Boca de Siri - Paulo Moreira transforma João Pessoa em fábula urbana

Leonardo Fraga
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Boca de Siri de Paulo Moreira é uma HQ lançada em 2025 pelo selo Pitaya, da HarperCollins Brasil. É uma hq muito divertida que combina humor, crítica social e realismo mágico em uma narrativa ágil e gostosa de ler. Moreira é um dos autores mais afiados, inventivos e conectados com o Brasil contemporâneo, um sucesso na internet e já lançou outras obras igualmente divertidas como Bom dia Socorro (Conrad, 2022), Só as Melhores (Conrad, 2024) e mais.



A história acontece em João Pessoa, Paraíba, na região da Praia de Cabo Branco e acompanha Ygo, Vitória e Duda, três adolescentes que se envolvem em uma situação absurda. Atravessam a cidade de bicicleta após ouvirem rumores sobre um gigantesco “Guaiamum falante” (uma espécie de caranguejo), defensor da natureza que resolve enfrentar os interesses da Prefeitura, que pretende ampliar artificialmente a faixa de areia da orla da praia.



A ideia é inspirada em debates reais sobre intervenções ambientais na capital paraibana, mas também serve como ponto de partida para uma fábula urbana repleta de sátira e comentário social. Fiel ao seu estilo, Paulo Moreira transforma um problema concreto, a agressão ao meio ambiente em nome do “progresso”, em um espetáculo de “realismo mágico tipicamente brasileiro”.




O Guaiamum é uma espécie considerada em extinção, por isso sua captura é regulamentada e em algumas regiões é proibida, como no Rio de Janeiro onde sua captura pode gerar multa de R$ 5.000,00. Em João Pessoa, o caranguejo é um ícone da cultura gastronômica local.

Na história, o embate ganha contornos épicos e cômicos com a criação do “Paraíbatron”, um robô gigante financiado por uma casa de apostas fictícia, a Kleitinho Bet! O robô é claramente inspirado em ícones da cultura pop como “Evangelion” e “Dragon Ball”. O piloto do robô é pernambucano, permitindo a exploração, com muito humor de rivalidades regionais, sotaques e provocações culturais.


Esse exagero deliberado é justamente o que torna “Boca de Siri” tão legal. Mesmo com caranguejos gigantes falantes e robôs patrocinados por Bets, a HQ soa estranhamente real. Paulo Moreira tem um talento raro para capturar o espírito do país, suas contradições, seus memes, sua linguagem local, suas obsessões, e traduzir tudo isso em quadrinhos. O mesmo recurso já aparecia em obras como “Bom Dia, Socorro”, em que batalhas épicas surgem a partir de brigas de WhatsApp entre duas senhoras idosas.



Acompanhar os personagens principais e os vários outros que vão surgindo é muito divertido, especialmente porque Moreira escreve com sotaque, e isso torna a narrativa muito mais plausível. Igor, Vitória e Duda tem personalidades muito bem definidas, que mesmo com a narrativa correndo solta, o leitor acaba se apegando e conhecendo bem cada um deles.



Visualmente, “Boca de Siri” marca o retorno de Moreira a um projeto longo. A HQ tem cerca de 130 páginas de história e mais 30 de extras, com estudos de personagens, artes coloridas e até uma página interativa para o leitor registrar suas impressões.



É uma HQ preto e branco, algo que não acontecia desde seus primeiros trabalhos autorais. A ausência de cores não empobrece a narrativa, pelo contrário, valoriza o uso de sombras, texturas e soluções gráficas criativas, como a representação do bronzeado desigual dos personagens apenas por meio de hachuras. O traço mantém a identidade reconhecível do autor, mas ganha novas camadas de leitura com esse tratamento mais cru e direto.




A HQ mantém um ritmo ágil e constante, arrancando risadas frequentes do leitor sem abrir mão de reflexão. Uma aventura de crianças de bicicleta, que segundo Paulo surgiu quando ele próprio, andando pela cidade de bicicleta, registrava locais da cidade em um bloco ou prancheta e depois os colocou na história, sendo assim também, um guia para que os leitores apreciem a cidade de João Pessoa.




Irreverente, inteligente e genuinamente brasileira, “Boca de Siri” não é apenas uma ótima leitura: é a prova viva de por que Paulo Moreira é hoje um dos autores mais relevantes dos quadrinhos nacionais e que consegue nos trazer histórias deliciosas do cotidiano paraibano e brasileiro.




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