesmo peso de uma conversa ou cena de conflito, porque aqui, cada pequena pausa conta.

Ps. Pode ler na praia, só não deixa ninguém espiar dentro.


Insones - Caçando Estrelas Depois Da Aula


Insones – Caçando Estrelas Depois da Aula é um mangá escrito e ilustrado por Makoto Ojiro. A narrativa acompanha Ganta Nakami, um estudante colegial dedicado, porém socialmente deslocado, um efeito direto de sua constante insônia. Incapaz de dormir à noite, ele vive exausto e isolado, até que encontra um refúgio inusitado: o antigo local do clube de astronomia de sua escola, uma sala de aula abandonada.



Lá, surpreende-se ao encontrar Isaki Magari, uma colega popular e energética que também sofre de insônia e encontrou nesse mesmo lugar um porto-seguro para descansar. A partir desse encontro casual, os dois começam a compartilhar o espaço, e suas noites insones passam a ter significado, não mais solitárias, mas preenchidas por conversas, companheirismo e descobertas.




Ao longo da obra, Insones constrói um retrato sensível da juventude, amizade e do encontro entre duas pessoas que vivem à margem dos padrões sociais. Em vez de se apoiar em conflitos grandiosos ou reviravoltas exageradas, a história se desenvolve de forma reflexiva e contemplativa, focando nos pequenos momentos: as conversas noturnas, a observação das estrelas e o entendimento mútua que nasce da partilha de um problema aparentemente banal, mas profundamente humano.

A ambientação na região de Noto (no Japão) adiciona um charme especial: as paisagens tranquilas, o céu estrelado e a atmosfera calma contribuem para reforçar o tom contemplativo da história.




É uma leitura perfeita para quem gosta de slice-of-life com toques de reflexão existencial, relacionamentos sinceros e uma atmosfera noturna envolvente. Se você já se viu acordado enquanto o resto do mundo dorme, este mangá pode ressoar com aquela sensação única de estar à deriva entre o dia e o sonho.

O mangá foi publicado pela Panini em 14 volumes.

Ok, o mangá mal vai na praia, mas quando vai é muito bom. E é meu xodó. Então, vai na fé.




Tem um Anime e Live Action:


 

Para encerrar, uma Menção muito honrosa. Porque é um mangá mais de cachoeira que praia, mas bem verão.

Suiiki: Território das Águas



Suiiki: Território das Águas é uma obra da mangaká Yuki Usushibara, mesma criadora de Mushishi. Suiiki foi publicado pela NewPOP em julho de 2025 e é uma edição única, com 488 páginas.

A história começa sob um sol implacável e uma escassez de água que castiga a cidade onde vive Chinami Kawamura, uma estudante colegial como tantas outras. Durante um treino sob o calor sufocante, ela desmaia… Mas, ao despertar, percebe que não está mais onde deveria: está às margens de um rio cristalino, em uma vila aparentemente deserta e cercada por uma chuva que nunca para.

Esse encontro com o impossível, um lugar que parece existir fora do tempo e afastado da realidade cotidiana é o ponto de partida para uma narrativa que mistura realidade, sonho, memória e espiritualidade.


Ao longo da história é revelado que a vila misteriosa está ligada às raízes da família de Chinami, misturando passado e presente de forma sutil e às vezes ambígua. A protagonista encontra habitantes que parecem pertencer a gerações anteriores ou mesmo a um tempo já esquecido e aos poucos o leitor compreende que o lugar que Chinami visita repetidas vezes pode ser muito mais do que um simples sonho.


O traço característico de Urushibara brilha em Suiiki: linhas delicadas, paisagens naturais que evocam calma e mistério, e uma disposição de quadros que funciona quase como um ritmo poético na leitura. A vila encharcada, o rio imperturbável, as árvores e o clima úmido criam uma atmosfera que é ao mesmo tempo serena e inquietante. Um lugar onde o leitor sente o peso do silêncio e das memórias que parecem tentar emergir.

Suiiki: Território das Águas não é apenas um mangá, é uma experiência sensorial: uma história que fala sobre o que está oculto sob a superfície, sobre como a memória pode ser tão fluida quanto a água, e como encontros com o inexplicável podem revelar verdades íntimas dos nossos próprios corações.



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