Entre as inúmeras aventuras vividas por Tex Willer ao longo de décadas, poucas alcançam a densidade histórica, emocional e estética de Tex - Patagônia. Publicada originalmente em 2009, este Tex Gigante (Texone #23) é amplamente considerado uma das obras-primas modernas do personagem.
A edição resenhada aqui é a Tex
Gold #3 – Patagônia da Editora Salvat, com tradução de Júlio Schneider e
colorizada pela Bonelli. Tex geralmente vive suas aventuras nas áridas
paisagens do Arizona ou nas fronteiras com o México, mas em Patagônia, Mauro
Boselli e Pasquale Frisenda levam ele e seu filho Kit Willer para um cenário
atípico e brutal: os pampas argentinos do século XIX.
O ponto de partida da história é
o convite feito a Tex por um antigo amigo, o oficial argentino Ricardo Mendoza.
O oficial pede a ajuda do Ranger para capturar o cacique Calfucurá, lendário
líder indígena mapuche, acusado de promover ataques violentos na região dos
pampas.
Tex aceita o convite e parte para a Argentina com seu filho Kit. Recebidos com honras militares, Tex é nomeado capitão do exército argentino para liderar os "gaúchos" (batedores nômades e mestiços). No entanto, sua lealdade é testada ao perceber que os oficiais do exército, em sua maioria, buscam glória através do genocídio, enquanto Tex e Mendoza tentam uma pacificação impossível.
Os dois logo descobrem que a missão vai além da captura de um líder rebelde: oficialmente, trata-se de uma expedição de pacificação, destinada a estabelecer acordos com as tribos indígenas da Patagônia. Mas o que deveria ser um gesto de reconciliação rapidamente se revela uma farsa. O vento de paz se transforma pretexto para um conflito brutal.
O exército que diz levar
civilização espalha morte e Tex se vê envolvido em uma espiral de violência que
ele não consegue deter. Na vastidão gelada da Patagônia, sangue será derramado
e Tex, sendo o chefe dos Navajos (chamado de Águia da Noite), possui uma
sensibilidade única para com os povos originários, o que torna o conflito ético
da história ainda mais profundo.
A Patagônia e o peso da História
A Patagônia é uma das regiões
mais extremas da América do Sul, estendendo-se por cerca de 800 mil km² entre o
Estreito de Magalhães e o Rio Negro. Habitada desde cerca de 10.000 a.C., foi
lar de diversos povos indígenas, entre eles os Tehuelches, caçadores e
pescadores que viveram por séculos em equilíbrio com a terra.
Com a chegada dos colonizadores
europeus, esse equilíbrio foi destruído. A história retratada por Boselli
dialoga diretamente com a chamada “Campanha do Deserto” (com o ápice entre 1878
e 1885), liderada pelo general Julio Argentino Roca, uma ofensiva militar que
visava anexar o sul da Argentina ao Estado nacional, exterminando ou subjugando
as populações indígenas.
Ao inserir personagens históricos
como Roca e Calfucurá, Boselli ancora o drama de Tex em um contexto real e
profundamente incômodo. Ele e Frisenda retrataram elementos desta Campanha,
como a famosa "Zanja" ou "Zanja de Alsina", uma extensa
vala que servia como defesa e fortificações construída na Argentina na década
de 1870.
A vala possuía três metros de profundidade e se estendia por centenas de quilômetros, complementada por uma linha de fortins e postos militares e uma linha telegráfica. O projeto foi idealizado por Adolfo Alsina, Ministro da Guerra durante a presidência de Nicolás Avellaneda, com o objetivo de impedir o avanço indígena e o roubo de gado.
Com liberdade criativa mas muito
embasado na história real, Boselli revela um período sangrento da história
argentina onde o exército buscava expandir suas fronteiras contra as tribos
indígenas.
Um Tex diferente
Criado em 1948 por Gian Luigi
Bonelli e Aurelio Galleppini, Tex Willer sempre foi o símbolo do herói íntegro,
de moral inabalável. Sob a curadoria de Mauro Boselli, o personagem permaneceu
fiel à sua essência, mas ganhou novas camadas. Boselli ficou à frente da
curadoria de Tex de 2012 a 2025, dando lugar à Giorgio Giusfredi e por Luca
Barbieri.
Em Patagônia, Tex continua sendo
um homem justo, porém, pela primeira vez, sua justiça se mostra insuficiente
diante da História. O inimigo não é um fora da lei, mas a lógica do Estado, da
guerra e da colonização. Tex observa, questiona, resiste… e falha. Não por
fraqueza, mas porque certas engrenagens são grandes demais para serem detidas
por um único homem.
Kit Willer, por sua vez,
representa o olhar jovem e ainda esperançoso, que é abalado quando confrontado pela
brutalidade da política que busca a guerra. Ele e o pai participarem desta
jornada foi muito acertado, pois rende momentos de carinho entre pai e filho,
que raramente vemos nas edições regulares.
Personagens centrais
O coração trágico da história é
Ricardo Mendoza. Idealista, humano, ele acredita sinceramente na convivência
pacífica entre brancos e indígenas. Ao chamar Tex, acredita que sua presença
garantirá equilíbrio e justiça. Mas Mendoza subestima a violência
institucionalizada e o ódio de seus superiores.
Seu oposto é o capitão Diego
Recabarren, arrogante, racista e sedento por glória. Para ele, os indígenas são
obstáculos a serem eliminados e Tex, uma ameaça à hierarquia militar.
Acima de todos paira Julio Roca, que
comanda de longe e não aparece na edição, mas é retratado de acordo com a
história argentina: frio, racional, implacável. Não é um vilão clássico, mas a
personificação da razão de Estado, onde a compaixão é um luxo descartável.
O enredo e a tragédia anunciada
Quando Tex e seu agrupamento
conseguem vencer Calfucurá (que tem um fim aqui diferente da realidade, pois
Calfucurá foi um importante líder até o fim da conquista do deserto), os
soldados argentinos avançam contra as tribos, o que resulta em violência. A
missão de paz se converte em massacre.
Tex tenta intervir, mas é tarde.
Os indígenas, traídos, reagem com fúria. A guerra se espalha pelas planícies.
Mendoza perde o controle de seus homens. Tex e Kit acabam isolados, lutando
para salvar mulheres e crianças indígenas em meio ao caos.
O ápice ocorre com Roca ordenando
a destruição total das tribos rebeldes. Mendoza tenta resistir, mas é ameaçado
de corte marcial. Em uma das falas mais impactantes da obra, ele confronta o
general: “Chamam isso de civilização. Eu só vejo barbárie.”
Tex se recusa a obedecer ordens injustas. Junto de Kit, e poucos soldados leais, resiste nas montanhas por dias. O desfecho é amargo: o exército vence, mas a vitória soa como derrota moral.
Patagônia é menos bangue bangue e
mais consciência, colonialismo, racismo institucional, choque entre dever e
ética, impotência moral. Não há romantização: os indígenas também lutam e
matam, mas são os únicos que defendem algo essencial: a própria existência.
Tex – Patagônia é um western adulto, histórico e profundamente humano. Uma obra que expõe as feridas da civilização e questiona o mito do progresso. Ao final, Tex cavalga sob o vento frio do sul, sem vitória, sem consolo, apenas com a certeza de que testemunhou mais uma injustiça da História.
A arte monumental de Pasquale Frisenda
O trabalho de Pasquale Frisenda
em Patagônia é simplesmente magistral. Sua Patagônia é vasta, fria e hostil. Um
espaço onde o homem parece sempre pequeno demais. Os rostos são marcados pela
dor, pelo cansaço e pela culpa. Soldados exaustos, indígenas orgulhosos,
mulheres de olhar triste. A violência nunca é glamorizada: cada morte pesa,
cada batalha deixa cicatrizes.
Frisenda evita o heroísmo clássico. Tudo é sujo, pesado, humano. O uso de luz e sombra cria um clima quase expressionista, onde o cenário reflete o estado moral das personagens.
Destaque especial para sua
retratação dos gaúchos argentinos, figuras centrais da identidade cultural do
país, especialmente das regiões dos Pampas.
Surgidos entre os séculos XVIII e XIX, eles eram homens do campo, hábeis
cavaleiros que viviam da lida com o gado, do trabalho nas estâncias e, muitas
vezes, de uma vida nômade, marcada pela liberdade e pela dureza da paisagem.
Usam trajes próprios e sua arma principal é a boleadeira, da qual Kit se
aventura em aprender a usar.
Tex ao encontrá-los pela primeira vez não foi bem recebido e teve que se provar em uma clássica briga de facas. Momento incrível desta história. Os gaúchos foram fundamentais para esta trama e bem retratados até o final.
Frisenda revela que começou a trabalhar em Patagônia em 2006, três anos antes da publicação. O projeto foi decisivo em sua carreira e contou com acompanhamento direto de Sergio Bonelli, que revisou e ajudou a desenvolver vários trechos narrativos. Foi o próprio Bonelli que pediu uma história de Tex na Patagônia. Entre suas próprias aventuras no continente, Bonelli visitou o local, de carro, e se apaixonou pela paisagem.
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| Bandeirante que Sergio Bonelli usou em 1984 para ir de Campo Grande (MS) à Patagônia. |
A ambientação na Argentina do século XIX exigiu vasta pesquisa: fardas, armas, cidades, indígenas, gaúchos. Frisenda mergulhou em referências históricas e encontrou inspiração decisiva na obra do pintor argentino Juan Manuel Blanes.
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| El Lazo - Juan Manuel Blanes (1865) |
Patagônia
não é apenas um capítulo importante na trajetória de Pasquale Frisenda, é o
ponto em que sua arte atinge plena maturidade. Cada página carrega o peso da
paisagem, da história e das escolhas humanas que ali se desenrolam. O esforço,
a pesquisa e o desgaste se transformam em potência narrativa, em imagens que
não buscam agradar, mas permanecer.
A obra teve o reconhecimento de Sergio
Bonelli, dos leitores e de colegas, incluindo um elogio marcante para Pasquale vindo de Sergio Toppi. Frisenda
sabia que aquela história precisava ser feita naquele momento, com aquela
entrega. E talvez por isso Patagônia siga tão atual: porque
nasce de um olhar honesto sobre o passado, antes que o próprio quadrinho
perdesse parte dessa honestidade. É uma obra que não envelhece, resiste, como a
terra que retrata.
Para conhecer mais sobre a obra, recomendo o Podcast HQueiros do qual participei e falei sobre Tex - Patagônia:



























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