A revista “Senninha e sua turma” foi a leitura mais marcante da minha infância. Ainda hoje amo as histórias, os personagens e, principalmente, a ligação daquele universo com o piloto que a inspirou: Ayrton Senna. Entre tantas edições, a de número 18 tem um lugar especial na minha memória. Li e reli suas páginas inúmeras vezes, sobretudo a emocionante “Um A (ini) migo Francês!”.
Escrita por Mario Mattoso e
desenhada por Aluir Amâncio, a história conta sobre o encontro entre
Senninha e Alan. Uma belíssima homenagem a Alain Prost e à relação que ele e
Senna construíram dentro e fora das pistas de Fórmula 1.
Na história, Senninha vai passar
as férias em Paris. Enquanto passeia pela Cidade Luz com seu carrinho de rolimã
debaixo do braço, esbarra em um menino que compartilha sua paixão pelo
automobilismo.
Os dois começam a brincar e logo
passam a competir, primeiro com os carrinhos de rolimã, depois nos karts. A
competição faz com que se esforcem cada vez mais para superar um ao
outro. Senninha pratica exercícios, estuda as pistas e Alan também. As vitórias
ficam divididas, uma hora Senninha ganha, outra Alan.
A disputa, porém, acaba criando
uma rivalidade que cresce até os dois deixarem de se falar. Mesmo assim, por
trás do orgulho e da vontade de vencer, permanecem o respeito e a admiração.
Quando precisa voltar ao Brasil e enfrentar pilotos como o trapaceiro Braço
Duro, Senninha sente falta do amigo francês.
A leitura quando criança é
divertidíssima porque o clima de competição é empolgante, quem vai ganhar e
perder, e principalmente, qual dos dois é o melhor. Isso não é revelado pois Senninha precisa ir embora antes do final da competição.
Hoje, percebo melhor a sensibilidade do roteiro de Mattoso ao condensar, em apenas 15 páginas, momentos tão importantes da relação e carreira dos dois pilotos. Amâncio capricha em seus desenhos, tanto na ação e detalhes das corridas, quanto nos cenários e personagens. Seu Alan é um pequeno Prost: o nariz proeminente, uma sobrancelha erguida e a outra abaixada, a expressão entre séria e triste. Uma caracterização que torna a homenagem imediatamente reconhecível.
Senna e Prost se tornaram
companheiros de equipe na McLaren em 1988. O francês já era bicampeão mundial e
um dos grandes nomes a serem batidos. Senna, por sua vez, vinha demonstrando
seu talento desde a estreia na Fórmula 1, em 1984, pela Toleman. Naquele mesmo
ano, ao terminar em segundo lugar no chuvoso GP de Mônaco, atrás de Prost, já
havia mostrado que podia desafiar os melhores mesmo com um carro pouco
competitivo.
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| Prost e Senna no GP de Mônaco de 1984. Foto: Bernard Bakalian |
O desgaste nas corridas era intenso e Senna precisou de uma preparação física e mental rigorosa para conseguir competir e superar o rival francês, assim como mostrado na HQ. O campeonato de 1988 foi disputado ponto a ponto, corrida a corrida entre Senna e Prost, resultando no primeiro título do brasileiro na Fórmula 1.
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| Senna em seu treinamento rigoroso com o preparador físico Nuno Cobra. Foto: Agência Estado |
No ano seguinte, a relação se deteriorou. A tensão chegou ao limite no GP do Japão, em Suzuka, quando os dois se chocaram durante uma tentativa de ultrapassagem de Senna na chicane. Prost abandonou a prova. Senna voltou à corrida e cruzou a linha de chegada em primeiro, mas acabou desclassificado. O campeonato ficou com o francês.
O momento em que os dois saíram da pista foi retratado na HQ do Senninha e também a imagem que marcaria a reconciliação dos dois: o pódio do GP da Austrália de 1993, em Adelaide. Naquela que seria sua última vitória na Fórmula 1, Senna puxou Prost para o degrau mais alto e o abraçou.
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| AFP/Getty Images |
Era também a despedida de Prost
das pistas, depois de conquistar seu quarto título mundial. Nos meses
seguintes, a distância da competição abriu espaço para uma aproximação. Senna
passou a telefonar para o antigo rival, conversando sobre a Williams e os desafios
que enfrentava na nova equipe.
Pouco antes do acidente fatal em Ímola, em 1994, Senna chegou a mandar uma mensagem de rádio histórica para a transmissão francesa, onde Alain participava como comentarista dizendo: "Um alô especial para o meu querido amigo Alain. Todos nós sentimos sua falta, Alain".
Senna e Prost foram fundamentais
um para o outro. Cada um encontrou no rival uma referência de excelência e um
desafio à altura do próprio talento. Para Senna, superar Prost significava
vencer um piloto consagrado, completo e experiente, em confronto direto. Para
Prost, enfrentar Senna exigia responder a velocidade e a ambição de alguém que
ameaçava seu lugar no topo.
Os dois tinham maneiras próprias
de correr e de encarar a competição e ao longo dos anos, suas disputas revelaram
tanto suas qualidades extraordinárias quanto suas contradições. E cada um
ajudou a dar dimensão à grandeza do outro.
A história em quadrinhos traduz
essa relação para o universo infantil sem perder sua força. Sempre com o
intuito de passar uma mensagem positiva, mostra que a competitividade pode
existir, desde que seja saudável e que a amizade deve sempre prevalecer.
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| Mark Sutton/Motorsport Images |
Criado por Rogério Martins e
Ridaut Dias Júnior, com o aval do próprio Ayrton Senna, a revista Senninha e
sua turma teve 97 edições publicadas pela Editora Abril. O número 18 tem 68
páginas e além do encontro com Alan, traz outras sete histórias.
A edição chegou às bancas em
junho de 1995, pouco mais de um ano do falecimento do piloto que tanto inspirou os
brasileiros e que, por meio do Senninha, continuou a incentivar as crianças a
brincar, se divertir e se dedicarem ao que amam e ao que as fazem felizes.





















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